A osteoartrose do joelho é uma das situações que mais frequentemente leva uma pessoa a reduzir a atividade física, evitar determinados movimentos ou abandonar o treino. Muitas vezes, porém, o problema não está simplesmente no exercício. Está na forma como o treino é escolhido, doseado e adaptado à pessoa.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2026 analisou precisamente esta questão: qual poderá ser a relação entre a dose de treino de força e a evolução da dor, da função e da força muscular em pessoas com osteoartrose do joelho?
O trabalho reuniu 20 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 791 pessoas, e estudou especificamente exercícios isotónicos de resistência para os membros inferiores. Os investigadores analisaram diferentes intensidades e volumes de treino e procuraram perceber se existia uma relação entre a quantidade de exercício realizada e os resultados obtidos.
O treino de força pode ajudar na osteoartrose do joelho
A primeira mensagem é relativamente simples: o treino de força pode ser uma ferramenta útil para pessoas com osteoartrose do joelho.
Na análise, o treino de resistência esteve associado a melhorias na dor, na função e na força muscular. Isto não significa que qualquer treino, independentemente da forma como é realizado, produza necessariamente os mesmos resultados.
É precisamente aqui que considero que a discussão fica mais interessante.
Durante muitos anos, a conversa sobre exercício para um joelho com osteoartrose foi frequentemente reduzida a uma pergunta: “Que exercício posso fazer sem ter dores?”
Eu prefiro colocar a questão de outra maneira: “Que estímulo consigo aplicar hoje, e como posso fazê-lo evoluir ao longo do tempo?”
Esta diferença parece pequena, mas muda completamente a forma de construir um programa de treino.
Nem sempre mais intensidade significa melhores resultados
Um dos resultados interessantes desta revisão foi a diferença observada entre intensidade e objetivo.
Para a redução da dor, os melhores resultados estimados apareceram com intensidades muito leves a moderadas. Para a melhoria da função, a intensidade moderada apresentou os maiores efeitos estimados. Já para o aumento da força muscular, as intensidades moderadas a vigorosas apresentaram ganhos semelhantes.
Esta informação é importante porque mostra que não existe necessariamente uma única intensidade ideal para todos os objetivos.
Se o principal objetivo de uma pessoa é melhorar a capacidade funcional, talvez o treino moderado seja particularmente interessante. Se o objetivo passa por desenvolver força, poderá ser possível utilizar estímulos mais exigentes, desde que a pessoa esteja preparada para os tolerar.
E se existe uma elevada sensibilidade à dor, começar mais leve pode ser uma estratégia perfeitamente válida.
O volume também parece importar
Os investigadores encontraram relações dose–resposta não lineares entre o volume de exercício e os resultados.
Nas análises realizadas, a maior redução estimada da dor apareceu aproximadamente às 6000 repetições. A melhoria máxima estimada da função ocorreu por volta das 2600 repetições de intensidade moderada, enquanto os ganhos máximos estimados de força apareceram aproximadamente às 1600 repetições.
Estes números são interessantes, mas precisam de ser interpretados com cuidado.
Não significa que uma pessoa com osteoartrose deva começar a contar repetições até atingir obrigatoriamente 1600, 2600 ou 6000. Muito menos significa que 6000 repetições constituam uma “dose ideal” universal.
São estimativas provenientes de uma análise estatística de diferentes estudos, realizados com diferentes pessoas, exercícios e programas de treino.
Na prática, o número de repetições é apenas uma parte da dose de exercício. Também precisamos de considerar a frequência semanal, a carga utilizada, a amplitude do movimento, a velocidade de execução, os períodos de descanso, a recuperação e, sobretudo, a resposta individual.
O que significa isto para quem treina?
Imagine uma pessoa de 55, 65 ou 70 anos com osteoartrose do joelho que deixou de fazer agachamentos porque sente desconforto.
Uma possibilidade seria simplesmente eliminar todos os exercícios que provocam qualquer sensação no joelho.
Outra possibilidade é avaliar o movimento, perceber qual a amplitude tolerada, ajustar a carga e encontrar uma variante que permita começar com um estímulo suficientemente fácil para ser repetido e progressivamente desenvolvido.
Pode ser um agachamento parcial, uma extensão do joelho numa máquina, uma prensa com amplitude adaptada, um step-up baixo, uma sentar-e-levantar de uma cadeira ou outro exercício adequado às características da pessoa.
O exercício inicial não precisa de ser o exercício final.
Esta é uma ideia que considero particularmente importante no treino de pessoas com dor ou limitações articulares.
A dor não deve ser o único critério
Quando treinamos uma pessoa com osteoartrose, olhar exclusivamente para a dor pode ser insuficiente.
É importante perceber como a pessoa se movimenta, que tarefas tem dificuldade em realizar, qual é a sua força, como tolera determinadas amplitudes e como recupera depois do treino.
Uma pessoa pode apresentar algum desconforto durante determinado exercício e, ainda assim, estar a evoluir globalmente. Outra pode realizar o exercício sem qualquer desconforto no momento e apresentar uma reação negativa significativa nas horas seguintes.
Por isso, a resposta ao treino deve ser observada ao longo do tempo.
Também devemos considerar que a osteoartrose não é simplesmente uma questão de “desgaste”. A capacidade funcional de uma pessoa depende de vários fatores, incluindo força muscular, capacidade cardiovascular, mobilidade, peso corporal, confiança no movimento, experiência anterior de exercício e contexto geral.
Treino em casa ou no ginásio?
