Quando pensamos na relação entre nutrição, exercício e envelhecimento, é habitual olhar para o colesterol principalmente como um marcador de risco cardiovascular.
Mas será que alguns valores nutricionais e metabólicos também podem ajudar a explicar porque é que algumas pessoas mais velhas respondem melhor ao exercício do que outras?
Um estudo recentemente publicado no Journal of Nutrition, Health & Aging levantou precisamente esta questão. Os investigadores analisaram adultos com 75 ou mais anos durante um período de hospitalização e procuraram perceber se determinados marcadores nutricionais poderiam prever a resposta funcional a um programa de exercício.
O resultado mais interessante foi a associação entre o colesterol total medido no início da hospitalização e a probabilidade de apresentar uma melhoria funcional após o programa de exercício.
É um resultado interessante, mas precisa de ser interpretado com cuidado.
O que foi estudado?
O estudo foi uma análise secundária de um ensaio clínico randomizado e incluiu 303 pessoas com 75 ou mais anos internadas numa unidade geriátrica hospitalar.
Os participantes foram divididos entre um grupo que realizou uma intervenção de exercício multicomponente e um grupo de cuidados habituais.
O programa de exercício combinava diferentes capacidades físicas:
- treino de força;
- exercícios de equilíbrio;
- treino da marcha;
- exercício funcional.
Esta combinação é particularmente interessante em pessoas mais velhas porque a recuperação funcional raramente depende de uma única capacidade física.
Levantar-se de uma cadeira exige força. Caminhar exige coordenação e capacidade cardiovascular. Recuperar o equilíbrio exige controlo neuromuscular. E realizar as tarefas do dia a dia exige que estas capacidades funcionem em conjunto.
O que significa ser um “respondedor” ao exercício?
Os investigadores utilizaram a Short Physical Performance Battery, conhecida como SPPB, para avaliar a capacidade funcional.
Foi considerado “respondedor” quem apresentou pelo menos uma melhoria de um ponto na pontuação da SPPB entre a admissão e a alta hospitalar.
No grupo que realizou exercício, 85,3% dos participantes foram classificados como respondedores funcionais.
Este resultado é relevante porque demonstra novamente que mesmo pessoas muito idosas e hospitalizadas podem apresentar melhorias funcionais quando recebem um estímulo de exercício adequado.
Mas o estudo queria perceber algo mais.
Porque é que algumas pessoas parecem responder melhor do que outras?
O colesterol apareceu como um possível marcador de reserva metabólica
Entre os vários marcadores analisados estavam o colesterol total, a albumina, as proteínas totais, a vitamina D e a avaliação nutricional através do Mini Nutritional Assessment.
Os participantes que responderam melhor ao exercício apresentavam, em média, valores de colesterol total superiores aos que não responderam.
Os valores observados foram aproximadamente 148 mg/dL nos respondedores contra 126,5 mg/dL nos não respondedores.
Depois de ajustarem a análise para outros fatores, os investigadores encontraram uma associação estatisticamente significativa entre o colesterol total basal e a probabilidade de resposta funcional ao exercício.
Também foi observada uma interação entre colesterol e exercício, sugerindo que o estado metabólico inicial pode influenciar a capacidade de aproveitar um estímulo de reabilitação.
Mas atenção: isto não significa que devemos aumentar o colesterol
Esta é provavelmente a parte mais importante da interpretação do estudo.
Seria um erro concluir que “o colesterol mais alto é saudável para os idosos” ou que aumentar o colesterol poderia melhorar os resultados do exercício.
O estudo não demonstrou isso.
O colesterol total foi utilizado como um possível marcador indireto de reserva metabólica. Em pessoas muito idosas e hospitalizadas, valores particularmente baixos podem estar associados a menor ingestão alimentar, doença aguda, perda de peso, fragilidade ou outros processos que diminuem a capacidade de recuperação.
Por isso, o colesterol pode estar a funcionar mais como um indicador do estado geral do organismo do que como a causa direta da melhor resposta ao exercício.
Esta distinção é fundamental.
O conceito de reserva metabólica
Quando uma pessoa adoece, é internada ou passa por um período de imobilização, o organismo precisa de recursos para recuperar.
Existe uma diferença importante entre uma pessoa que entra nesse período com boa massa muscular, alimentação adequada e alguma reserva fisiológica e outra que já apresenta fragilidade, perda muscular e défices nutricionais.
Podemos pensar nesta capacidade como uma espécie de margem de segurança fisiológica.
Quanto maior for essa reserva, maior poderá ser a capacidade de tolerar uma agressão e responder posteriormente ao estímulo de exercício.
É precisamente aqui que este estudo se torna interessante.
