Fazer exercício é importante para a saúde, mas será que todas as formas de atividade física contribuem da mesma maneira para o nosso metabolismo? Caminhar para o trabalho, treinar no ginásio, subir escadas ou passar várias horas a realizar tarefas fisicamente exigentes são atividades diferentes, embora todas envolvam movimento.
Um estudo publicado a 19 de outubro de 2026 na revista BMC Public Health analisou precisamente esta questão. Os investigadores identificaram diferentes perfis de atividade física em mais de 15 mil adultos sul-coreanos e estudaram a sua associação com a síndrome metabólica.
Os resultados sugerem que as pessoas que combinam atividade física em vários contextos apresentam um perfil metabólico mais favorável do que aquelas que permanecem pouco ativas. Por outro lado, ter um trabalho fisicamente exigente não parece garantir, por si só, os mesmos benefícios.
Esta investigação ajuda-nos a olhar para a atividade física de uma forma mais abrangente: não apenas como aquilo que fazemos durante o treino, mas como a soma dos nossos comportamentos ao longo do dia.
O que é a síndrome metabólica?
A síndrome metabólica corresponde à presença conjunta de vários fatores de risco que aumentam a probabilidade de desenvolver diabetes tipo 2 e doença cardiovascular.
Entre os componentes habitualmente considerados encontram-se o aumento do perímetro abdominal, a pressão arterial elevada, níveis elevados de triglicéridos, concentrações reduzidas de colesterol HDL e alterações da glicemia em jejum.
Os critérios utilizados podem variar ligeiramente consoante as recomendações clínicas, mas a ideia central é a mesma: quando vários destes fatores coexistem, o risco cardiometabólico torna-se particularmente relevante.
Uma pessoa pode sentir-se bem e não apresentar sintomas evidentes, apesar de ter alterações importantes na pressão arterial, na glicemia ou nos lípidos sanguíneos. É por isso que a avaliação periódica destes parâmetros tem valor preventivo.
A alimentação, o sono, a genética, o tabagismo, a composição corporal e a atividade física podem influenciar estes fatores. Nenhum deles deve ser analisado isoladamente, porque a saúde metabólica resulta da interação entre diferentes sistemas e comportamentos.
Como foi realizado o estudo?
Os investigadores utilizaram dados de 15 370 adultos com pelo menos 19 anos, participantes do Inquérito Nacional de Saúde e Nutrição da Coreia, recolhidos entre 2022 e 2024.
Em vez de classificarem as pessoas apenas pelo tempo total de exercício, analisaram nove indicadores relacionados com a atividade física e o comportamento sedentário. Através de uma técnica estatística denominada análise de classes latentes, procuraram identificar grupos de pessoas com padrões de movimento semelhantes.
O modelo foi desenvolvido inicialmente com os dados de 2022 e 2023 e posteriormente testado com os dados de 2024. Os investigadores verificaram que os perfis identificados eram muito semelhantes entre as duas amostras.
Depois, analisaram a associação entre esses perfis e a presença de síndrome metabólica, considerando também fatores demográficos, comportamentais e socioeconómicos.
Importa salientar que se trata de um estudo observacional. Os resultados permitem identificar associações, mas não demonstram que um determinado padrão de atividade física seja, por si só, a causa das diferenças metabólicas encontradas.
Quatro perfis diferentes de atividade física
A investigação identificou quatro perfis principais, cada um representando uma combinação diferente de atividade física e sedentarismo.
1. Pessoas pouco ativas
Este foi o grupo mais numeroso, representando 53,4% dos participantes. Caracterizava-se por níveis geralmente baixos de atividade física.
Este perfil é particularmente relevante porque mostra que a inatividade não é apenas a ausência de sessões de treino. Pode traduzir-se num quotidiano em que existem poucas oportunidades para caminhar, realizar atividades recreativas ou interromper períodos prolongados sentado.
Para estas pessoas, aumentar gradualmente o movimento diário pode ser um primeiro objetivo realista, mesmo antes de iniciarem um programa estruturado de exercício.
