Exercício aeróbio e hipertensão pulmonar: como o exercício pode reduzir a inflamação

Exercício aeróbio e hipertensão pulmonar: como o exercício pode reduzir a inflamação October 13, 2026Leave a comment

A relação entre exercício físico e saúde cardiovascular é conhecida há décadas. Caminhar, correr, andar de bicicleta ou nadar regularmente pode melhorar a capacidade cardiorrespiratória e contribuir para a prevenção e controlo de vários fatores de risco.

Mas será que o exercício pode também atuar sobre mecanismos biológicos específicos envolvidos em doenças pulmonares e cardiovasculares?

Um novo estudo publicado no Journal of the American Heart Association procurou responder precisamente a uma parte desta questão, investigando os mecanismos através dos quais o exercício aeróbio pode produzir benefícios na hipertensão pulmonar.

O trabalho identificou uma proteína chamada S100A9 como possível elemento importante nesta relação. Os investigadores observaram que o exercício reduziu a expressão desta proteína e que essa alteração esteve associada a menor inflamação e a melhorias nas alterações vasculares provocadas pela hipertensão pulmonar.

É um resultado interessante, mas é importante perceber exatamente o que foi estudado e, sobretudo, o que ainda não podemos concluir.

O que é a hipertensão pulmonar?

A hipertensão pulmonar caracteriza-se por um aumento anormal da pressão existente na circulação pulmonar.

As artérias pulmonares transportam o sangue do coração para os pulmões, onde ocorre a troca de gases. Quando estes vasos apresentam alterações estruturais ou funcionais, o coração, especialmente o ventrículo direito, pode ter de trabalhar mais para conseguir fazer circular o sangue.

Com o tempo, esta sobrecarga pode contribuir para alterações do coração e para uma redução da capacidade de realizar esforço.

A hipertensão pulmonar não é uma única doença. Existem diferentes formas e diferentes causas, incluindo doenças pulmonares crónicas, alterações cardiovasculares e outras condições específicas.

Por isso, falar simplesmente em “fazer exercício para tratar a hipertensão pulmonar” seria uma simplificação excessiva.

O que descobriu este novo estudo?

O estudo publicado em setembro de 2026 analisou os efeitos do exercício aeróbio num modelo experimental de hipertensão pulmonar provocada por hipóxia, ou seja, por uma exposição a níveis reduzidos de oxigénio.

Os investigadores acompanharam animais submetidos a quatro semanas de treino e utilizaram diferentes técnicas laboratoriais para perceber o que acontecia nos tecidos e nas células.

Os resultados mostraram que o exercício aeróbio conseguiu melhorar algumas das alterações provocadas pela hipertensão pulmonar, nomeadamente alterações vasculares pulmonares e remodelação do ventrículo direito.

Mas a parte mais interessante do trabalho foi tentar perceber porquê.

O papel da proteína S100A9

Através de análises moleculares, os investigadores identificaram a S100A9 como uma das proteínas mais alteradas pelo exercício.

Em condições de hipóxia, a expressão desta proteína aumentou significativamente nos pulmões. A S100A9 está relacionada com processos inflamatórios e com a atividade de determinadas células do sistema imunitário, particularmente os neutrófilos.

Segundo os resultados experimentais, níveis elevados de S100A9 favoreceram o recrutamento de células inflamatórias e interferiram com o funcionamento das células musculares lisas das artérias pulmonares.

Os investigadores identificaram ainda uma possível ligação com uma via de sinalização celular conhecida como TLR4-MyD88-ERK, envolvida na resposta inflamatória.

Quando a S100A9 foi inibida experimentalmente, observaram-se menor infiltração de células inflamatórias e recuperação de algumas alterações celulares.

O exercício pareceu produzir uma parte destes efeitos através da redução da S100A9.

O que significa isto na prática?

A primeira mensagem que retiro deste estudo é interessante, mas deve ser interpretada com cuidado.

Não significa que o exercício “cure” a hipertensão pulmonar.

Também não significa que qualquer pessoa com hipertensão pulmonar possa começar imediatamente a fazer exercício intenso.

O estudo ajuda-nos sobretudo a compreender melhor um possível mecanismo biológico através do qual o exercício pode exercer efeitos benéficos.

Esta distinção é importante porque uma parte significativa da investigação mecanística foi realizada em animais. Embora os autores tenham também encontrado expressão elevada de S100A9 em determinadas condições humanas relacionadas com doença pulmonar, os resultados não permitem concluir que reduzir esta proteína através do exercício produza, por si só, um benefício clínico comprovado em pessoas com hipertensão pulmonar.

Exercício e inflamação: uma relação cada vez mais interessante

O exercício físico não deve ser entendido apenas como uma forma de gastar calorias ou aumentar a frequência cardíaca.

Quando realizamos exercício de forma regular, produzimos uma série de alterações fisiológicas que envolvem os músculos, o coração, os vasos sanguíneos, o sistema nervoso, o metabolismo e o sistema imunitário.

