Quando uma pessoa recebe o diagnóstico de doença coronária, é natural surgir uma preocupação: quanto exercício posso fazer e será que fazer mais exercício significa sempre maior benefício?
A resposta não é tão simples como dizer que quanto mais, melhor.
Uma nova meta-análise publicada no European Journal of Preventive Cardiology analisou precisamente esta relação. Os investigadores procuraram perceber como diferentes quantidades de atividade física não ocupacional se relacionam com o risco de mortalidade por todas as causas em pessoas com doença coronária.
Foram analisados 17 estudos prospetivos, envolvendo 176 862 pessoas com doença coronária. Em 16 desses estudos estavam disponíveis dados relativos a 31 783 mortes.
Os resultados são particularmente interessantes porque sugerem que pequenas e moderadas quantidades de atividade física podem estar associadas a uma redução importante do risco de mortalidade, sobretudo quando comparadas com níveis muito baixos de atividade.
O que é uma meta-análise dose–resposta?
Não é apenas uma questão de saber se as pessoas fisicamente ativas vivem mais.
Os investigadores quiseram perceber se existe uma relação entre a quantidade de atividade física e o risco de morrer.
Esta diferença é importante.
Imagine três pessoas:
- uma praticamente inativa;
- outra que caminha e faz atividade física regularmente;
- uma terceira que realiza grandes volumes de exercício.
Será que a terceira pessoa terá necessariamente um benefício muito superior à segunda?
A investigação sugere que a resposta pode ser “não”.
Existe uma relação não linear. Isto significa que o aumento do benefício parece ser particularmente evidente quando passamos de níveis muito baixos de atividade para níveis baixos ou moderados.
17 estudos e quase 177 mil pessoas
Os investigadores realizaram uma revisão sistemática e uma meta-análise de dose–resposta.
Foram pesquisadas seis bases de dados científicas até novembro de 2025, procurando estudos prospetivos que avaliassem a atividade física não ocupacional e a mortalidade em pessoas com doença coronária.
No total, foram incluídos 17 estudos e 176 862 participantes.
A atividade física foi convertida para uma unidade chamada mMET-horas por semana, permitindo comparar diferentes tipos e quantidades de atividade física.
É uma forma estatística de transformar diferentes atividades numa medida comum de exposição ao exercício.
Mas não significa que todas as pessoas tenham realizado exatamente o mesmo tipo de exercício.
O primeiro grande benefício aparece com níveis relativamente modestos
Este é provavelmente o resultado que considero mais interessante.
Comparativamente a pessoas com atividade física não ocupacional muito baixa, a quantidade de aproximadamente 8,75 mMET-horas por semana esteve associada a um risco de mortalidade por todas as causas cerca de 38% inferior.
O risco relativo estimado foi de 0,62, com intervalo de confiança de 0,54 a 0,73.
Este nível de atividade corresponde aproximadamente ao volume associado às recomendações de 150 minutos semanais de atividade aeróbia moderada.
É uma informação importante porque mostra que não é necessário transformar uma pessoa com doença coronária num atleta para observar uma associação favorável.
Passar de muito pouco movimento para uma quantidade moderada pode representar uma diferença relevante.
E se fizermos o dobro?
Quando a atividade física aumentou para aproximadamente 17,5 mMET-horas por semana, a associação continuou a ser favorável.
Nesse nível, o risco relativo estimado de mortalidade foi de 0,61, correspondente a aproximadamente 39% menos risco comparativamente ao nível de referência.
À primeira vista, pode parecer estranho.
Se duplicamos aproximadamente a quantidade de atividade física, porque é que a estimativa de risco não diminuiu muito mais?
É precisamente aqui que entra o conceito de retorno decrescente.
Os primeiros aumentos de atividade física podem representar uma mudança muito importante para alguém que quase não se movimenta.
Depois, à medida que a pessoa já é moderadamente ativa, aumentar ainda mais a atividade pode continuar a trazer benefícios, mas estes podem ser progressivamente menores.
Mais exercício não significa automaticamente mais proteção
É importante interpretar esta frase corretamente.
