Estar muitas horas sentado faz diferença? O novo estudo sobre sedentarismo e risco de cancro

Estar muitas horas sentado faz diferença? O novo estudo sobre sedentarismo e risco de cancro September 12, 2026Leave a comment

Um estudo publicado na PLOS Medicine em 2 de julho de 2026 sugere que não importa apenas quanto tempo passamos sentados, mas também durante quanto tempo permanecemos sentados sem interrupção.

Passar muitas horas sentado tornou-se uma característica comum da vida moderna.

Trabalho ao computador, deslocações de automóvel, televisão, utilização do telemóvel e outras atividades podem fazer com que uma pessoa passe grande parte do dia sentada.

Sabemos há vários anos que o comportamento sedentário está associado a diversos problemas de saúde. No entanto, uma questão permanecia menos esclarecida:

Será que é igual passar oito horas sentado, levantando-se frequentemente, ou passar várias horas consecutivas sentado?

Um novo estudo publicado na PLOS Medicine procurou responder precisamente a esta questão.

Os investigadores analisaram 91.292 participantes do UK Biobank, utilizando dados de acelerómetros para avaliar objetivamente os padrões de movimento e sedentarismo. Os participantes foram acompanhados durante uma mediana de 12,38 anos. (PLOS)

Os resultados sugerem que períodos prolongados e ininterruptos de comportamento sedentário estão mais fortemente associados ao risco de mortalidade por cancro do que períodos sedentários interrompidos.

O que é comportamento sedentário?

Comportamento sedentário não significa simplesmente “não fazer exercício”.

É possível cumprir uma sessão de exercício de 45 minutos e, ainda assim, passar grande parte do restante dia sentado.

Considera-se comportamento sedentário o tempo passado acordado em atividades realizadas predominantemente sentado, reclinado ou deitado, com um gasto energético muito baixo.

Por exemplo:

  • trabalhar sentado;
  • conduzir;
  • ver televisão;
  • utilizar o computador;
  • estar sentado a ler;
  • utilizar o telemóvel durante longos períodos.

Esta distinção é importante porque atividade física e sedentarismo são conceitos diferentes.

Uma pessoa pode ser fisicamente ativa e, simultaneamente, passar demasiado tempo sentada.

O que este novo estudo analisou?

O trabalho, liderado por Ziyi Zhou e colaboradores, utilizou dados de 91.292 participantes do UK Biobank que tinham medições válidas através de acelerómetro. (PLOS)

Os investigadores utilizaram um método baseado em inteligência estatística, incluindo um modelo random forest, para classificar diferentes padrões de comportamento sedentário.

Em vez de analisar apenas o número total de horas sentado, distinguiram entre:

Sedentarismo prolongado: períodos mais longos e contínuos sem movimento significativo.

Sedentarismo interrompido: períodos mais curtos de sedentarismo intercalados com movimento.

Os participantes foram depois acompanhados durante mais de 12 anos, em média, para analisar a ocorrência de diferentes tipos de cancro e mortalidade por cancro.

Uma hora adicional de sedentarismo prolongado fez diferença

Depois de ajustar os resultados para vários fatores sociodemográficos, de estilo de vida, alimentação e estado de saúde, os investigadores encontraram uma associação entre cada hora adicional diária de sedentarismo prolongado e maior risco de mortalidade por cancro.

O risco relativo de mortalidade por cancro aumentou aproximadamente 9% por cada hora adicional diária de comportamento sedentário prolongado no modelo principal ajustado. (PLOS)

Na análise resumida pelos autores, cada hora adicional de sedentarismo prolongado esteve associada a cerca de 10% maior risco de mortalidade por cancro.

É importante interpretar estes valores corretamente.

Não significa que estar sentado durante uma hora provoque cancro.

O estudo é observacional, pelo que demonstra uma associação e não uma relação causal.

E se simplesmente interrompermos o tempo sentado?

Esta é talvez a parte mais interessante do estudo.

Os investigadores verificaram que substituir períodos prolongados de sedentarismo por atividade física estava associado a um menor risco de mortalidade por cancro.

A substituição de uma hora diária de sedentarismo prolongado por atividade física ligeira esteve associada a uma redução aproximada de 12% no risco de mortalidade por cancro.

Substituir 30 minutos de sedentarismo prolongado por atividade física moderada esteve associado a uma redução aproximada de 8%.

E, na análise apresentada pelos autores, substituir apenas cinco minutos por dia por atividade física vigorosa esteve associado a uma redução aproximada de 22% no risco de mortalidade por cancro. (PLOS)

Estes números não devem ser interpretados como uma relação matemática individual — por exemplo, “cinco minutos de exercício eliminam 22% do risco de cancro”.

Representam associações estimadas através de modelos estatísticos de substituição de tempo.

O mais importante pode ser interromper longos períodos sentado

Imagine duas pessoas que passam oito horas por dia sentadas.

A primeira permanece sentada durante quatro ou cinco horas consecutivas, com poucos movimentos.