2. Pessoas ativas em vários contextos
Este grupo representava 22,8% dos participantes. Incluía pessoas com níveis de atividade física distribuídos por diferentes contextos, em vez de dependerem exclusivamente de uma única fonte de movimento.
Foi o perfil associado aos resultados metabólicos mais favoráveis. Em comparação com o grupo pouco ativo, apresentou uma menor frequência relativa de síndrome metabólica, mesmo depois de considerados vários fatores de ajustamento estatístico.
Esta observação é interessante porque aponta para o possível valor de uma rotina que combine deslocações ativas, exercício de lazer e outras formas de movimento ao longo do dia.
3. Pessoas ativas nas deslocações
Este perfil correspondia a 18,8% da amostra e caracterizava-se por maior participação em atividades físicas associadas às deslocações, como caminhar para chegar ao trabalho ou realizar tarefas quotidianas.
O grupo apresentou uma associação inicialmente favorável com a síndrome metabólica, embora essa associação não tenha ultrapassado o limiar estatístico mais rigoroso aplicado pelos investigadores para múltiplas comparações.
Assim, os resultados não permitem afirmar que caminhar nas deslocações seja suficiente para prevenir a síndrome metabólica. Sugerem, isso sim, que estas atividades podem integrar uma estratégia mais abrangente de promoção da saúde.
4. Pessoas fisicamente ativas no trabalho
O último perfil representava 5% dos participantes e incluía pessoas cuja atividade física estava sobretudo relacionada com o trabalho.
Ao contrário do perfil ativo em vários contextos, este grupo não apresentou uma associação estatisticamente significativa com menor frequência de síndrome metabólica.
Este resultado merece atenção. Um trabalho fisicamente exigente pode implicar muitas horas de pé, movimentos repetitivos, transporte de cargas ou períodos prolongados de esforço, sem proporcionar necessariamente a mesma combinação de intensidade, recuperação e variedade encontrada num programa de exercício planeado.
Porque não é igual trabalhar fisicamente e treinar?
Na minha experiência, esta distinção é fundamental. Uma pessoa pode passar oito horas a realizar trabalho físico e continuar a beneficiar de um programa de exercício bem estruturado, desde que este seja ajustado à sua capacidade de recuperação.
O trabalho físico é condicionado pelas exigências da profissão. Nem sempre permite escolher a intensidade, a duração, o tipo de movimento ou os períodos de descanso. Além disso, pode envolver posturas prolongadas e gestos repetitivos, com uma distribuição desigual do esforço entre grupos musculares.
O exercício planeado oferece maior controlo sobre estas variáveis. Podemos escolher movimentos, ajustar a carga, trabalhar a força e a capacidade cardiorrespiratória e distribuir os estímulos de acordo com os objetivos individuais.
Isto não significa que o trabalho físico seja prejudicial ou que não tenha benefícios. Significa apenas que não devemos assumir que todas as formas de atividade são equivalentes do ponto de vista fisiológico.
Também não devemos concluir que as pessoas com profissões fisicamente exigentes precisam automaticamente de treinar mais. Em alguns casos, a prioridade pode ser melhorar a recuperação, a força específica, a mobilidade ou a tolerância ao esforço, sem aumentar excessivamente a carga total.
O que significa estar ativo em vários contextos?
Uma das mensagens mais úteis deste estudo é que a atividade física pode ser acumulada de diferentes formas.
Podemos caminhar até ao supermercado, subir escadas, deslocar-nos a pé para determinados compromissos, realizar uma sessão de treino de força e reservar tempo para uma atividade recreativa. Cada uma destas opções contribui de maneira diferente para o movimento total.
Não é necessário transformar todas as tarefas diárias numa sessão de exercício. A vantagem está em criar mais oportunidades para nos movimentarmos, reduzindo a dependência de uma única sessão semanal.
