Um estudo publicado em 5 de setembro de 2026 na Nature Communications identificou alterações importantes do sistema imunitário em pessoas que morreram de asma fatal, incluindo alterações nos pulmões, intestino e gânglios linfáticos.
A asma é frequentemente associada à inflamação das vias respiratórias, à dificuldade em respirar, à tosse e à sensação de aperto no peito. No entanto, a doença é muito mais complexa do que uma simples inflamação localizada nos brônquios.
Um novo trabalho científico procurou compreender melhor porque é que algumas formas de asma podem tornar-se particularmente graves.
Os investigadores analisaram de forma abrangente o sistema imunitário de pessoas que morreram de asma fatal, comparando-as com pessoas que morreram por outras causas, incluindo indivíduos com e sem história de asma.
Os resultados sugerem que a asma fatal está associada a uma desregulação do sistema imunitário em diferentes tecidos, envolvendo não apenas os pulmões, mas também estruturas relacionadas com o intestino. (Nature)
O estudo mais recente sobre asma fatal
O trabalho, publicado por Yoonseung A. Lee e colegas na Nature Communications, foi publicado em 5 de setembro de 2026.
Os investigadores estudaram órgãos de dadores humanos que morreram de asma fatal e compararam-nos com dadores que morreram de outras causas.
Esta abordagem permitiu observar diretamente células e características do sistema imunitário presentes nos tecidos.
É uma diferença importante relativamente a muitos estudos sobre asma, que utilizam sobretudo sangue, amostras das vias respiratórias ou modelos animais.
Neste trabalho foram analisados pulmões, intestinos e órgãos linfoides associados às mucosas, permitindo estudar simultaneamente diferentes componentes da resposta imunitária. (Nature)
O que acontece ao sistema imunitário na asma?
O sistema imunitário tem como função proteger o organismo contra infeções e outras ameaças.
Na asma, porém, determinadas respostas imunitárias podem tornar-se exageradas ou inadequadamente dirigidas contra estímulos relativamente comuns.
Um dos elementos encontrados neste estudo foi uma maior concentração de IgE no plasma dos indivíduos com asma fatal.
A imunoglobulina E, ou IgE, é um tipo de anticorpo particularmente relacionado com respostas alérgicas.
A IgE pode participar na ativação de células imunitárias e contribuir para processos inflamatórios nas vias respiratórias.
No entanto, a asma não é exclusivamente uma doença alérgica. Existem diferentes fenótipos e mecanismos imunológicos, e esta diversidade ajuda a explicar porque é que duas pessoas com diagnóstico de asma podem apresentar manifestações muito diferentes.
Mais células imunitárias de memória
Um dos resultados mais interessantes foi a identificação de alterações nas chamadas células T e B de memória.
Estas células fazem parte da capacidade do sistema imunitário para reconhecer estímulos previamente encontrados.
Nos gânglios linfáticos associados ao pulmão e ao intestino, os investigadores observaram um aumento de células T e B de memória nos indivíduos com asma fatal.
Ao mesmo tempo, verificaram uma diminuição de células T reguladoras, ou Treg, associada à idade.
As células T reguladoras desempenham uma função importante na manutenção da tolerância e no controlo das respostas imunitárias excessivas.
Uma redução deste mecanismo regulador pode contribuir para uma resposta imunitária menos controlada. (Nature)
O que são as células T reguladoras?
As células T reguladoras funcionam, de forma simplificada, como um dos mecanismos de “travagem” do sistema imunitário.
O sistema imunitário precisa de ser suficientemente ativo para combater ameaças, mas não pode permanecer permanentemente hiperativado.
Quando existe equilíbrio, há mecanismos que promovem a resposta e outros que ajudam a terminá-la.
As células Treg participam precisamente nessa regulação.
O novo estudo sugere que, na asma fatal, esse equilíbrio pode estar alterado em tecidos associados às mucosas.
É importante, contudo, não interpretar este resultado como prova de que aumentar artificialmente as células Treg impediria ataques de asma. O estudo identifica uma associação e ajuda a compreender mecanismos; não testou um tratamento baseado nesta hipótese.
Alterações importantes nos pulmões
Nos pulmões, os investigadores encontraram um aumento de determinadas populações de células T de memória residentes nos tecidos.
Entre elas estavam células associadas às respostas Th2 e Th1.
A resposta Th2 é particularmente conhecida pela sua relação com asma alérgica e produção de determinadas citocinas envolvidas na inflamação das vias respiratórias.
A identificação simultânea de populações Th2 e Th1 sugere que a resposta imunitária na asma fatal pode ser mais complexa do que uma única via inflamatória.
Ou seja, não parece existir necessariamente uma única “causa imunológica” responsável pela gravidade da doença.
Existe provavelmente uma interação entre diferentes células, mediadores e tecidos.
E onde entra o intestino?
É aqui que o estudo se torna particularmente interessante.
Os investigadores encontraram maiores associações entre as respostas imunitárias do intestino e dos pulmões nos indivíduos com asma fatal.
Isto não significa que “a asma venha do intestino”.
Essa interpretação seria demasiado simplista.
Significa que existe uma possível comunicação imunológica entre diferentes superfícies mucosas do organismo.
