A gota é conhecida sobretudo pelas crises de dor e inflamação nas articulações, frequentemente associadas à acumulação de cristais de urato. No entanto, a investigação científica tem vindo a estudar uma possível relação entre a gota, o ácido úrico elevado e a disfunção erétil.
Um estudo publicado na revista Rheumatology International, em 5 de julho de 2019, analisou esta associação através de uma revisão sistemática e meta-análise de oito estudos, envolvendo 355 761 participantes, dos quais 85 067 tinham gota. Os investigadores encontraram um risco de disfunção erétil cerca de 20% superior entre pessoas com gota.
Mas existe uma questão fundamental: uma associação não significa necessariamente que a gota provoque disfunção erétil.
E a investigação mais recente tornou esta distinção ainda mais importante.
O que é a disfunção erétil?
A disfunção erétil é a dificuldade persistente em conseguir ou manter uma ereção suficientemente firme para uma relação sexual satisfatória.
Embora possa ter causas psicológicas, hormonais, neurológicas ou relacionadas com determinados medicamentos, a função erétil depende fortemente da saúde vascular.
Para ocorrer uma ereção é necessário que haja aumento do fluxo sanguíneo para o pénis. O óxido nítrico desempenha um papel importante neste processo porque promove o relaxamento da musculatura dos vasos sanguíneos e facilita a entrada de sangue nos tecidos eréteis.
Por isso, factores que afectam a função dos vasos sanguíneos podem também afectar a função erétil.
É neste contexto que surge a possível ligação com a gota e o ácido úrico.
O que mostrou o estudo de 2019?
A revisão sistemática publicada em 2019 procurou reunir a evidência disponível sobre a relação entre gota e disfunção erétil.
Foram analisados oito estudos, incluindo estudos transversais e estudos de coorte.
No conjunto dos dados, as pessoas com gota apresentavam um risco relativo de 1,20, com intervalo de confiança de 95% entre 1,10 e 1,31. Ou seja, a presença de gota estava associada a aproximadamente mais 20% de risco de disfunção erétil.
O resultado foi estatisticamente significativo e manteve-se nas análises de sensibilidade.
Mas os autores não concluíram que a gota fosse uma causa directa da disfunção erétil.
O estudo demonstrou uma associação epidemiológica, não uma relação causal.
Esta diferença é essencial.
Porque poderiam estar relacionadas?
Existem vários mecanismos biologicamente plausíveis.
A hiperuricemia pode estar associada a alterações da função endotelial, stress oxidativo e inflamação. Estes processos também podem afectar os vasos sanguíneos envolvidos na erecção.
Quando a função do endotélio se encontra comprometida, pode existir menor disponibilidade de óxido nítrico e menor capacidade de dilatação vascular.
Em teoria, isto poderia afectar simultaneamente diferentes territórios do organismo, incluindo os vasos responsáveis pela resposta erétil.
Mas existe outra possibilidade.
A gota não aparece isoladamente em muitas pessoas. Pode coexistir com excesso de peso, hipertensão arterial, diabetes, resistência à insulina, alterações dos lípidos e doença cardiovascular.
Todos estes factores estão associados à disfunção erétil.
Assim, parte da associação observada pode resultar de factores de risco partilhados.
O ácido úrico elevado é o verdadeiro problema?
Esta é uma questão mais difícil.
Ter ácido úrico elevado no sangue — hiperuricemia — não é exactamente a mesma coisa que ter gota.
A gota ocorre quando a concentração de urato é suficientemente elevada para favorecer a formação e deposição de cristais de urato monossódico, desencadeando inflamação.
Uma pessoa pode apresentar hiperuricemia sem nunca desenvolver uma crise de gota.
Por isso, quando encontramos uma associação entre gota e disfunção erétil, é necessário perceber se o problema está relacionado com:
- a própria gota;
- a concentração de ácido úrico;
- a inflamação;
- alterações metabólicas associadas;
- doença vascular;
- ou uma combinação destes factores.
A investigação mais recente traz uma surpresa
Um estudo publicado em 21 de fevereiro de 2025 utilizou uma técnica chamada randomização mendeliana para tentar perceber se existia uma relação causal entre gota, ácido úrico e disfunção erétil.