Uma pessoa que treina três vezes por semana, mas permanece sentada durante quase todo o resto do dia, pode beneficiar de pequenas pausas de movimento. Da mesma forma, alguém que caminha muito pode beneficiar de treino de força para melhorar a capacidade muscular e preservar a função com o envelhecimento.
O objetivo não é escolher entre exercício estruturado e atividade diária. É combinar ambos de uma forma sustentável e adequada à realidade de cada pessoa.
Como aplicar estes resultados na prática?
Para quem pretende melhorar a saúde metabólica, começaria por avaliar a rotina diária. Quantas horas passa sentado? Quanto caminha? Existe treino de força? Há atividade aeróbica regular? O trabalho já representa uma carga física elevada?
Estas perguntas ajudam a identificar oportunidades concretas de melhoria. Uma pessoa sedentária pode começar com caminhadas curtas e aumentar progressivamente a duração. Outra, já habituada a caminhar, pode beneficiar da introdução de duas ou mais sessões semanais de treino de força, de acordo com a sua condição física.
Para quem trabalha muitas horas em pé ou realiza tarefas fisicamente exigentes, a estratégia deve considerar a fadiga acumulada. Pode ser mais adequado começar com sessões curtas, controlar a intensidade e dar prioridade à recuperação, em vez de acrescentar imediatamente grandes volumes de exercício.
A alimentação, o sono e o acompanhamento dos fatores de risco também são importantes. Melhorar a saúde metabólica não depende de uma única mudança, mas da combinação de comportamentos que possam ser mantidos ao longo do tempo.
Limitações: o que este estudo não demonstra
Apesar da dimensão da amostra e da consistência dos perfis identificados, existem limitações importantes.
Em primeiro lugar, os dados são observacionais e não permitem estabelecer uma relação de causa e efeito. É possível que pessoas mais saudáveis consigam manter níveis superiores de atividade física, em vez de toda a diferença metabólica resultar diretamente do movimento.
Em segundo lugar, os resultados foram obtidos em adultos sul-coreanos. Os padrões profissionais, as deslocações, a alimentação e outros fatores sociais podem diferir dos observados em Portugal.
Por fim, a análise de perfis permite compreender combinações de comportamentos, mas não determina a quantidade exata de exercício que cada pessoa deve realizar para reduzir o seu risco individual.
O estudo também não demonstra que uma determinada modalidade de treino previna, isoladamente, a diabetes ou a doença cardiovascular.
Conclusão: mais movimento, mas também melhor organização do dia
Esta investigação reforça a importância de olhar para a atividade física como um comportamento global. Entre os 15 370 adultos analisados, o perfil caracterizado por atividade em vários contextos apresentou a associação mais favorável com a síndrome metabólica. A atividade relacionada sobretudo com o trabalho não apresentou a mesma associação.
Na minha perspetiva, a mensagem prática é simples: não devemos avaliar a atividade física apenas pelos minutos que passamos a treinar. É importante perceber como nos movimentamos durante o resto do dia e se a nossa rotina combina exercício, deslocações ativas, recuperação e redução do sedentarismo.
O melhor plano não será necessariamente aquele que acrescenta mais horas de esforço, mas aquele que melhora a distribuição do movimento sem comprometer a recuperação. Para preservar a saúde metabólica, vale a pena começar por pequenas mudanças, consolidá-las e progredir de acordo com as necessidades de cada pessoa.
Posso ajudar
Ajudo adultos a partir dos 40 anos a melhorar a força, a mobilidade e a condição física através de treino individualizado, integrando exercício estruturado e movimento diário de acordo com os objetivos, as limitações e a capacidade de recuperação.
Referências
- Ju Y, Lee J, Kim DH, et al. Physical activity phenotypes identified by latent class analysis and their associations with metabolic syndrome among Korean adults. BMC Public Health. Publicado a 19 de outubro de 2026.
- DOI: 10.1186/s12889-026-29957-8.
- Texto integral do estudo: Springer Nature — BMC Public Health.
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