Acordar a meio da noite significa dormir mal? Nem sempre.
Durante décadas, fomos ensinados a pensar no sono como um bloco contínuo: deitar, adormecer, dormir sete ou oito horas sem interrupções e acordar de manhã.
Quando alguém acorda às duas ou três da madrugada, a reação habitual é imediata: “Tenho insónias.”
Mas será que acordar durante a noite é necessariamente um problema?
A história do sono humano sugere que a resposta pode ser bastante mais interessante.
O primeiro e o segundo sono
Antes da iluminação elétrica transformar completamente a nossa relação com a noite, existem numerosas referências históricas a um padrão conhecido como primeiro sono e segundo sono.
A pessoa deitava-se depois do anoitecer, dormia durante algumas horas e, em determinado momento da noite, acordava espontaneamente.
Seguia-se um período de vigília que podia durar uma hora ou duas.
Depois, voltava a dormir.
Era o chamado primeiro sono, seguido de um período de vigília e posteriormente pelo segundo sono.
O historiador Roger Ekirch reuniu numerosas referências históricas a este tipo de organização do sono, incluindo referências a “first sleep” e “second sleep” em diferentes períodos e sociedades.
Mas existe uma ressalva importante.
A investigação histórica mais recente questiona a ideia de que praticamente todas as pessoas dormiam obrigatoriamente desta forma. Há evidências de padrões diferentes, e algumas das referências históricas podem simplesmente representar despertares noturnos normais.
Portanto, não devemos substituir um mito moderno por outro.
Não podemos afirmar que “o ser humano foi feito para dormir sempre em dois períodos”.
Podemos, no entanto, afirmar algo muito mais interessante:
O sono humano não teve necessariamente, ao longo da história, o formato contínuo que hoje consideramos normal.
E se acordar não for o problema?
Imagine que adormece às 22h30.
Dorme profundamente durante quatro horas.
Às 02h30 acorda naturalmente.
Não está preocupado.
Não está a olhar constantemente para o relógio.
Não está desesperado para voltar a dormir.
Levanta-se, lê algumas páginas, pensa na vida, escreve algumas ideias ou simplesmente permanece tranquilo durante algum tempo.
Depois sente sono novamente e volta para a cama.
Dorme mais três horas.
Será que necessariamente dormiu mal?
Não.
O simples facto de existir um período de vigília durante a noite não permite diagnosticar insónia nem significa, por si só, que o sono tenha sido inadequado.
O que interessa é o conjunto: duração total, qualidade do sono, funcionamento durante o dia, frequência dos despertares e a forma como a pessoa se sente.
A nossa relação moderna com o sono
Existe ainda outro elemento que mudou radicalmente a noite: a luz artificial.
Durante grande parte da história humana, depois do pôr do sol havia uma enorme diferença entre a luminosidade do dia e a escuridão da noite.
Hoje podemos manter uma sala iluminada às duas da madrugada, trabalhar num computador, ver televisão, consultar o telemóvel ou permanecer expostos a luz intensa durante horas.
A noite deixou de ser necessariamente um período de escuridão.
Isso não significa que a eletricidade tenha “estragado” o nosso sono. Significa apenas que o ambiente moderno permite prolongar a vigília muito para além do que era possível durante grande parte da história.
E isso pode influenciar a forma como organizamos o sono.
Dormir continuamente é sempre melhor?
Não devemos concluir que o sono bifásico é superior ao sono contínuo.
Para algumas pessoas, um período longo e contínuo de sono funciona perfeitamente.
Para outras, pequenos despertares são frequentes.
E algumas pessoas podem naturalmente apresentar períodos mais prolongados de vigília durante a noite.
O problema surge quando transformamos um despertar normal numa fonte de ansiedade.
A pessoa acorda às 03h00.
Olha para o relógio.
“Tenho de dormir.”
Passam dez minutos.
“Tenho de dormir.”
Passam vinte.
“Se não dormir agora, amanhã vou estar destruído.”
O próprio esforço para dormir pode aumentar a ativação e dificultar o regresso ao sono.