O estudo não demonstra que fazer muito exercício seja prejudicial.
O que demonstra é que os dados disponíveis não permitem caracterizar com a mesma segurança o que acontece nos níveis muito elevados de atividade física.
Quando os investigadores analisaram aproximadamente 30 mMET-horas por semana, a estimativa tornou-se bastante imprecisa.
O risco relativo foi estimado em 0,92, mas o intervalo de confiança foi muito amplo, entre 0,51 e 1,67.
Além disso, apenas oito dos 17 estudos tinham dados que chegavam a esse nível de atividade física.
Por isso, não podemos utilizar esta meta-análise para afirmar que existe um determinado limite a partir do qual o exercício deixa de ser benéfico.
É melhor caminhar do que não fazer nada?
Esta é uma das implicações práticas mais interessantes.
Quando falamos de doença coronária, existe por vezes uma tendência para pensar no exercício como algo que precisa de ser estruturado, intenso e realizado durante muito tempo.
Mas uma pessoa que atualmente faz muito pouca atividade pode começar por caminhar.
Pode começar por períodos curtos.
Pode aumentar progressivamente a duração.
Pode introduzir posteriormente períodos de maior intensidade.
E pode, com orientação adequada, acrescentar treino de força.
A grande vantagem desta abordagem é que a primeira meta não precisa de ser o treino perfeito.
Pode simplesmente ser sair da inatividade.
O estudo fala de atividade física, não apenas de treino
Esta distinção é fundamental.
Os investigadores analisaram atividade física não ocupacional.
Isso inclui muito mais do que aquilo que normalmente chamamos “treino”.
Caminhar, deslocar-se de bicicleta, realizar determinadas tarefas físicas ou praticar exercício recreativo podem contribuir para a atividade física total.
Por isso, quando pensamos na saúde cardiovascular, não devemos olhar apenas para os minutos passados no ginásio.
Uma pessoa pode fazer duas ou três sessões de exercício por semana e, simultaneamente, passar o resto do tempo quase sempre sentada.
Outra pode fazer menos treino estruturado, mas caminhar bastante todos os dias.
O organismo responde à totalidade da atividade física.
O exercício depois de uma doença coronária deve ser progressivo
Apesar dos resultados positivos, existe uma ressalva muito importante.
Uma pessoa com doença coronária não deve interpretar estes resultados como autorização para começar imediatamente a fazer exercício intenso.
A capacidade física, os sintomas, a medicação, a estabilidade clínica e o risco cardiovascular devem ser considerados.
Em determinados casos, a reabilitação cardíaca pode ser a melhor forma de iniciar ou retomar o exercício.
O objetivo é criar uma progressão que permita aumentar a capacidade física sem ultrapassar a tolerância individual.
Começar devagar não significa que o treino seja fraco.
Significa que estamos a respeitar o ponto de partida.
E o treino de força?
Esta meta-análise não deve ser interpretada como uma recomendação para fazer apenas exercício aeróbio.
O estudo concentrou-se na associação entre atividade física não ocupacional e mortalidade e não pretendeu comparar diretamente modalidades de exercício.
Por isso, não podemos concluir que caminhar seja superior ao treino de força ou que correr seja superior ao ciclismo.
Na prática, considero muito interessante combinar diferentes componentes.
O exercício aeróbio pode contribuir para melhorar a capacidade cardiorrespiratória.
O treino de força ajuda a preservar a capacidade muscular e funcional.
A atividade física diária reduz o tempo passado completamente sedentário.
O equilíbrio e a mobilidade podem ser importantes para manter autonomia, especialmente com o envelhecimento.
Um programa completo não precisa de escolher apenas uma destas opções.
Porque é que os primeiros minutos podem ser tão importantes?
Uma das mensagens mais interessantes da curva dose–resposta é que o ganho relativo parece ser maior quando uma pessoa passa de níveis muito baixos de atividade para níveis modestos.
É uma mensagem particularmente importante para quem diz:
“Se não consigo fazer uma hora de exercício, não vale a pena começar.”
