Exercício pode reduzir a catastrofização da dor? O que mostra a nova evidência

Exercício pode reduzir a catastrofização da dor? O que mostra a nova evidência October 8, 2026Leave a comment

Quando uma pessoa vive com dor crónica, nem sempre o problema está apenas na intensidade da dor. A forma como interpreta os sintomas, aquilo que espera que aconteça e o receio de que a dor piore podem influenciar a experiência dolorosa e a forma como se movimenta.

Um novo estudo publicado em 2026 analisou precisamente esta questão: será que o exercício consegue reduzir a chamada catastrofização da dor em pessoas com dor crónica não específica da coluna?

A investigação é particularmente interessante porque a catastrofização é frequentemente discutida na reabilitação da dor, mas isso não significa que qualquer intervenção de exercício produza automaticamente uma melhoria neste domínio.

O que é a catastrofização da dor?

A catastrofização da dor descreve um padrão de pensamentos negativos e exageradamente ameaçadores relacionados com a dor.

Pode incluir pensamentos como acreditar que a dor significa que existe uma lesão grave, antecipar que os sintomas vão piorar inevitavelmente ou sentir que não existe capacidade para lidar com aquilo que está a acontecer.

Não significa que a dor seja imaginária. Este ponto é fundamental.

A dor é uma experiência real, mas a forma como o cérebro interpreta uma ameaça pode influenciar a resposta ao movimento, o comportamento e a adaptação ao exercício.

Uma pessoa que interpreta qualquer aumento de dor como sinal de dano pode começar a evitar determinados movimentos. Com o tempo, essa redução da atividade pode contribuir para perda de capacidade física, medo do movimento e maior dificuldade em retomar determinadas tarefas.

O que estudaram os investigadores?

Os investigadores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise para avaliar se intervenções de exercício poderiam reduzir a catastrofização da dor em pessoas com dor crónica não específica da coluna.

Foram pesquisadas sete bases de dados científicas, procurando ensaios clínicos aleatorizados e outras análises que avaliassem intervenções de exercício em pessoas com dor crónica da coluna e medidas de catastrofização.

No total, foram incluídos oito estudos, envolvendo 1271 participantes.

A maioria dos estudos envolveu pessoas com dor lombar crónica. Apenas um estudo analisou pessoas com dor cervical crónica.

Os investigadores avaliaram também a qualidade metodológica dos estudos e a certeza da evidência através de ferramentas utilizadas habitualmente em revisões sistemáticas.

O exercício reduziu a catastrofização?

A resposta mais correta é: provavelmente pode ajudar, mas ainda não temos evidência suficientemente forte para afirmar que o exercício produz este efeito de forma consistente em todas as pessoas.

Na análise principal das pessoas com dor lombar crónica, o exercício não demonstrou uma vantagem estatisticamente significativa relativamente aos grupos de controlo nos períodos de curto prazo, inferiores a três meses, nem no acompanhamento intermédio, entre três e seis meses.

Os resultados apresentaram também uma heterogeneidade elevada. Isto significa que os estudos não encontraram exatamente os mesmos resultados e que existiram diferenças importantes entre as intervenções e as populações estudadas.

Mas existe um resultado interessante

Os investigadores realizaram posteriormente uma análise exploratória, retirando um estudo que utilizava exercício de controlo motor e que apresentava características diferentes das restantes intervenções.

Nessa análise, os resultados passaram a favorecer o exercício tanto no curto como no médio prazo.

No curto prazo, o efeito estimado foi de aproximadamente SMD -0,49. No período intermédio, o efeito foi de aproximadamente SMD -0,67.

Estes resultados são interessantes, mas devem ser interpretados com prudência porque esta foi uma análise pós-hoc e não o resultado principal inicialmente definido.

E na dor cervical?

Para a dor cervical crónica, existiu evidência de baixa certeza de que exercícios de fortalecimento dos músculos cervicais e escapulares podem contribuir para reduzir a catastrofização.

O problema é que existia apenas um estudo nesta população, pelo que não podemos generalizar facilmente o resultado para todas as pessoas com dor cervical.

Serão necessários estudos maiores e metodologicamente mais robustos para perceber se este efeito se mantém.

