Nos últimos anos, o microbioma intestinal passou a ocupar um lugar de destaque na investigação sobre saúde, alimentação e exercício.
É cada vez mais frequente ouvirmos que uma alimentação saudável pode “alimentar as bactérias boas” do intestino ou que o exercício pode melhorar diretamente a diversidade do microbioma.
A ideia é biologicamente interessante. O intestino contém uma enorme comunidade de microrganismos que interage com a alimentação, o metabolismo e o sistema imunitário. No entanto, quando passamos das hipóteses para os estudos de intervenção em seres humanos, a realidade pode ser bastante mais complexa.
Um novo estudo do ensaio clínico MedEx-UK, publicado no British Journal of Nutrition, procurou perceber precisamente o que acontece ao microbioma intestinal e aos metabolitos fecais quando as pessoas são submetidas a uma intervenção baseada numa dieta mediterrânica, com ou sem uma componente adicional de atividade física.
E os resultados são mais interessantes precisamente porque não confirmaram algumas das expectativas mais simples que poderíamos ter.
O que foi estudado?
Os investigadores analisaram dados de participantes do ensaio MedEx-UK, um estudo randomizado que avaliou os efeitos de uma intervenção de 24 semanas baseada na dieta mediterrânica e na atividade física.
Para esta análise específica foram considerados 93 participantes, dos quais 47 tinham amostras disponíveis antes e depois da intervenção.
Os participantes foram distribuídos por três grupos:
- um grupo que manteve o estilo de vida habitual;
- um grupo que recebeu uma intervenção baseada na dieta mediterrânica;
- um grupo que recebeu a intervenção da dieta mediterrânica combinada com atividade física.
Os investigadores recolheram amostras de fezes e analisaram diferentes características do microbioma intestinal, assim como vários metabolitos produzidos ou relacionados com a atividade metabólica intestinal.
A dieta mediterrânica alterou o microbioma?
A resposta deste estudo foi: não de forma significativa nos parâmetros analisados.
Apesar de os participantes dos grupos de intervenção terem aumentado significativamente a adesão ao padrão alimentar mediterrânico, não foram encontradas diferenças significativas na diversidade microbiana avaliada pelo índice de Shannon.
Também não foram observadas alterações significativas na composição global da comunidade microbiana.
Da mesma forma, não foram encontradas diferenças significativas na abundância relativa das bactérias analisadas.
Este resultado merece atenção porque seria fácil assumir que uma melhoria clara na qualidade da alimentação teria obrigatoriamente de provocar uma alteração mensurável no microbioma.
O estudo mostra que essa relação não é assim tão simples.
Então a dieta mediterrânica não é benéfica?
Não é essa a conclusão.
É muito importante separar duas perguntas diferentes.
A primeira é: uma dieta mediterrânica é uma forma de alimentação associada a vários benefícios para a saúde?
A segunda é: uma intervenção de 24 semanas com dieta mediterrânica provoca necessariamente alterações mensuráveis no microbioma intestinal?
Este estudo investigou sobretudo a segunda questão.
O facto de não ter encontrado alterações significativas no microbioma não significa que a dieta mediterrânica deixe de ser uma estratégia alimentar interessante.
Significa apenas que não podemos utilizar este estudo para afirmar que os benefícios da dieta mediterrânica acontecem necessariamente através de uma transformação do microbioma intestinal.
E acrescentar exercício?
Os investigadores também quiseram perceber se juntar uma intervenção de atividade física à dieta mediterrânica produziria efeitos adicionais.
Mais uma vez, os resultados foram surpreendentes.
Não foram encontradas diferenças significativas entre os grupos relativamente às alterações nos principais parâmetros do microbioma avaliados.
Também não foram observadas alterações significativas nos perfis de metabolitos analisados, incluindo ácidos gordos de cadeia curta e ácidos biliares.
Além disso, os níveis de atividade física não diferiram significativamente entre os grupos nesta análise específica.
Ou seja, não podemos concluir que a combinação entre dieta mediterrânica e atividade física tenha provocado uma transformação significativa do microbioma intestinal.
O microbioma é muito mais complexo do que parece
Uma das razões pelas quais estes resultados são importantes é que ajudam a perceber a enorme complexidade do microbioma.
Duas pessoas podem seguir uma alimentação semelhante e apresentar comunidades bacterianas bastante diferentes.
O microbioma é influenciado por inúmeros fatores:
- alimentação habitual;
- idade;
- atividade física;
- medicação;
- estado de saúde;
- genética;
- ambiente;
- história alimentar;
- outros fatores relacionados com o estilo de vida.
Por isso, uma intervenção que funcione claramente numa pessoa pode produzir uma resposta muito diferente noutra.
Uma dieta saudável não precisa de alterar o microbioma para ser útil
Este é, talvez, o ponto que considero mais importante para quem lê informação sobre nutrição na internet.
Nos últimos anos tornou-se comum justificar praticamente todos os benefícios de determinados alimentos através do microbioma.
“Este alimento alimenta as bactérias boas.”
“Este suplemento melhora a diversidade intestinal.”
“Esta dieta modifica o microbioma e, por isso, melhora a saúde.”
Algumas destas afirmações podem ter fundamento em determinados contextos, mas a evidência em seres humanos nem sempre é tão direta.
