Artrose da anca e do joelho: como prescrever exercício para reduzir a dor e melhorar a mobilidade

Artrose da anca e do joelho: como prescrever exercício para reduzir a dor e melhorar a mobilidade October 15, 2026Leave a comment

A artrose da anca e do joelho é uma das causas mais frequentes de dor e limitação funcional, sobretudo à medida que envelhecemos. Levantar-se de uma cadeira, subir escadas, caminhar durante mais tempo ou agachar-se podem tornar-se tarefas desconfortáveis, levando algumas pessoas a reduzir progressivamente a sua atividade física.

Mas será que descansar mais é a melhor solução? A evidência científica aponta noutra direção: o exercício terapêutico é uma das principais estratégias para ajudar a controlar os sintomas da artrose, melhorar a função física e preservar a autonomia.

Uma revisão narrativa publicada em outubro de 2026 na revista Best Practice & Research Clinical Rheumatology aborda precisamente uma questão importante: como transformar as recomendações gerais sobre exercício em programas concretos, ajustados às necessidades de cada pessoa.

O que é a artrose e porque pode limitar o movimento?

A artrose é uma doença articular que envolve alterações em diferentes estruturas da articulação, incluindo a cartilagem, o osso subcondral, a membrana sinovial e os tecidos que a rodeiam.

Na anca e no joelho, estas alterações podem estar associadas a dor, rigidez, redução da mobilidade e dificuldade em realizar determinadas atividades. No entanto, a intensidade dos sintomas não depende exclusivamente das alterações observadas numa radiografia.

Há pessoas com alterações radiográficas significativas que apresentam poucos sintomas e outras com alterações menos evidentes que sentem dor considerável. Por isso, a avaliação não deve centrar-se apenas nas imagens médicas: importa perceber como a pessoa se movimenta, quais são as suas limitações e o que pretende recuperar.

O exercício funciona para a artrose?

Segundo a revisão de Haber e colaboradores, o exercício terapêutico é uma intervenção segura que proporciona melhorias pequenas a moderadas na dor e na função física em pessoas com artrose da anca ou do joelho.

Os benefícios parecem ser mais reduzidos, em média, na artrose da anca do que na do joelho. Esta diferença não significa que as pessoas com artrose da anca não beneficiem do exercício. Significa que os resultados podem variar consoante a articulação afetada e as características de cada caso.

O objetivo do treino não tem de ser eliminar completamente a dor ou recuperar uma articulação sem alterações. Pode ser conseguir caminhar mais tempo, subir escadas com maior facilidade, levantar-se sem utilizar as mãos ou regressar a uma atividade de que a pessoa gosta.

Estas metas funcionais ajudam a tornar o programa mais relevante e permitem avaliar a evolução para além da intensidade da dor.

Existe um tipo de exercício melhor do que os outros?

Uma das conclusões importantes desta revisão é que não existe um tipo de exercício que tenha demonstrado superioridade consistente para todas as pessoas com artrose da anca ou do joelho.

O treino de força, o exercício aeróbico e os programas que combinam diferentes componentes podem ser úteis. A escolha depende dos sintomas, da capacidade física, das preferências e dos objetivos individuais.

Por exemplo, uma pessoa que tenha dificuldade em levantar-se de uma cadeira poderá beneficiar de exercícios para fortalecer os membros inferiores. Outra, cuja principal limitação seja caminhar durante alguns minutos sem desconforto, poderá precisar de uma progressão gradual da atividade aeróbica.

Em muitos casos, a combinação de força, mobilidade e atividade cardiovascular permite trabalhar diferentes necessidades. O importante é encontrar uma estratégia que a pessoa consiga realizar com segurança e manter ao longo do tempo.

Quantas vezes por semana e com que intensidade?

É frequente procurar uma resposta exata para a frequência semanal, o número de repetições ou a intensidade ideal. Contudo, a revisão não encontrou uma relação dose-resposta estabelecida que permita afirmar que uma determinada quantidade de exercício produz sempre melhores resultados.

Isto não significa que a dose de treino seja irrelevante. Significa que ainda não existe uma fórmula universal que permita prever com precisão os resultados para todas as pessoas com artrose.

Na prática, o programa deve começar num nível compatível com a capacidade atual e evoluir de acordo com a resposta individual. Uma pessoa sedentária, com dor e pouca força, pode precisar de começar com exercícios simples, poucas repetições e períodos curtos de atividade.

Quando a tolerância melhora, é possível aumentar gradualmente a resistência, o número de repetições, a duração ou a complexidade dos movimentos.

Não é obrigatório começar com treinos longos nem procurar uma intensidade elevada. A prioridade é encontrar uma dose adequada, suficientemente estimulante e que permita continuidade.

Devemos treinar mesmo quando existe dor?

Esta é uma das dúvidas mais frequentes. Muitas pessoas interpretam qualquer desconforto durante o movimento como um sinal de que estão a agravar a artrose.