Este tipo de investigação utiliza variantes genéticas associadas a determinadas características para tentar ultrapassar algumas das limitações dos estudos observacionais.
E os resultados foram diferentes dos estudos anteriores.
A análise não encontrou evidência genética significativa de que a gota causasse directamente disfunção erétil.
Para a gota, o odds ratio foi 1,004, com intervalo de confiança de 0,948–1,063.
Também não foi encontrada uma associação causal significativa entre os níveis de ácido úrico e a disfunção erétil.
Isto não significa que não exista qualquer relação entre estas condições.
Significa que a evidência disponível não permite afirmar que o ácido úrico elevado ou a gota sejam, por si só, uma causa directa da disfunção erétil.
Então porque aparecem associações nos estudos?
Porque as pessoas com gota podem apresentar vários factores de risco simultaneamente.
Imagine-se um homem com gota que também apresenta hipertensão, excesso de gordura abdominal, menor actividade física, resistência à insulina e alterações do colesterol.
Todos estes factores podem contribuir para alterações vasculares e para a disfunção erétil.
Se compararmos este homem com uma pessoa sem gota e com um perfil metabólico mais saudável, podemos encontrar uma diferença na função erétil.
Mas isso não significa necessariamente que a gota seja a causa.
É precisamente por isso que a investigação científica precisa de controlar cuidadosamente os chamados factores de confusão.
A disfunção erétil pode ser um sinal vascular?
Sim, e esta é provavelmente uma das mensagens mais importantes.
A disfunção erétil não deve ser encarada simplesmente como um problema sexual.
Em alguns homens, alterações da erecção podem surgir antes de manifestações cardiovasculares mais evidentes.
Os vasos do pénis têm um calibre relativamente pequeno e alterações da função endotelial podem manifestar-se mais cedo.
Por isso, quando existe uma alteração persistente da função erétil, pode ser útil avaliar globalmente a saúde cardiovascular e metabólica.
Isto pode incluir factores como:
- pressão arterial;
- glicemia;
- perfil lipídico;
- peso e composição corporal;
- actividade física;
- tabagismo;
- sono;
- alimentação;
- consumo de álcool;
- e outros factores de risco individuais.
O exercício pode ajudar?
A actividade física regular está associada a melhor saúde cardiovascular e metabólica e pode contribuir para uma melhor função erétil.
O mecanismo não é simplesmente “fazer exercício para aumentar a erecção”.
O benefício pode resultar da melhoria global da função vascular, sensibilidade à insulina, composição corporal, capacidade cardiorrespiratória e controlo de factores de risco.
Exercício aeróbio, caminhada rápida, corrida, treino de força e outras formas de actividade física podem fazer parte de uma estratégia global de saúde.
No entanto, a quantidade e intensidade devem ser adaptadas à idade, condição física e estado de saúde de cada pessoa.
E a alimentação?
A alimentação também pode ter importância indirecta.
Uma alimentação baseada predominantemente em alimentos pouco processados, vegetais, fruta, leguminosas, frutos secos, cereais integrais, peixe e gorduras insaturadas pode contribuir para um melhor perfil cardiometabólico.
No caso da gota, existem ainda questões específicas relacionadas com o metabolismo das purinas, álcool, bebidas açucaradas e alguns alimentos ricos em purinas.
Mas é importante evitar uma visão demasiado simplista.
Não existe uma dieta única que trate simultaneamente todas as causas de disfunção erétil.
O objectivo deve ser melhorar o conjunto dos factores modificáveis.
E reduzir o ácido úrico melhora necessariamente a erecção?
Ainda não podemos afirmar isso.
É plausível que o controlo adequado da gota seja importante para a saúde geral e para a redução das complicações da doença.
Mas isso não significa automaticamente que baixar o ácido úrico vá prevenir ou tratar a disfunção erétil.
A investigação mais recente de 2025 não encontrou evidência genética de uma relação causal directa entre níveis de ácido úrico e disfunção erétil.
