Cirurgia bariátrica: o que acontece à nutrição e ao metabolismo até 10 anos depois?

Cirurgia bariátrica: o que acontece à nutrição e ao metabolismo até 10 anos depois? October 20, 2026Leave a comment

A cirurgia bariátrica pode ajudar a perder peso de forma significativa e melhorar problemas metabólicos associados à obesidade. No entanto, existe uma questão que merece tanta atenção como a perda de peso: o que acontece ao estado nutricional nos anos seguintes à cirurgia?

Um estudo publicado em outubro de 2026 na revista Nutrients acompanhou 426 pessoas submetidas a cirurgia metabólica e bariátrica, analisando vários marcadores sanguíneos durante um período que chegou aos 10 anos. Os resultados mostram que, apesar do acompanhamento clínico e da utilização frequente de suplementos, algumas alterações nutricionais podem persistir ou desenvolver-se lentamente.

A mensagem principal é simples: o sucesso da cirurgia não deve ser avaliado apenas pelo peso perdido. A saúde óssea, a hemoglobina, as vitaminas, os minerais e a manutenção da massa muscular também merecem atenção.

O que analisou o estudo?

Os investigadores analisaram os registos clínicos de pessoas acompanhadas num centro especializado na Escócia, submetidas a diferentes procedimentos bariátricos entre 2011 e 2025. A análise final incluiu 426 participantes, com uma idade mediana de 49 anos e um índice de massa corporal mediano de 44,2 antes da cirurgia.

A maioria tinha realizado gastrectomia vertical, também conhecida como sleeve gástrico, ou bypass gástrico. Os investigadores acompanharam a evolução de 25 marcadores bioquímicos relacionados com o estado nutricional e metabólico, incluindo vitamina D, cálcio, hormona paratiroideia, hemoglobina, ferro, vitaminas do complexo B, zinco, selénio, albumina e colesterol.

As análises foram consideradas em diferentes momentos: antes da cirurgia e, quando existiam dados disponíveis, aos seis meses, um ano, cinco anos e dez anos.

É importante perceber que se tratou de um estudo observacional retrospetivo, realizado num único centro. Por isso, os resultados permitem identificar tendências ao longo do tempo, mas não demonstram, por si só, que todas as alterações foram causadas diretamente pela cirurgia.

Perda de peso significativa, mas acompanhamento prolongado

Os resultados confirmaram uma perda de peso relevante após a cirurgia. A redução mediana do peso corporal foi de 21,6%, embora os resultados variassem entre pessoas.

Entre os participantes com diabetes tipo 2 antes da intervenção, aproximadamente 41% apresentaram resolução da doença, segundo os critérios utilizados no estudo. Este resultado é relevante, mas não significa que a cirurgia garanta a remissão da diabetes a todas as pessoas ou que dispense acompanhamento posterior.

A cirurgia bariátrica pode alterar profundamente a ingestão alimentar, a digestão e a absorção de nutrientes. No bypass gástrico, por exemplo, o percurso dos alimentos pelo aparelho digestivo é modificado. Mesmo depois de uma gastrectomia vertical, em que o intestino não é desviado da mesma forma, a menor capacidade gástrica e as alterações alimentares podem dificultar o consumo de quantidades suficientes de alguns nutrientes.

Cálcio, vitamina D e saúde óssea: um resultado importante

Uma das principais conclusões foi a evolução desfavorável de alguns marcadores relacionados com o metabolismo ósseo.

Ao longo do acompanhamento, os níveis de cálcio ajustado diminuíram, enquanto a hormona paratiroideia, conhecida como PTH, aumentou. Cerca de um terço dos participantes apresentava PTH elevada aos dez anos.

A PTH participa na regulação do cálcio e do fósforo. Quando o organismo identifica alterações na disponibilidade de cálcio, esta hormona pode aumentar para ajudar a manter o cálcio no sangue. Se a elevação persistir, pode ser necessário investigar problemas relacionados com a saúde óssea e o metabolismo mineral.

O resultado merece atenção porque os níveis de vitamina D aumentaram, em média, ao longo do acompanhamento. Ainda assim, a melhoria da vitamina D não impediu a tendência de aumento da PTH.

Este dado mostra que não basta olhar isoladamente para um único marcador. A interpretação deve considerar o conjunto das análises, a ingestão alimentar, a suplementação, a função renal e outros fatores clínicos relevantes.

Na prática, a monitorização após cirurgia bariátrica deve incluir os parâmetros recomendados pela equipa clínica. A necessidade de suplementação e a respetiva dose devem ser individualizadas, em vez de se assumir que um suplemento multivitamínico resolve todas as possíveis carências.

Hemoglobina: atenção ao risco de anemia

Outro resultado relevante foi a diminuição gradual da hemoglobina. A proporção de participantes com valores abaixo do intervalo de referência aumentou de 26,3% antes da cirurgia para 38,5% entre os participantes com resultados disponíveis aos dez anos.

A hemoglobina é uma proteína dos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigénio. Valores baixos podem estar associados a anemia, embora a causa não possa ser determinada apenas através deste resultado.

A deficiência de ferro é uma possibilidade importante após cirurgia bariátrica, mas não é a única. A vitamina B12, o folato, a inflamação, perdas de sangue e outras condições também podem contribuir para alterações da hemoglobina.