Uma alimentação pode ser excelente por muitas outras razões.
Mais legumes, fruta, leguminosas, frutos secos, peixe e azeite podem melhorar a qualidade global da alimentação independentemente de conseguirmos demonstrar uma alteração específica numa bactéria intestinal.
O que torna a dieta mediterrânica interessante?
A dieta mediterrânica não é simplesmente uma lista de alimentos isolados.
É um padrão alimentar caracterizado por uma elevada presença de alimentos vegetais, azeite como principal fonte de gordura, consumo regular de leguminosas, frutos, vegetais, cereais e frutos secos, juntamente com peixe e quantidades mais moderadas de carne e outros alimentos.
É precisamente esta combinação que torna o padrão alimentar interessante.
Em vez de procurar um alimento milagroso capaz de transformar o microbioma, podemos olhar para a alimentação como um todo.
E o exercício?
O facto de este estudo não ter encontrado alterações significativas no microbioma não diminui a importância do exercício.
A atividade física tem benefícios muito bem documentados para a saúde cardiovascular, capacidade cardiorrespiratória, força muscular, composição corporal, metabolismo e capacidade funcional.
O exercício também pode ajudar uma pessoa a manter a autonomia à medida que envelhece.
Por isso, não vejo razão para alguém começar a fazer exercício com o objetivo principal de “melhorar as bactérias intestinais”.
Existem razões muito mais sólidas.
Queremos que a pessoa tenha mais força, melhor condição física e maior capacidade para realizar as atividades que fazem parte da sua vida.
O exercício deve ser pensado para a vida real
Na minha experiência, quando uma pessoa começa a treinar, prefiro que o objetivo seja concreto.
Quero que consiga caminhar mais.
Subir escadas com menos dificuldade.
Levantar-se de uma cadeira.
Transportar compras.
Praticar uma modalidade desportiva.
Brincar com os filhos ou netos.
Ou simplesmente sentir-se mais capaz no dia a dia.
O microbioma pode ser uma área fascinante de investigação, mas não precisa de ser o centro da prescrição de exercício.
Uma conclusão negativa também é importante
Existe uma tendência para considerar que um estudo só é interessante quando encontra um efeito positivo.
Não concordo.
Um estudo que não encontra alterações significativas também acrescenta informação importante.
Neste caso, ajuda-nos a perceber que uma intervenção de 24 semanas com dieta mediterrânica, isoladamente ou combinada com atividade física, não produziu alterações significativas nos vários parâmetros do microbioma e dos metabolitos fecais avaliados.
Isto obriga-nos a ser mais cuidadosos com explicações demasiado simples sobre a relação entre alimentação, exercício e microbioma.
O microbioma pode responder de forma individual
Os próprios investigadores sugerem que a elevada variabilidade individual pode ter contribuído para a ausência de efeitos médios significativos.
Esta é uma questão importante.
Quando analisamos um grupo de pessoas, podemos encontrar uma média que esconde respostas muito diferentes.
Algumas pessoas podem responder de determinada forma, outras podem responder de maneira diferente e outras praticamente não alterar o parâmetro analisado.
Por isso, ainda existe muito para descobrir sobre a relação entre microbioma, alimentação, exercício e saúde.
O que podemos retirar deste estudo?
Para mim, a mensagem prática é simples.
Devemos continuar a apostar numa alimentação de boa qualidade e numa vida fisicamente ativa, mas não precisamos de justificar todas as decisões através do microbioma.
A dieta mediterrânica continua a ser um padrão alimentar interessante.
O exercício continua a ser fundamental.
Consumir alimentos vegetais variados continua a fazer sentido.
Reduzir alimentos ultraprocessados continua a ser uma estratégia razoável.
E manter uma rotina de atividade física continua a ser uma das ferramentas mais importantes para preservar saúde e capacidade funcional.
Mas devemos separar aquilo que já sabemos daquilo que ainda estamos a investigar.
Conclusão
Um novo estudo do ensaio MedEx-UK analisou os efeitos de uma intervenção de 24 semanas com dieta mediterrânica, isoladamente ou combinada com atividade física, sobre o microbioma intestinal e vários metabolitos fecais.
Apesar de a intervenção ter aumentado significativamente a adesão à dieta mediterrânica, os investigadores não encontraram alterações significativas na diversidade, composição ou abundância relativa do microbioma, nem nos principais perfis de metabolitos analisados.
Estes resultados não significam que a dieta mediterrânica ou o exercício sejam inúteis.
Significam que a relação entre estilo de vida e microbioma é provavelmente muito mais complexa do que algumas explicações populares fazem parecer.
Para mim, esta é precisamente uma das melhores características da ciência: quando os resultados não confirmam aquilo que esperávamos, somos obrigados a fazer perguntas melhores.
Posso ajudar?
Posso ajudá-lo a integrar treino de força, atividade cardiovascular e hábitos de movimento numa rotina sustentável, adaptada à sua condição física, objetivos e realidade diária.
Referências
- Shannon OM, Beck L, Castro C, et al. Impact of a Mediterranean diet and physical activity intervention on the gut microbiome and faecal metabolites: findings from the MedEx-UK randomised controlled trial. British Journal of Nutrition. 2026.
- DOI: 10.1017/S0007114526108551.
- PMID: 42808427.
- PubMed – estudo original