Assim, aquilo que começou como um simples despertar pode transformar-se num problema de sono alimentado pela preocupação.
O mais importante pode ser a relação com o despertar
Existe uma diferença enorme entre:
“Acordei durante a noite e estive tranquilo durante algum tempo.”
e
“Acordei durante a noite e entrei imediatamente em estado de alerta porque achei que alguma coisa estava errada.”
A experiência subjetiva pode ser muito diferente.
É por isso que, quando avaliamos o sono, não devemos olhar apenas para o número de despertares registados por um relógio ou anel.
Também devemos olhar para a pessoa.
Como se sente durante o dia?
Tem energia?
Consegue concentrar-se?
Tem sonolência excessiva?
Volta a adormecer naturalmente?
O despertar acontece ocasionalmente ou praticamente todas as noites durante longos períodos?
Estas perguntas são muito mais informativas do que simplesmente dizer: “Acordou às três da manhã, portanto dormiu mal.”
Uma pausa durante a noite pode ser apenas isso: uma pausa
Talvez uma das ideias mais interessantes seja esta.
Nem todos os despertares precisam de ser corrigidos.
Se acordamos tranquilamente, podemos simplesmente aceitar que estamos acordados.
Não precisamos de transformar imediatamente esse momento numa batalha contra o sono.
Podemos permanecer na cama, relaxar, ler com luz suave ou realizar uma atividade tranquila e, quando a sonolência regressar, voltar a dormir.
Naturalmente, isto não significa que uma pessoa com insónia persistente deva simplesmente aceitar o problema.
Despertares frequentes associados a grande sofrimento, incapacidade de voltar a dormir, sonolência diurna significativa ou outros sintomas merecem avaliação adequada.
A questão é outra:
Um despertar noturno isolado não deve automaticamente ser confundido com uma doença.
Talvez tenhamos de voltar a olhar para a noite de outra maneira
Durante séculos, a noite não foi necessariamente encarada como um único bloco entre o momento de deitar e o momento de levantar.
Em determinados contextos históricos, existia espaço para dormir, acordar, estar desperto e voltar a dormir.
Hoje, com horários rígidos, despertadores, trabalho por turnos, iluminação artificial e dispositivos eletrónicos, criámos uma relação muito mais controlada com o sono.
Talvez uma das consequências seja termos começado a interpretar qualquer interrupção como uma falha.
Mas o sono humano é mais complexo do que isso.
Dormir bem não significa necessariamente nunca acordar.
Significa, sobretudo, conseguir obter um sono adequado às necessidades do organismo e funcionar bem durante o dia.
E talvez seja precisamente aqui que começa a parte mais fascinante desta história.
Porque o que uma pessoa fazia durante aquela hora em que acordava no meio da noite também mudou radicalmente ao longo dos séculos.
Antes da televisão, do smartphone e das redes sociais, o que acontecia durante esse intervalo?
É isso que veremos no próximo artigo.
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Referências
Ekirch, A. Roger (2001). Sleep We Have Lost: Pre-industrial Slumber in the British Isles. American Historical Review, 106(2), 343–386.
Consultar o estudo na PubMed
Yetish, G. et al. (2015). Natural Sleep and Its Seasonal Variations in Three Pre-industrial Societies. Current Biology, 25(21), 2862–2868.
Consultar o estudo na PubMed
Dijk, D.-J. & Skeldon, A. C. (2015). Human sleep before the industrial era. Nature, 527, 176–177.
Consultar o artigo na Nature
Ekirch, A. Roger (2015). Segmented Sleep in Preindustrial Societies. Este artigo discute a evidência histórica para o chamado sono segmentado e também a controvérsia gerada pelos estudos contemporâneos sobre sociedades pré-industriais.
Consultar o artigo na PMC
Texto sobre o sono
Parte 1 – Ainda bem que você acorda a meio da noite?
Parte 2 – O que fazia uma pessoa às 2 da manhã antes de existir o telemóvel?
Parte 3 – O que acontece no cérebro quando acordamos a meio da noite?