Por isso, quando existe uma descida persistente, a avaliação deve incluir os exames adequados para identificar a causa. Tomar ferro por iniciativa própria não é uma solução universal: a suplementação deve responder às necessidades identificadas e ser acompanhada clinicamente.

Zinco, selénio e albumina: alterações que podem passar despercebidas

O estudo identificou também descidas nos níveis de zinco e selénio, dois micronutrientes envolvidos em várias funções do organismo. O zinco participa, entre outros processos, na função imunitária e na reparação dos tecidos. O selénio contribui para a atividade de enzimas antioxidantes e para o funcionamento normal da tiroide.

Apesar de alguns resultados de zinco se encontrarem abaixo do intervalo de referência, a deficiência acentuada foi rara segundo o limite clínico definido pelos investigadores. Esta distinção é importante: um valor ligeiramente baixo não equivale necessariamente a uma deficiência grave, mas pode justificar avaliação no contexto clínico adequado.

A albumina, uma proteína medida no sangue, também apresentou uma tendência de descida. No entanto, a albumina não é um indicador específico de ingestão proteica: pode ser influenciada por inflamação, doenças e outros fatores. Um resultado baixo deve, portanto, ser interpretado em conjunto com a história clínica e restantes análises.

Os níveis de várias vitaminas do complexo B aumentaram ao longo do tempo, provavelmente refletindo, pelo menos em parte, a suplementação utilizada no serviço. Ainda assim, a tiamina não apresentou a mesma evolução. Este pormenor reforça que diferentes nutrientes podem ter comportamentos distintos e não devem ser tratados como se fossem todos equivalentes.

O colesterol manteve-se relativamente estável

Ao contrário de alguns marcadores nutricionais, o colesterol total não apresentou uma alteração significativa ao longo do acompanhamento. Este resultado não significa que o perfil lipídico seja irrelevante depois da cirurgia. O colesterol total, isoladamente, não permite avaliar todo o risco cardiovascular; é necessário considerar, entre outros fatores, o LDL, o HDL, os triglicéridos, a pressão arterial e o contexto clínico de cada pessoa.

O estudo também não permite concluir que a cirurgia tenha um efeito idêntico no colesterol em todos os doentes. A resposta pode depender da perda de peso, da alimentação, da medicação e de outras características individuais.

O que significa isto para o exercício e a manutenção muscular?

Depois de uma cirurgia bariátrica, a perda de peso é um objetivo frequente, mas importa considerar também a composição corporal e a capacidade funcional. Uma redução rápida do peso pode envolver perda de massa gorda e de massa isenta de gordura, incluindo tecido muscular.

Quando a equipa médica considera que a pessoa está preparada, o exercício progressivo, incluindo treino de força adaptado, pode ajudar a preservar a função muscular e a autonomia. A alimentação deve fornecer energia, proteína e micronutrientes suficientes para apoiar a recuperação, respeitando as orientações específicas do período pós-operatório.

Não existe, contudo, um programa de treino ou uma quantidade de proteína adequada a todas as pessoas após cirurgia bariátrica. A tolerância alimentar, a fase de recuperação, as análises, as comorbilidades e as recomendações da equipa clínica devem orientar as decisões. Em caso de anemia, carências nutricionais ou sintomas persistentes, a prioridade é a avaliação clínica.

As limitações que devemos ter em conta

Embora o acompanhamento até dez anos seja uma vantagem, o estudo tem limitações. Foi realizado num único centro, não incluiu um grupo de comparação sem cirurgia e o número de participantes com análises disponíveis diminuiu nos momentos de seguimento mais distantes.

Além disso, os dados relativos à utilização de suplementos não permitem determinar com precisão todas as diferenças de dose, duração e adesão ao longo dos anos. Por esse motivo, não é possível concluir que uma estratégia específica de suplementação evitaria todas as alterações observadas.

Os resultados devem ser entendidos como um alerta para a importância da vigilância prolongada, e não como prova de que todas as pessoas submetidas a cirurgia bariátrica desenvolverão deficiências nutricionais.

Conclusão

Este estudo de 426 pessoas mostra que, até dez anos depois da cirurgia bariátrica, podem surgir alterações persistentes em marcadores relacionados com o cálcio, a PTH, a hemoglobina, o zinco, o selénio e a albumina, mesmo num serviço com acompanhamento estruturado e utilização frequente de suplementos.

A cirurgia pode proporcionar benefícios importantes na perda de peso e na saúde metabólica. Mas o sucesso a longo prazo exige mais do que acompanhar os números da balança. A monitorização nutricional, a suplementação individualizada, uma alimentação adequada e o exercício adaptado devem fazer parte de uma estratégia continuada, definida em articulação com os profissionais de saúde.

Posso ajudar

Posso ajudar a adaptar o exercício à capacidade física, aos objetivos e à fase de recuperação, respeitando as orientações clínicas e privilegiando a força, a mobilidade e a manutenção da autonomia.

Referências

  • Mitchell S, Bhandari P, Houston M, et al. Nutritional and Metabolic Trajectories up to 10 Years After Metabolic and Bariatric Surgery: A Tertiary-Centre Retrospective Longitudinal Cohort Study. Nutrients. 2026;18(19):3265. https://doi.org/10.3390/nu18193265
  • Versão integral do artigo, em acesso aberto: Nutrients — artigo completo.

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