Imagine acordar às duas da manhã sem televisão, sem computador, sem smartphone e sem notificações no ano de 1700.
O que faria?
Hoje, provavelmente, muitas pessoas pegariam imediatamente no telemóvel. Outras tentariam voltar a dormir enquanto olham para o relógio e pensam: “Amanhã tenho de acordar cedo.”
Mas durante grande parte da história humana, a noite era completamente diferente.
Não existia eletricidade. Não havia luzes acesas por toda a casa. Não havia redes sociais, notícias 24 horas por dia ou um fluxo permanente de informação.
E, quando alguém acordava durante a noite, havia muito menos coisas a competir pela sua atenção.
Como vimos no primeiro artigo desta série, existem numerosas referências históricas a primeiro sono e segundo sono. Mas a investigação mais recente aconselha alguma prudência: essas referências não significam necessariamente que todas as pessoas tivessem todas as noites um período perfeitamente definido de uma ou duas horas acordadas.
O que sabemos é que as pessoas acordavam durante a noite e, em determinados contextos, realizavam diferentes atividades durante esses períodos de vigília.
A noite não era necessariamente tempo perdido
Hoje temos uma tendência para considerar que estar acordado durante a noite é estar a desperdiçar tempo de sono.
Historicamente, a relação podia ser diferente.
Quando alguém acordava depois de algumas horas de sono, podia simplesmente permanecer acordado durante algum tempo antes de voltar para a cama.
O período podia ser utilizado para coisas muito simples: conversar, rezar, refletir, cuidar de uma criança, tratar de necessidades fisiológicas ou realizar alguma tarefa doméstica.
Há referências históricas que descrevem também pessoas a comer durante a noite, incluindo um relato de 1555 sobre os Tupinambá, no Brasil, segundo o qual algumas pessoas se levantavam para comer depois do primeiro sono e posteriormente voltavam a dormir.
Ou seja, estar acordado durante a noite não significava necessariamente estar preocupado por não estar a dormir.
Conversar no escuro
Uma das imagens mais interessantes da noite pré-industrial é a de duas pessoas simplesmente a conversar.
Sem televisão ligada.
Sem notificações.
Sem ecrãs.
Sem a sensação permanente de que existe alguma coisa que precisamos de consultar.
Há referências históricas a conversas durante períodos de vigília noturna, incluindo conversas entre companheiros de cama e preocupações com o bem-estar de familiares.
É importante, contudo, não transformar estas referências numa descrição universal da vida noturna. A evidência mostra que as pessoas acordavam e conversavam, mas não permite concluir que todas as pessoas se levantavam diariamente para passar uma hora a socializar.
Essa distinção é importante.
Estamos a reconstruir comportamentos históricos, não a descobrir uma regra biológica obrigatória.
Rezar, pensar e simplesmente estar acordado
A religião também ocupava um espaço importante na vida noturna de muitas sociedades.
Existem referências a pessoas que utilizavam períodos de vigília para rezar.
Mas talvez ainda mais interessante seja aquilo que hoje chamamos simplesmente de reflexão.
Sem estímulos constantes, estar acordado podia significar estar sozinho com os próprios pensamentos.
Pensar no dia que passou.
Recordar um sonho.
Planear o dia seguinte.
Conversar mentalmente consigo próprio.
Ou simplesmente permanecer acordado sem necessidade de preencher imediatamente aquele silêncio.
É precisamente aqui que a comparação com o mundo moderno se torna interessante.
Hoje, quando acordamos às três da manhã, muitas vezes procuramos imediatamente alguma coisa para ocupar a atenção.
O smartphone resolve esse “problema” em segundos.
Mas também elimina quase completamente o silêncio.
E ler durante a noite?
Sim, existem referências históricas à leitura durante períodos noturnos, embora seja necessário ter cuidado com generalizações.
A possibilidade de ler dependia obviamente do acesso a livros e de existir alguma fonte de iluminação.
Antes da eletricidade, uma vela, uma lamparina ou outra fonte de luz permitia prolongar algumas atividades depois do anoitecer.
Roger Ekirch descreve, na sua investigação sobre a noite pré-industrial, a utilização de fontes de iluminação artificiais rudimentares e também a utilização da luz da lua e das estrelas em determinadas situações.
Mas ler às três da manhã não seria uma atividade tão simples como hoje.
Era preciso ter luz.
E a luz tinha um custo.
Isso ajudava a tornar a noite verdadeiramente diferente do dia.
Trabalhar durante a noite
Também não devemos imaginar que todas as pessoas pré-industriais estavam confortavelmente deitadas numa cama à espera do segundo sono.
Havia pessoas que trabalhavam durante a noite.
Servos, trabalhadores, cuidadores, pessoas responsáveis pelos animais ou pelo fogo e outras profissões podiam ter necessidades específicas.
Algumas pessoas precisavam simplesmente de se levantar porque alguém ou alguma coisa precisava delas.
