Proteína e microbiota intestinal: mais proteína significa um intestino mais saudável?

Proteína e microbiota intestinal: mais proteína significa um intestino mais saudável? October 29, 2026Leave a comment

A proteína é essencial para a manutenção muscular, a recuperação e a adaptação ao exercício físico. No entanto, existe uma questão que tem recebido cada vez mais atenção científica: como influencia a ingestão de proteína os microrganismos que vivem no nosso intestino?

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada a 20 de outubro de 2026 na revista Nutrition Reviews procurou responder a esta questão, analisando os efeitos da ingestão proteica sobre a microbiota intestinal em pessoas fisicamente ativas.

Os resultados são interessantes, mas mostram que aumentar a diversidade bacteriana não significa necessariamente melhorar todos os indicadores de saúde intestinal.

O que analisou a investigação?

Os investigadores Zihan Bao e colaboradores reuniram 18 estudos, envolvendo um total de 819 participantes. O objetivo foi avaliar como a quantidade de proteína, a sua origem e as características do exercício influenciavam a composição da microbiota intestinal.

Foram pesquisadas várias bases de dados científicas, incluindo PubMed, Cochrane Library, Web of Science e EBSCOhost. A análise considerou diferentes indicadores de diversidade microbiana e a abundância de grupos específicos de bactérias.

Ilustração científica da relação entre nutrientes, microbiota intestinal e desempenho físico
Ilustração científica relacionada com a investigação sobre alimentação, microbiota intestinal e desempenho físico. Fonte: Dietary Strategies to Improve Exercise Performance by Modulating the Gut Microbiota, Foods, 2024. Não corresponde a uma figura original da meta-análise de Bao e colaboradores.

A proteína aumenta a diversidade intestinal?

Um dos principais resultados foi o aumento de dois indicadores de diversidade microbiana: os índices de Shannon e Chao1.

O índice de Shannon considera a variedade de microrganismos e a distribuição relativa das diferentes espécies. O índice Chao1 procura estimar a riqueza microbiana, incluindo espécies que podem não ser facilmente detetadas.

Contudo, nem todos os indicadores apresentaram alterações significativas. O índice de Simpson e o número de unidades taxonómicas observadas não mostraram diferenças estatisticamente significativas.

Esta distinção é importante. A diversidade microbiana é frequentemente utilizada na investigação sobre saúde intestinal, mas não representa, isoladamente, uma medida de saúde. Uma maior diversidade não significa automaticamente melhor funcionamento intestinal.

Uma descoberta interessante: a redução de Bifidobacterium

Apesar do aumento de alguns indicadores de diversidade, os investigadores observaram uma diminuição da abundância de determinados grupos bacterianos.

Entre eles encontravam-se:

  • Bifidobacterium: grupo de bactérias frequentemente associado à fermentação de determinados hidratos de carbono e à produção de metabolitos relevantes para o intestino.
  • Firmicutes: grupo muito diversificado de microrganismos com diferentes funções metabólicas.
  • Actinobacteria: grupo que inclui várias bactérias intestinais, entre as quais diferentes espécies de Bifidobacterium.

Foi também observada uma diminuição da relação entre Firmicutes e Bacteroidetes e um aumento de Bacteroidetes.

Não devemos interpretar estas alterações como necessariamente positivas ou negativas. A função de cada bactéria depende da espécie, do contexto intestinal e da interação com os restantes microrganismos. Em particular, a redução de Bifidobacterium merece investigação adicional, mas não demonstra, por si só, que a proteína prejudique a saúde intestinal.

Existe uma quantidade ideal de proteína?

Um dos resultados mais curiosos foi a identificação de uma relação em forma de U entre a quantidade de proteína ingerida e o efeito sobre a diversidade microbiana.

A curva estatística apresentou o seu ponto mais baixo entre 1,5 e 2,0 gramas de proteína por quilograma de peso corporal por dia.