O exercício não acontece num organismo isolado. A resposta ao treino depende do estado em que a pessoa se encontra antes de começar.
O exercício continua a ser uma parte fundamental da recuperação
É importante não perder de vista um dos resultados mais relevantes do estudo.
A intervenção utilizada não consistiu simplesmente em caminhar.
Foi utilizado um programa multicomponente que combinava força, equilíbrio e treino da marcha.
Esta abordagem faz bastante sentido em pessoas mais velhas porque a perda de autonomia também é multifatorial.
Uma pessoa pode ter força suficiente para se levantar de uma cadeira, mas apresentar dificuldade em manter o equilíbrio.
Outra pode ter boa força, mas caminhar lentamente.
Outra pode ter capacidade cardiovascular razoável, mas dificuldade em realizar determinados movimentos funcionais.
Por isso, quando trabalho com pessoas mais velhas, prefiro pensar menos em exercícios isolados e mais nas capacidades que queremos preservar ou recuperar.
Força, equilíbrio, mobilidade, coordenação e capacidade de caminhar devem ser consideradas em conjunto.
A nutrição também pode influenciar a capacidade de treinar
Outro resultado interessante foi a interação observada entre as proteínas séricas e o exercício.
Este dado reforça uma ideia importante: exercício e estado nutricional não devem ser analisados completamente separados, especialmente em pessoas mais velhas e vulneráveis.
Não significa que uma análise sanguínea consiga determinar antecipadamente quem vai beneficiar ou não de exercício.
Significa que o estado nutricional e metabólico pode ajudar a compreender a capacidade de recuperação de uma pessoa.
Em contexto de envelhecimento, perda de peso involuntária, baixa ingestão alimentar, perda muscular e doença aguda podem criar um cenário em que simplesmente prescrever exercício não é suficiente.
Nessas situações, a estratégia precisa de ser integrada.
O que podemos retirar deste estudo para o treino?
Para mim, a principal mensagem não é sobre colesterol.
É sobre individualização.
Duas pessoas com a mesma idade podem responder de forma muito diferente ao mesmo programa de exercício.
Antes de aumentar a intensidade, devemos perceber a condição inicial da pessoa, a sua força, equilíbrio, mobilidade, capacidade funcional, histórico de atividade física e contexto nutricional.
Em pessoas mais frágeis, pode ser preferível começar com estímulos relativamente simples e aumentar progressivamente a dificuldade.
O objetivo inicial pode ser simplesmente recuperar a capacidade de levantar-se, caminhar com segurança e realizar as tarefas básicas do quotidiano.
À medida que a capacidade aumenta, o treino pode tornar-se progressivamente mais exigente.
O envelhecimento não é apenas uma questão de massa muscular
Este estudo também reforça uma ideia que considero importante: envelhecer bem não significa apenas tentar preservar a quantidade de músculo.
É necessário preservar aquilo que conseguimos fazer com esse músculo.
Conseguir levantar-se de uma cadeira, caminhar, mudar de direção, manter o equilíbrio e recuperar depois de um período de doença são objetivos funcionais.
A massa muscular é importante, mas é apenas uma parte da equação.
É por isso que um programa de exercício para adultos mais velhos deve procurar melhorar não apenas força, mas também capacidade funcional.
Conclusão
Este estudo realizado em 303 adultos com 75 ou mais anos mostra que o estado metabólico inicial pode estar relacionado com a capacidade de responder funcionalmente a um programa de exercício durante a hospitalização.
O colesterol total basal surgiu como um possível marcador de reserva metabólica e foi associado a uma maior probabilidade de resposta funcional ao exercício.
Mas não devemos interpretar este resultado como uma razão para aumentar o colesterol.
A interpretação mais prudente é que valores muito baixos podem, em determinadas pessoas vulneráveis, refletir um estado de menor reserva fisiológica ou nutricional.
A mensagem prática é mais abrangente: antes de prescrever exercício para uma pessoa mais velha, especialmente quando existe fragilidade ou doença, é importante perceber em que estado essa pessoa começa.
E, depois, utilizar o exercício de forma progressiva para recuperar força, equilíbrio, marcha e autonomia.
Posso ajudar
Posso avaliar a sua condição física e criar um programa personalizado de força, equilíbrio, mobilidade e capacidade funcional, adaptado à idade, objetivos e limitações.
Referências
Beistegui-Sarobe M, Chenhuichen C, Zugasti-Murillo A, et al. Metabolic reserve: baseline cholesterol as a predictor and modulator of response to in-hospital exercise in older adults. The Journal of Nutrition, Health & Aging. 2026.
DOI – 10.1016/j.jnha.2026.100989