Por isso, seria incorrecto apresentar medicamentos para baixar o ácido úrico como tratamento da disfunção erétil com base apenas nesta associação.
O que mudou desde o estudo de 2019?
O estudo de 2019 é importante porque reuniu uma grande quantidade de participantes e encontrou uma associação consistente entre gota e maior risco de disfunção erétil.
Contudo, entretanto surgiram trabalhos que ajudam a interpretar melhor essa associação.
Uma revisão sistemática publicada em 2021 encontrou uma associação entre gota e disfunção erétil e discutiu mecanismos possíveis envolvendo stress oxidativo, óxido nítrico e inflamação.
Já a investigação genética publicada em 2025 não encontrou evidência de causalidade directa entre gota, ácido úrico e disfunção erétil.
Além disso, um estudo publicado em 2025 encontrou mecanismos experimentais através dos quais níveis elevados de ácido úrico poderiam prejudicar a função erétil em ratos. O mesmo trabalho encontrou uma associação clínica em pessoas jovens, mas a componente experimental em animais não pode ser automaticamente extrapolada para seres humanos.
Portanto, a literatura actual é mais complexa do que a simples afirmação “a gota causa impotência”.
O que podemos concluir?
A evidência científica permite afirmar que gota, hiperuricemia e disfunção erétil estão relacionadas em vários estudos observacionais.
O estudo de 2019 que motivou este artigo encontrou um risco aproximadamente 20% superior de disfunção erétil entre pessoas com gota.
No entanto, a investigação mais recente, incluindo um estudo de randomização mendeliana publicado em 21 de fevereiro de 2025, não encontrou evidência genética de que a gota ou o ácido úrico elevado provoquem directamente disfunção erétil.
A melhor interpretação actualmente é, portanto, mais prudente:
A gota pode funcionar como um marcador de um perfil metabólico e vascular associado a maior risco de disfunção erétil, mas não está demonstrado que a gota ou o ácido úrico sejam, isoladamente, a causa directa.
Esta distinção é importante porque permite concentrar a atenção onde ela pode ser mais útil: saúde cardiovascular, actividade física, alimentação, composição corporal, controlo metabólico e tratamento adequado da própria gota.
Posso ajudar
Posso ajudar a integrar exercício e estratégias de movimento numa abordagem global de saúde, respeitando idade, condição física, objetivos e limitações, sem substituir avaliação médica.
Conclusão
A relação entre gota e disfunção erétil é biologicamente plausível e aparece em vários estudos, mas a ciência ainda não permite afirmar uma relação causal directa.
O estudo de 2019 encontrou cerca de 20% mais risco de disfunção erétil entre pessoas com gota, depois de analisar oito estudos e mais de 355 mil participantes.
Contudo, o estudo mais recente que encontrei especificamente destinado a investigar causalidade, publicado em 2025, não encontrou evidência genética de que a gota ou o ácido úrico elevado causem directamente disfunção erétil.
A mensagem mais útil talvez seja outra: a função erétil pode ser uma janela para a saúde vascular e metabólica.
Por isso, perante disfunção erétil persistente, não devemos olhar apenas para a sexualidade. É razoável considerar também pressão arterial, glicemia, colesterol, actividade física, composição corporal, sono, tabagismo e outros factores cardiovasculares.
Mais do que procurar uma única causa, a abordagem deve ser global.
Referências e links
Estudo principal — Rheumatology International, 5 de julho de 2019:
Gout is associated with elevated risk of erectile dysfunction: a systematic review and meta-analysis — Springer Nature
Resumo e resultados no PubMed:
Gout is associated with elevated risk of erectile dysfunction — PubMed
Estudo mais recente sobre causalidade — Medicine, 21 de fevereiro de 2025:
Exploring the causal associations of gout and serum uric acid levels on erectile dysfunction — PMC
Estudo experimental mais recente sobre ácido úrico e função erétil — Communications Biology, 9 de agosto de 2025:
Elevated uric acid induces erectile dysfunction in rats — Nature Communications Biology
Revisão sistemática — Urology, 2021:
Beyond Arthritis: Understanding the Influence of Gout on Erectile Function — ScienceDirect