Esta é outra razão pela qual devemos ter cuidado quando tentamos transformar relatos históricos numa teoria universal sobre o sono humano.
Acordar durante a noite podia ser uma escolha, um hábito, uma necessidade física ou uma obrigação.
E caminhar?
A ideia de sair para caminhar durante uma pausa noturna é particularmente interessante.
Mas aqui devemos distinguir entre aquilo que sabemos historicamente e aquilo que estamos simplesmente a imaginar.
Existem descrições de pessoas que se deslocavam durante a noite, visitavam vizinhos ou realizavam tarefas fora da cama. Também existem sociedades em que os períodos noturnos eram relativamente ativos.
Mas não temos base para dizer que “as pessoas antigamente acordavam e iam todas caminhar durante uma hora”.
Isso seria transformar uma possibilidade histórica numa regra.
A ideia interessante é outra: se uma pessoa acordasse naturalmente durante a noite, a noite permitia outras formas de atividade que hoje praticamente desapareceram.
A grande transformação foi a luz
Talvez nenhuma tecnologia tenha alterado tanto a experiência noturna como a iluminação artificial.
Com velas e lamparinas, era possível prolongar algumas atividades, mas a noite continuava a ser predominantemente escura.
Com a eletricidade, tornou-se possível transformar a noite em dia.
Podemos trabalhar às duas da manhã, fazer exercício, cozinhar, ver filmes, conversar com alguém do outro lado do mundo ou consultar milhares de páginas de informação.
O problema não é simplesmente termos mais opções.
É que o cérebro passou a viver num ambiente em que a noite deixou de impor uma pausa tão evidente.
A investigação histórica sugere que a iluminação artificial foi uma das forças importantes na transformação dos horários e hábitos de sono das sociedades ocidentais.
Do silêncio ao smartphone
Existe uma diferença enorme entre acordar às 02h30 em 1700 e acordar às 02h30 em 2026.
Em 1700, podia existir silêncio, escuridão, uma vela, alguém próximo e os próprios pensamentos.
Em 2026, podemos ter acesso imediato a praticamente toda a informação produzida pela humanidade.
Podemos receber mensagens.
Podemos consultar notícias.
Podemos trabalhar.
Podemos entrar numa discussão nas redes sociais.
Podemos ver vídeos durante duas horas sem percebermos como passou o tempo.
Ou podemos simplesmente voltar a dormir.
Talvez a questão não seja descobrir qual destas opções é “natural”.
A questão é perceber qual delas favorece aquilo que realmente queremos naquele momento: descansar, relaxar ou estar acordados durante algum tempo sem ativar demasiado o cérebro.
Talvez devêssemos reaprender a estar acordados à noite
Se acordarmos naturalmente durante a noite e não estivermos preocupados, talvez não seja necessário transformar imediatamente esse momento numa luta contra o sono.
Podemos permanecer tranquilos.
Podemos ler algumas páginas.
Podemos escrever uma ideia.
Podemos ouvir música calma.
Podemos respirar, pensar ou simplesmente deixar o tempo passar.
Uma pequena caminhada pode ser outra possibilidade para algumas pessoas, desde que seja segura e não envolva exposição a luz intensa ou atividades demasiado estimulantes.
Depois, quando o sono voltar, regressamos à cama.
Não precisamos necessariamente de transformar cada despertar numa emergência.
A noite mudou. O nosso cérebro também?
É aqui que esta história começa a ficar ainda mais interessante.
Porque enquanto a história nos mostra que a relação humana com a noite mudou profundamente, a fisiologia continua a funcionar através de mecanismos muito antigos.
Melatonina.
Temperatura corporal.
Adenosina.
Cortisol.
Ritmo circadiano.
Fases NREM e REM.
Todos estes sistemas continuam a organizar o nosso sono durante a noite.
E talvez o período em que acordamos entre dois períodos de sono também tenha uma explicação fisiológica muito mais interessante do que simplesmente “tenho insónias porque acordei”.
No próximo artigo vamos entrar precisamente aí: o que acontece no cérebro e nas hormonas quando acordamos a meio da noite?
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Referências
Ekirch, A. Roger (2016). Segmented Sleep in Preindustrial Societies. Sleep, 39(3), 715–716.
Consultar o artigo na PubMed
Boyce, Niall (2023). Have we lost sleep? A reconsideration of segmented sleep in early modern England. Medical History, 67(2), 91–108.
Consultar o artigo completo na PMC
Ekirch, A. Roger (2001). Sleep We Have Lost: Pre-industrial Slumber in the British Isles. American Historical Review, 106(2), 343–386.
Consultar a referência na PubMed
Texto sobre o sono
Parte 1 – Ainda bem que você acorda a meio da noite?
Parte 2 – O que fazia uma pessoa às 2 da manhã antes de existir o telemóvel?
Parte 3 – O que acontece no cérebro quando acordamos a meio da noite?