É fundamental interpretar corretamente este resultado. Não significa que consumir entre 1,5 e 2,0 g/kg/dia seja prejudicial, nem que exista uma quantidade ideal definida para melhorar a microbiota. Trata-se de uma associação observada num indicador específico, dentro dos estudos analisados.

A resposta também parece depender da idade, do índice de massa corporal, da duração da intervenção, da modalidade e intensidade do exercício e da quantidade de proteína consumida.

Proteína animal ou vegetal: poderá fazer diferença?

A origem da proteína é outra questão importante. Carne, peixe, ovos e lacticínios apresentam características nutricionais diferentes das leguminosas, soja, frutos secos e sementes.

Além dos aminoácidos, cada alimento fornece outros componentes que podem influenciar a microbiota. A fibra presente nas leguminosas, por exemplo, pode ser fermentada por determinados microrganismos intestinais.

Por isso, não devemos analisar a proteína isoladamente. Uma alimentação rica em proteína, mas pobre em fibra e alimentos vegetais, pode produzir um ambiente intestinal diferente de uma alimentação que combina várias fontes proteicas com fruta, hortícolas e leguminosas.

O que significa para quem pratica exercício?

Na minha experiência, a ingestão de proteína deve ser ajustada ao treino, à idade, à composição corporal e aos objetivos individuais. Não considero interessante aumentar a proteína apenas porque se pretende melhorar a microbiota.

Para quem pratica exercício regularmente, importa considerar:

  • Garantir uma ingestão proteica adequada às necessidades individuais.
  • Distribuir a proteína pelas refeições ao longo do dia.
  • Variar as fontes proteicas, incluindo alimentos vegetais.
  • Manter uma ingestão suficiente de fibra alimentar.
  • Combinar o treino de força com atividade aeróbia adequada.
  • Evitar suplementação desnecessária e quantidades excessivas.

Também é importante lembrar que pessoas com determinadas condições clínicas, nomeadamente doença renal, podem necessitar de ajustar a ingestão proteica com acompanhamento profissional.

Limitações e investigação futura

Os 18 estudos incluídos apresentavam diferenças nas quantidades de proteína, fontes utilizadas, duração das intervenções e modalidades de exercício. Esta heterogeneidade dificulta a definição de recomendações universais.

Os autores consideram importante estudar os efeitos a longo prazo e perceber melhor como diferentes fontes de proteína influenciam a composição e o funcionamento da microbiota.

Conclusão

Esta revisão sistemática e meta-análise mostra que a ingestão de proteína em pessoas fisicamente ativas pode aumentar alguns indicadores de diversidade da microbiota intestinal. Contudo, também foram observadas reduções em grupos bacterianos como Bifidobacterium.

A principal mensagem é que mais proteína não significa necessariamente melhor saúde intestinal. A quantidade, a origem dos alimentos, a ingestão de fibra e o tipo de exercício devem ser considerados em conjunto.

Continuamos a precisar de investigação para compreender melhor esta relação. Entretanto, uma alimentação variada, com proteína suficiente, alimentos vegetais e fibra, associada a exercício regular, continua a ser uma abordagem mais sensata do que procurar maximizar isoladamente a ingestão proteica.

Posso ajudar

Ajudo adultos dos 40 aos 80 anos a preservar força, mobilidade e autonomia através de treino individualizado. Adapto os exercícios à capacidade física, aos objetivos e às limitações de cada pessoa, valorizando a consistência e a progressão

 

 

Referências

  1. Bao Z, Jiao M, Zhao M, Huang FY, Liu Y, Wang S. Effects of Protein Intake on Gut Microbiota in Physically Active Individuals: A Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrition Reviews. 20 October 2026. DOI: 10.1093/nutrit/nuag156.
  2. PubMed — Artigo científico original.
  3. Dietary Strategies to Improve Exercise Performance by Modulating the Gut Microbiota. Foods. 2024.
  4. YouTube — Exercício físico e microbiota intestinal, Super Nutridos.

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