No entanto, a presença de dor não significa automaticamente que o exercício esteja a provocar lesões adicionais. A dor deve ser interpretada no contexto clínico, considerando a sua intensidade, evolução, duração e relação com a atividade.

A revisão identifica a dor muscular ou articular temporária como o efeito adverso mais comum associado ao exercício. Em geral, o exercício é considerado seguro, desde que seja adequadamente selecionado e ajustado.

Na prática, pode ser necessário reduzir temporariamente a carga, alterar a amplitude do movimento, escolher uma variante mais confortável ou diminuir a duração da sessão. Se houver um agravamento importante ou persistente, dor intensa, inchaço significativo ou perda súbita de função, é importante procurar avaliação clínica.

O objetivo não é obrigar a pessoa a suportar a dor. É encontrar formas de movimento que permitam desenvolver a capacidade física sem agravar desnecessariamente os sintomas.

Quem tem mais dor pode beneficiar mais?

A revisão sugere que as pessoas que começam com níveis de dor mais elevados ou pior função física podem obter benefícios ligeiramente superiores em determinadas circunstâncias.

Este resultado é importante porque uma condição inicial mais limitada não significa que o exercício seja inútil. Pelo contrário, pode existir margem para melhorias relevantes quando o programa é adaptado às necessidades da pessoa.

Os autores observaram também que os efeitos variavam pouco entre outros grupos de participantes, incluindo pessoas com diferentes níveis de comorbilidades ou diferentes graus de alterações radiográficas.

Assim, não devemos decidir se alguém pode beneficiar do exercício apenas com base na idade, numa radiografia ou na presença de outras doenças. A avaliação individual continua a ser essencial para definir a abordagem mais adequada.

O exercício presencial é melhor do que o treino em casa?

Outra conclusão relevante é que o exercício supervisionado presencial, as intervenções por teleconsulta e os programas realizados de forma autónoma podem melhorar a dor e a função física. Os benefícios observados parecem ser de magnitude semelhante.

Esta conclusão abre possibilidades para pessoas que têm dificuldade em deslocar-se a um ginásio ou que preferem treinar em casa. Contudo, não significa que todos os formatos sejam igualmente adequados em qualquer situação.

Uma pessoa com limitações importantes, insegurança nos movimentos ou necessidade de adaptação técnica poderá beneficiar de acompanhamento presencial. Outra, com maior experiência e autonomia, poderá conseguir realizar um programa domiciliário com instruções claras e acompanhamento periódico.

A melhor solução é aquela que combina segurança, adequação clínica, acessibilidade e capacidade de manter o exercício regularmente.

Como adapto o treino na prática?

Na minha experiência, prefiro começar por perceber o que a pessoa deixou de conseguir fazer e o que gostaria de recuperar. A dor é importante, mas não deve ser o único critério para escolher os exercícios.

Se alguém tem dificuldade em levantar-se de uma cadeira, podemos começar com uma cadeira mais alta, apoio das mãos ou menos repetições. Se subir escadas é o principal problema, podemos trabalhar a força das pernas e introduzir progressivamente exercícios relacionados com essa tarefa.

Também considero importante observar a resposta durante e depois da sessão. O mesmo exercício pode ser bem tolerado num dia e exigir adaptações noutro, dependendo do sono, da fadiga, da atividade realizada anteriormente e dos sintomas.

O programa deve evoluir à medida que a pessoa ganha capacidade. Aumentar a resistência não é a única forma de progredir: melhorar o controlo, a amplitude, a confiança ou a tolerância à caminhada também pode representar uma evolução importante.

Acima de tudo, o exercício deve fazer sentido para a pessoa. Um plano teoricamente perfeito, mas difícil de cumprir, pode ser menos útil do que um programa simples, adaptado e realizado com regularidade.

Conclusão: o melhor programa é aquele que se adapta à pessoa

A revisão publicada em 2026 reforça a importância do exercício terapêutico na artrose da anca e do joelho. A evidência indica melhorias na dor e na função física, sem demonstrar que um único tipo de exercício, uma dose específica ou um formato de acompanhamento seja sempre superior.

O foco deve estar nas necessidades, preferências e objetivos de cada pessoa. Medir a evolução da dor, da capacidade funcional e da qualidade de vida permite ajustar o programa de forma mais informada.

Ter artrose não significa que seja necessário deixar de treinar. Com uma abordagem progressiva e individualizada, é possível trabalhar a força, a mobilidade e a capacidade para realizar tarefas quotidianas, promovendo uma vida mais ativa e autónoma.

Posso ajudar

Ajudo pessoas com dor ou limitações de movimento a adaptar o treino à sua condição física, melhorar a força e recuperar confiança nas atividades diárias, com progressão individualizada e objetivos realistas.

Referências

  1. Haber T, Bennell KL, Hinman RS, Zhu S, Nelligan RK. Implementing exercise therapy for hip and knee osteoarthritis in the clinic: a best practice narrative review. Best Practice & Research Clinical Rheumatology. 2026. DOI: 10.1016/j.berh.2026.102205. Consultar o estudo no PubMed.

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