O intestino e o sistema respiratório possuem grandes quantidades de tecido imunitário e estão constantemente expostos ao ambiente.
Alimentação, microrganismos, alergénios e outros estímulos ambientais podem influenciar diferentes componentes do sistema imunitário.
O estudo sugere que, em casos graves de asma, a comunicação entre estas regiões pode apresentar uma organização diferente da observada nos controlos. (Nature)
A ligação intestino-pulmão
A chamada ligação intestino-pulmão tem recebido cada vez mais atenção na investigação científica.
O conceito baseia-se na possibilidade de existir comunicação entre o sistema imunitário intestinal e o sistema respiratório.
Essa comunicação pode envolver células imunitárias, moléculas sinalizadoras e outros mecanismos biológicos.
O novo estudo acrescenta uma dimensão importante a esta área porque analisou diretamente tecidos humanos de pessoas com asma fatal.
No entanto, ainda não sabemos se as alterações intestinais contribuem para provocar as formas mais graves de asma, se são consequência da própria doença ou se ambas as situações acontecem simultaneamente.
Esta distinção será essencial para futuros estudos.
O que isto significa para quem pratica exercício?
A atividade física merece uma abordagem cuidadosa em pessoas com asma.
O exercício pode provocar sintomas em algumas pessoas com asma, especialmente quando a doença não está adequadamente controlada. Isto pode levar algumas pessoas a evitar atividade física.
Mas ter asma não significa automaticamente que se deva evitar exercício.
Pelo contrário, quando existe acompanhamento adequado e a doença está controlada, a atividade física pode fazer parte de um estilo de vida saudável.
O exercício regular melhora a capacidade cardiorrespiratória, a força muscular e a aptidão física global.
Para pessoas com asma, o planeamento do exercício deve ter em consideração o nível de controlo da doença, os sintomas, a medicação prescrita, o ambiente e a intensidade do esforço.
Em algumas situações, um aquecimento progressivo e uma gestão adequada da intensidade podem ser particularmente importantes.
E a alimentação?
O estudo também levanta questões interessantes sobre a relação entre alimentação, intestino e imunidade.
Contudo, é importante não extrapolar os resultados.
Os investigadores não demonstraram que uma determinada dieta trate ou previna a asma fatal.
Ainda assim, uma alimentação equilibrada, rica em alimentos pouco processados, vegetais, fruta, leguminosas, frutos secos e outras fontes de fibra pode contribuir para uma alimentação globalmente saudável.
A saúde intestinal é influenciada por múltiplos fatores, incluindo alimentação, atividade física, sono, medicamentos e composição da microbiota.
Por isso, não é necessário procurar uma “dieta para a asma” baseada neste estudo.
A mensagem mais prudente é outra: a relação entre alimentação, intestino e sistema imunitário merece investigação, particularmente nas doenças inflamatórias e respiratórias.
O estudo prova que o intestino causa asma?
Não.
Esta é provavelmente a distinção mais importante.
O estudo demonstra que pessoas que morreram de asma fatal apresentavam padrões diferentes de resposta imunitária em vários tecidos, incluindo intestino, pulmões e gânglios linfáticos.
Mas não demonstra uma relação causal direta entre intestino e asma.
Também não permite concluir que alterar a microbiota intestinal irá prevenir ataques graves.
Para responder a essas questões serão necessários estudos longitudinais e ensaios clínicos.
Porque é que este estudo é importante?
A principal contribuição do trabalho está em mostrar que a asma fatal pode envolver uma desregulação imunitária sistémica e coordenada entre diferentes tecidos mucosos.
Isto ajuda a afastar uma visão demasiado simples da doença.
Os pulmões continuam naturalmente no centro da asma, mas o sistema imunitário que controla as respostas pulmonares está ligado a uma rede muito mais ampla.
Compreender essa rede pode, no futuro, ajudar a identificar novos marcadores de risco e eventualmente novas estratégias terapêuticas.
O estudo não apresenta uma nova terapia para a asma.
Apresenta algo que pode ser igualmente importante para a investigação: uma melhor compreensão dos mecanismos envolvidos nas formas mais graves da doença.
O que podemos retirar deste estudo?
A asma é uma doença heterogénea e complexa.
O estudo publicado em 5 de setembro de 2026 reforça a ideia de que a gravidade da doença pode estar relacionada com alterações profundas na regulação do sistema imunitário, envolvendo pulmões, intestino e gânglios linfáticos.
Para a população em geral, a mensagem não deve ser de preocupação, mas de prudência.
Não existe atualmente justificação para concluir que uma intervenção alimentar específica ou uma alteração da microbiota irá prevenir a asma grave.
Para quem tem asma, o mais importante continua a ser o acompanhamento médico, o controlo adequado da doença e a adaptação do exercício às características individuais.
Para a investigação, porém, o estudo abre uma possibilidade interessante: compreender melhor a comunicação entre intestino, sistema imunitário e pulmões poderá ajudar a explicar porque é que algumas pessoas desenvolvem formas muito mais graves de asma.
Posso ajudar
Posso ajudar a adaptar exercício cardiovascular e força a pessoas com diferentes níveis de condição física, respeitando sintomas, progressão, idade e objetivos, sem substituir acompanhamento médico.
Referências