A segunda levanta-se regularmente, caminha alguns minutos, sobe escadas, vai buscar água ou realiza pequenas tarefas ao longo do dia.

O tempo total sentado pode ser semelhante.

Mas o padrão de comportamento é diferente.

O estudo sugere que esta diferença pode ser relevante para a saúde.

Esta ideia é importante porque torna a prevenção mais prática.

Não é necessário transformar todas as horas do dia em exercício.

É possível começar simplesmente por interromper períodos prolongados de sedentarismo.

Pequenos movimentos podem ter importância

Quando se fala em atividade física, existe frequentemente uma tendência para pensar apenas em treinos estruturados.

Ginásio, corrida, bicicleta, natação ou treino de força são importantes.

Mas o movimento diário também conta.

Levantar-se da cadeira.

Caminhar enquanto se fala ao telefone.

Subir escadas.

Andar alguns minutos depois de uma refeição.

Fazer pequenas tarefas domésticas.

Caminhar até um local próximo em vez de utilizar o automóvel.

Nenhuma destas atividades substitui necessariamente um programa de exercício estruturado.

Mas podem reduzir o tempo passado continuamente parado.

E o novo estudo sugere que interromper períodos prolongados de sedentarismo pode ser um alvo importante para a promoção da saúde. (PLOS)

Sedentarismo não é o mesmo que falta de exercício

Esta distinção merece ser reforçada.

Uma pessoa pode correr 30 minutos todos os dias e permanecer sentada durante grande parte das restantes horas.

Outra pode não fazer um treino formal, mas caminhar frequentemente, trabalhar em pé e interromper regularmente os períodos sentados.

Qual das duas tem necessariamente melhor perfil de movimento?

Não podemos responder apenas com base neste estudo.

Mas a investigação reforça uma ideia importante:

o exercício estruturado e a redução do comportamento sedentário são objetivos complementares.

Não devemos pensar:

“Treinei, portanto posso passar o resto do dia sentado.”

É possível fazer exercício e, simultaneamente, procurar passar menos tempo sentado.

E o cancro?

O estudo analisou mortalidade por cancro global e também diferentes tipos específicos de cancro.

Os investigadores avaliaram ainda cancros relacionados com obesidade e diabetes tipo 2.

A associação mais consistente surgiu com períodos prolongados de sedentarismo e mortalidade por cancro. (PLOS)

Contudo, os resultados não significam que o sedentarismo seja uma causa direta de todos estes cancros.

Existem inúmeros fatores envolvidos no desenvolvimento de uma doença oncológica:

  • idade;
  • genética;
  • tabagismo;
  • álcool;
  • alimentação;
  • excesso de peso;
  • infeções;
  • exposição ambiental;
  • atividade física;
  • fatores hormonais;
  • entre muitos outros.

O sedentarismo pode fazer parte deste conjunto de fatores, mas não deve ser isolado como uma explicação única.

Porque poderá existir esta associação?

O estudo não foi concebido para demonstrar exatamente o mecanismo biológico responsável pela associação.

No entanto, existem várias hipóteses plausíveis.

Passar muitas horas sentado pode estar relacionado com:

  • menor gasto energético;
  • pior controlo da glicemia;
  • alterações da sensibilidade à insulina;
  • alterações no metabolismo dos lípidos;
  • menor circulação muscular;
  • maior acumulação de gordura corporal;
  • maior tempo de exposição a um estilo de vida globalmente sedentário.

Alguns destes mecanismos podem estar relacionados com processos metabólicos e inflamatórios que também participam no desenvolvimento de determinadas doenças crónicas.

Mas estas hipóteses não devem ser apresentadas como conclusões causais deste estudo.

O papel do peso corporal

Uma das questões importantes é saber até que ponto o excesso de peso explica parte da relação observada.

A obesidade está associada a vários tipos de cancro e também está relacionada com níveis mais elevados de sedentarismo.

Por isso, os investigadores tiveram em consideração diversos fatores de saúde e estilo de vida nos seus modelos estatísticos.

Mesmo assim, não é possível excluir completamente confusão residual.

Isto significa que podem existir fatores não medidos ou medidos de forma imperfeita que expliquem parcialmente algumas das associações.

O exercício ligeiro pode ser suficiente?

O estudo apresenta uma mensagem particularmente interessante para pessoas que não conseguem realizar exercício intenso.

Quando uma hora de sedentarismo prolongado foi substituída por atividade física ligeira, verificou-se uma associação com menor mortalidade por cancro. (PLOS)

Isto não significa que caminhar alguns minutos seja equivalente a correr ou fazer treino de força.

A intensidade continua a ser importante para diferentes objetivos.

Mas demonstra que existe espaço para uma estratégia intermédia:

mais movimento, mesmo quando não é possível realizar exercício intenso.

Para uma pessoa sedentária, aumentar gradualmente o movimento diário pode ser um primeiro passo muito mais realista do que começar imediatamente com treinos exigentes.