A revisão encontrou benefícios tanto em programas realizados em casa como em programas realizados em centros de exercício. No entanto, os efeitos foram mais pronunciados nos programas realizados em contexto supervisionado ou em centro.
Isso não significa que o treino em casa não funcione.
Pode significar que o acompanhamento permite controlar melhor a execução, selecionar os exercícios, ajustar a intensidade e aumentar progressivamente a dificuldade.
Para algumas pessoas, o ginásio oferece ainda uma vantagem adicional: permite uma progressão muito mais precisa da carga.
Uma máquina de extensão do joelho, por exemplo, permite aumentar progressivamente a resistência. Uma prensa permite modificar a carga de forma objetiva. Um step pode ser progressivamente aumentado. Um exercício com peso corporal pode ser alterado através da amplitude, velocidade, apoio ou dificuldade mecânica.
Não é o equipamento que determina o sucesso do treino. É a capacidade de utilizar o equipamento para aplicar um estímulo adequado.
O treino deve ser individualizado
Um dos erros que procuro evitar é transformar os resultados de uma revisão científica numa receita rígida.
Se uma meta-análise encontra uma determinada relação entre volume e melhoria da função, isso não significa que todas as pessoas devam receber exatamente esse volume.
Uma pessoa que nunca treinou pode responder muito bem a uma quantidade relativamente pequena de exercício.
Outra pessoa, já treinada, poderá necessitar de um estímulo superior para continuar a evoluir.
Também existem diferenças importantes na idade, força inicial, experiência de treino, composição corporal, nível de atividade diária, sono, recuperação e capacidade de tolerar determinado exercício.
Por isso, gosto de pensar no treino como um processo de adaptação contínua e não como uma receita que se mantém igual durante meses.
Progressão: provavelmente mais importante do que procurar o exercício perfeito
Quando alguém pergunta qual é o melhor exercício para a osteoartrose do joelho, muitas vezes procura uma resposta simples.
Mas talvez a pergunta mais útil seja: como podemos fazer com que a pessoa tolere progressivamente mais trabalho?
Podemos começar com uma carga baixa e aumentar gradualmente.
Podemos começar com poucas repetições e aumentar o volume.
Podemos utilizar uma amplitude reduzida e aumentá-la posteriormente.
Podemos alterar a velocidade do movimento.
Podemos reduzir ou aumentar os períodos de descanso.
Podemos passar de um exercício muito simples para outro mais exigente.
O princípio é simples: encontrar um ponto de partida adequado e criar condições para progredir.
O que esta revisão acrescenta?
Esta revisão é particularmente útil porque não se limita a perguntar se o treino de força funciona. Procura também perceber a relação entre a dose de exercício e diferentes resultados.
Os resultados sugerem que o treino isotónico de resistência pode melhorar dor, função e força em pessoas com osteoartrose do joelho.
Também sugerem que diferentes objetivos podem responder de forma diferente à intensidade e ao volume.
Mas existe uma limitação importante: a certeza da evidência foi considerada baixa a muito baixa. Isto significa que devemos interpretar os resultados como informação útil para orientar a prescrição, e não como uma fórmula definitiva.
É precisamente por isso que continuo a considerar essencial a individualização do treino.
O meu ponto de vista como profissional de exercício
Para mim, uma das ideias mais interessantes deste trabalho é que reforça algo que observo frequentemente na prática: uma pessoa com osteoartrose não precisa necessariamente de abandonar o treino de força.
Pelo contrário, o treino pode ser uma das ferramentas utilizadas para recuperar capacidade.
Mas é necessário saber começar.
Não há vantagem em escolher imediatamente o exercício mais difícil, utilizar uma carga excessiva ou tentar reproduzir o treino de outra pessoa.
Começaria por perceber o que a pessoa consegue fazer naquele momento. Depois escolheria exercícios simples, ajustaria a amplitude e a carga e observaria a resposta.
A partir daí, procuraria progressivamente aumentar a capacidade.
Porque o objetivo não é simplesmente conseguir fazer um exercício no ginásio.
O objetivo é que essa maior capacidade se traduza em coisas concretas: subir escadas com mais facilidade, levantar-se de uma cadeira, caminhar, correr, brincar com os filhos ou netos, praticar um desporto ou simplesmente voltar a confiar no próprio joelho.
Conclusão
O treino de força é uma ferramenta relevante para pessoas com osteoartrose do joelho. A evidência mais recente sugere benefícios na dor, função e força muscular, mas também mostra que intensidade e volume podem ter relações diferentes com cada objetivo.
Não vejo estes resultados como uma razão para procurar uma quantidade exata de repetições. Vejo-os como mais uma razão para pensar no treino em termos de dose, resposta e progressão.
Um bom programa não precisa de começar difícil. Precisa de começar no ponto certo.
E, a partir desse ponto, deve permitir que a pessoa faça progressivamente mais, melhor e com maior confiança.
Posso ajudar
Posso ajudar a adaptar o treino de força às características de cada pessoa, ajustando exercícios, carga, amplitude e progressão para melhorar capacidade, confiança e autonomia.
Referências
- Núñez-Cortés R, Suso-Martí L, Tur-Boned A, et al. Tailoring Resistance Exercise for Knee Osteoarthritis: An Intervention Systematic Review With Dose-Response Meta-analysis of the Effects of Intensity and Volume. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. 2026;56(9):585-595. DOI: 10.2519/jospt.2026.13477.
- PubMed – PMID 42676087