Vale.
Se atualmente uma pessoa praticamente não caminha, começar por 10 ou 15 minutos pode ser uma mudança relevante.
Depois, esses minutos podem aumentar.
Podemos passar para 20.
Depois 30.
Podemos acrescentar força.
Podemos aumentar gradualmente a intensidade.
A evolução não precisa de acontecer toda na primeira semana.
O exercício não substitui o tratamento médico
Existe ainda outro ponto que considero essencial.
Uma associação entre atividade física e menor mortalidade não significa que o exercício substitua medicamentos, controlo da pressão arterial, tratamento do colesterol, cessação tabágica ou outras intervenções recomendadas para a doença coronária.
A prevenção cardiovascular funciona melhor quando diferentes fatores de risco são abordados em conjunto.
O exercício é uma das peças.
Não é a única.
Associação não significa causalidade
Este é um estudo de grande dimensão, mas os trabalhos incluídos foram estudos prospetivos observacionais.
Isso significa que os investigadores observaram associações entre atividade física e mortalidade ao longo do tempo.
Não significa que tenham distribuído aleatoriamente os participantes por diferentes níveis de exercício.
Por isso, não podemos afirmar que a redução do risco observada foi causada exclusivamente pela atividade física.
Pessoas mais ativas podem diferir das menos ativas em vários outros aspetos: alimentação, tabagismo, sono, condição socioeconómica, estado de saúde, peso corporal, acesso a cuidados de saúde e outros comportamentos.
Os autores utilizaram métodos estatísticos para reduzir o impacto de alguns destes fatores, mas não é possível eliminar completamente o problema dos fatores de confusão num estudo observacional.
O que retiro deste estudo para a prática?
Para mim, a mensagem mais importante é muito simples:
se uma pessoa com doença coronária é pouco ativa, o primeiro objetivo pode não ser fazer muito exercício. Pode ser fazer mais do que fazia antes.
Passar da inatividade para uma quantidade moderada de atividade física parece estar associado a uma redução importante do risco de mortalidade.
Depois, podemos continuar a progredir.
Mas não devemos criar a ideia de que é necessário treinar horas por semana para obter benefícios cardiovasculares.
O exercício deve ser uma intervenção sustentável.
Na minha experiência, a melhor estratégia é aquela que a pessoa consegue manter durante meses e anos, e não aquela que consegue cumprir durante duas semanas.
Conclusão
Uma nova meta-análise envolvendo 176 862 pessoas com doença coronária encontrou uma associação entre níveis mais elevados de atividade física não ocupacional e menor mortalidade por todas as causas.
Os maiores benefícios relativos apareceram quando se passou de níveis muito baixos de atividade para quantidades baixas ou moderadas.
A aproximadamente 8,75 mMET-horas por semana, equivalente ao volume associado a 150 minutos semanais de atividade aeróbia moderada, o risco de mortalidade foi estimado como cerca de 38% inferior ao nível de referência.
A aproximadamente 17,5 mMET-horas por semana, a estimativa manteve-se favorável, mas os benefícios adicionais pareceram menores.
Nos níveis mais elevados, os dados eram insuficientes e mais incertos.
Por isso, não retiraria deste estudo a ideia de que “quanto mais exercício, melhor”.
Retiraria uma mensagem diferente:
para quem faz pouco, começar a fazer mais pode ser uma das mudanças mais importantes.
E, depois de começar, podemos construir progressivamente uma rotina que combine atividade física diária, exercício aeróbio, treino de força e recuperação adequada.
Posso ajudar
Posso ajudá-lo a iniciar ou estruturar exercício após doença cardiovascular, ajustando progressivamente força, atividade aeróbia, intensidade e volume às suas capacidades e objetivos.
Referências
- Tao Z, Hu Z, Chen J, Strain T. Non-Occupational Physical Activity and All-Cause Mortality in Patients with Coronary Heart Disease: A Dose-Response Meta-Analysis. European Journal of Preventive Cardiology. 2026.
- PubMed — PMID 42811522
- DOI — 10.1093/eurjpc/zwag510