Depois dos 40 anos, esta mensagem ganha importância

Com o envelhecimento, a massa muscular, a força, a capacidade cardiorrespiratória e a mobilidade tendem a diminuir se não forem estimuladas.

Ao mesmo tempo, muitas pessoas aumentam o tempo passado sentadas devido ao trabalho, condução ou atividades de lazer.

Por isso, depois dos 40 anos, uma estratégia de saúde pode combinar:

treino de força + exercício cardiovascular + caminhadas + interrupção frequente do tempo sentado.

Esta combinação permite trabalhar diferentes componentes da condição física.

O objetivo não é apenas viver mais anos.

É preservar capacidade funcional, autonomia e qualidade de vida.

Como reduzir o sedentarismo no dia a dia?

Algumas alterações são simples.

Durante o trabalho

Levantar-se regularmente da cadeira.

Fazer pequenas deslocações dentro do espaço de trabalho.

Alternar entre períodos sentado e em pé quando possível.

Durante o telemóvel

Caminhar enquanto se fala.

É uma das formas mais fáceis de transformar tempo sedentário em movimento.

Depois das refeições

Uma pequena caminhada pode ser uma forma prática de interromper o período sentado e aumentar a atividade diária.

Durante a televisão

Levantar-se durante os intervalos ou entre episódios.

Fazer algumas tarefas simples em vez de permanecer continuamente sentado.

Nas deslocações

Sempre que possível, caminhar parte do percurso.

Subir escadas em vez de utilizar sempre o elevador.

São pequenas decisões, mas repetidas todos os dias podem alterar significativamente o padrão global de movimento.

E quem já faz muito exercício?

Esta é uma das mensagens mais importantes.

Se alguém corre, pratica musculação ou faz outro tipo de exercício regularmente, não significa que deva ignorar o sedentarismo.

O exercício estruturado continua a ser fundamental.

Mas pode ser complementado por uma regra simples:

evitar ficar muitas horas consecutivas sentado.

Por exemplo, alguém que faça 60 minutos de exercício pode ainda procurar levantar-se regularmente durante o trabalho.

A combinação pode ser mais interessante do que escolher entre “fazer exercício” ou “não estar sentado”.

As limitações do estudo

É fundamental conhecer as limitações.

Este foi um estudo de coorte observacional, pelo que não consegue provar que o sedentarismo prolongado causa cancro.

Além disso, os participantes pertenciam ao UK Biobank e podem não representar perfeitamente a população geral.

Outra limitação é que o comportamento físico foi avaliado através de acelerómetro durante apenas sete dias.

O padrão observado nesses sete dias pode não representar exatamente o comportamento dos participantes durante os anos seguintes.

Os próprios autores destacam ainda a possibilidade de confusão residual, viés associado aos participantes voluntários e imprecisão na medição do comportamento sedentário. (PLOS)

A mensagem prática

Não é necessário transformar a vida numa sequência permanente de exercício.

A mensagem pode ser muito mais simples:

evitar longos períodos consecutivos sentado.

Levantar.

Caminhar.

Mover.

Voltar a sentar.

Repetir.

E, paralelamente, manter um programa regular de exercício cardiovascular e treino de força.

O estudo sugere que esta combinação pode ser uma estratégia interessante para reduzir um dos padrões de comportamento associados a pior saúde.

Conclusão

O estudo publicado na PLOS Medicine em 2 de julho de 2026 acrescenta uma informação importante à discussão sobre sedentarismo.

Não parece ser apenas relevante saber quantas horas passamos sentados.

Também pode ser importante perceber como essas horas são distribuídas ao longo do dia.

Entre 91.292 participantes do UK Biobank, períodos prolongados de comportamento sedentário estiveram associados a maior mortalidade por cancro. A substituição de parte desse tempo por atividade física, mesmo de intensidade ligeira, esteve associada a menor risco. (PLOS)

Não podemos afirmar, com base neste estudo, que levantar-se regularmente previne o cancro.

Mas podemos retirar uma mensagem prática e de baixo risco:

não é preciso esperar pelo treino para nos mexermos.

Para quem passa muitas horas sentado, levantar-se frequentemente, caminhar alguns minutos e reduzir os períodos prolongados de sedentarismo pode ser uma forma simples de tornar o dia mais ativo.

E quando essa estratégia é combinada com exercício cardiovascular, treino de força, alimentação adequada, sono e controlo dos principais fatores de risco, passa a fazer parte de uma abordagem mais completa ao envelhecimento saudável.

Posso ajudar

Posso ajudar a estruturar treino de força, exercício cardiovascular e movimento diário, reduzindo o sedentarismo e adaptando a progressão à idade, condição física e objetivos individuais.

Referências

Artigo científico completo — PLOS Medicine, publicado em 2 de julho de 2026

Estudo — Accelerometry-measured prolonged and interrupted sedentary behavior and cancer incidence and mortality

Informação e resultados detalhados do estudo — PLOS Medicine