Dependendo da intensidade, duração e estado de saúde da pessoa, o exercício pode influenciar diferentes vias relacionadas com inflamação e adaptação cardiovascular.

É precisamente esta visão mais ampla que considero importante no treino.

Não treinamos apenas um músculo. Estamos a criar estímulos que obrigam o organismo a adaptar-se.

Ao longo do tempo, essas adaptações podem traduzir-se numa melhor capacidade para realizar esforço, numa maior eficiência cardiovascular e numa melhor tolerância às atividades do dia a dia.

Mais exercício não significa necessariamente melhor exercício

Existe, contudo, um ponto que considero fundamental.

Quando aparece um estudo sobre os benefícios do exercício, é fácil retirar a conclusão de que quanto mais intenso for o treino, melhor será o resultado.

Não é assim tão simples.

Uma pessoa saudável, um atleta e uma pessoa com doença pulmonar ou cardiovascular apresentam capacidades muito diferentes.

A intensidade adequada depende da condição clínica, capacidade funcional, medicação, sintomas e objetivos individuais.

Em pessoas com doença cardiovascular ou pulmonar diagnosticada, a prescrição de exercício deve ser individualizada e, quando necessário, integrada num programa de reabilitação ou acompanhada por profissionais de saúde.

O exercício aeróbio continua a ser importante

Para a população geral, o exercício aeróbio continua a ser uma das formas mais eficazes de melhorar a capacidade cardiorrespiratória.

Caminhada rápida, bicicleta, corrida, natação ou outras atividades podem ser utilizadas de acordo com a condição física e preferência de cada pessoa.

Não é necessário transformar cada sessão numa prova de esforço.

Na minha experiência, especialmente depois dos 40 anos, a capacidade de manter uma rotina durante meses e anos é frequentemente mais importante do que conseguir realizar sessões muito intensas durante algumas semanas.

Uma pessoa que caminha regularmente, treina força e aumenta progressivamente a sua capacidade física está provavelmente a construir uma base muito mais sustentável do que alguém que alterna períodos de treino excessivo com longos períodos de inatividade.

E o treino de força?

Embora este estudo esteja centrado no exercício aeróbio, isso não significa que o treino de força seja menos importante.

O envelhecimento saudável depende de várias capacidades físicas.

Precisamos de força para levantar uma cadeira, subir escadas, transportar compras ou recuperar o equilíbrio.

Precisamos de capacidade aeróbia para caminhar durante mais tempo e realizar atividades sem fadiga excessiva.

Precisamos de equilíbrio, mobilidade e coordenação para utilizar essas capacidades com segurança.

Por isso, quando penso num programa de exercício para saúde e longevidade, prefiro normalmente uma abordagem integrada, ajustada à pessoa e não uma procura pelo “melhor exercício” isolado.

Uma nova peça no puzzle

O estudo sobre a S100A9 acrescenta uma peça interessante ao conhecimento sobre os efeitos do exercício na hipertensão pulmonar.

Os resultados sugerem que o exercício aeróbio pode influenciar mecanismos inflamatórios e vasculares envolvidos na doença, incluindo uma possível redução da atividade da S100A9.

É uma hipótese biologicamente interessante e que poderá ajudar a orientar investigação futura.

Mas ainda precisamos de estudos clínicos que demonstrem até que ponto este mecanismo se traduz em benefícios relevantes para pessoas com diferentes formas de hipertensão pulmonar.

Para já, a mensagem mais equilibrada é simples: o exercício é uma intervenção fisiológica complexa, capaz de provocar adaptações em muitos sistemas do organismo, mas a sua prescrição deve ser adequada à condição individual.

Conclusão

O novo estudo publicado no Journal of the American Heart Association identificou a S100A9 como um possível mediador dos benefícios do exercício aeróbio na hipertensão pulmonar.

Nos modelos experimentais estudados, o exercício reduziu a expressão desta proteína, diminuiu sinais de inflamação e melhorou alterações vasculares pulmonares e cardíacas associadas à doença.

Estes resultados ajudam a compreender melhor a biologia do exercício, mas não permitem ainda afirmar que a manipulação da S100A9 ou o exercício, isoladamente, constituam um tratamento para a hipertensão pulmonar.

O que este trabalho reforça é uma ideia que considero cada vez mais importante: o exercício não é apenas movimento. É um estímulo biológico capaz de modificar a forma como diferentes sistemas do organismo funcionam e se adaptam.

Posso ajudar?

Posso ajudar a desenvolver um programa de exercício individualizado, ajustado à condição física, objetivos, limitações e resposta de cada pessoa, privilegiando progressão, segurança e consistência.

Referências

  • Zhu C, He Z, Liu X, et al. S100A9 Inhibition Mediates Aerobic Exercise Benefits in Pulmonary Hypertension. Journal of the American Heart Association. 2026. DOI: 10.1161/JAHA.125.049578. PubMed

Leia também