O que significa isto na prática?

Na minha perspetiva, uma das mensagens mais interessantes deste trabalho é que devemos evitar separar demasiado o físico do psicológico quando trabalhamos com dor crónica.

Isso não significa transformar uma sessão de treino numa sessão de psicoterapia.

Significa perceber que a experiência da pessoa influencia a forma como ela se movimenta.

Se alguém acredita que determinado movimento é perigoso, provavelmente irá executá-lo com maior tensão, evitá-lo ou interrompê-lo rapidamente quando surgir algum desconforto.

Uma abordagem progressiva pode ajudar a criar novas experiências de movimento.

A pessoa pode começar com uma tarefa relativamente simples, perceber que consegue realizá-la e, posteriormente, aumentar gradualmente a amplitude, carga, velocidade ou complexidade.

O objetivo não é obrigar alguém a ultrapassar a dor a qualquer preço. É permitir que volte a ganhar capacidade e confiança de forma progressiva.

Dor durante o exercício significa lesão?

Nem sempre.

Esta é uma das ideias que considero mais importantes na abordagem da dor persistente.

O aparecimento de algum desconforto durante uma tarefa não permite, por si só, concluir que existe uma lesão ou que o exercício está a provocar dano estrutural.

Ao mesmo tempo, também não devemos cair no extremo oposto e dizer que qualquer dor deve ser ignorada.

A resposta deve ser individualizada.

É necessário observar a intensidade dos sintomas, a evolução ao longo da sessão, a resposta nas horas seguintes, a função e o contexto clínico da pessoa.

Em determinadas situações, uma alteração da dor pode justificar investigação médica ou fisioterapêutica adicional.

O exercício pode ser uma ferramenta de exposição

Em algumas pessoas com dor crónica, o exercício pode funcionar como uma forma progressiva de exposição ao movimento.

Por exemplo, alguém que deixou de se baixar por receio de agravar a lombalgia pode começar por realizar uma pequena flexão da anca e do tronco, com uma tarefa simples e controlada.

Posteriormente, poderá aumentar gradualmente a amplitude ou introduzir carga.

O objetivo não é simplesmente fortalecer os músculos. É também recuperar capacidade funcional e permitir que a pessoa volte a realizar movimentos que anteriormente evitava.

Esta abordagem pode ser particularmente importante quando a dor já levou a uma redução significativa da atividade física.

Nem todos respondem da mesma maneira

É importante não transformar estes resultados numa receita universal.

O estudo encontrou diferenças consideráveis entre as investigações incluídas e a certeza global da evidência foi classificada como baixa ou muito baixa.

Além disso, “exercício” não representa uma intervenção única. Pode significar treino de força, exercício aeróbio, exercícios de controlo motor ou outras estratégias.

A dose, intensidade, frequência, progressão e relação entre o profissional e a pessoa também podem modificar a resposta.

Por isso, dizer simplesmente que “o exercício reduz a catastrofização” seria uma conclusão demasiado forte para a evidência atualmente disponível.

O papel do profissional

Quando acompanho alguém com dor persistente, não procuro apenas saber onde dói.

Também é importante perceber o que a pessoa deixou de fazer, quais os movimentos que evita, o que pensa que está a provocar a dor e quais são os seus objetivos.

Uma mesma alteração física pode ter consequências muito diferentes dependendo da pessoa.

Por isso, prefiro utilizar o exercício como uma ferramenta de recuperação de capacidade, adaptando a dificuldade ao estado do dia e à resposta individual.

Em alguns casos será necessário começar muito abaixo daquilo que a pessoa gostaria de fazer. Noutros, será possível progredir rapidamente.

A progressão deve ser suficientemente desafiante para produzir adaptação, mas suficientemente controlada para que a pessoa mantenha confiança no processo.

Conclusão

Esta nova revisão sistemática e meta-análise sugere que o exercício pode contribuir para reduzir a catastrofização da dor em pessoas com dor crónica não específica da coluna, mas a evidência atual ainda apresenta limitações importantes.

Nos resultados principais, não foi encontrada uma vantagem estatisticamente significativa do exercício relativamente aos grupos de controlo na dor lombar crónica. No entanto, uma análise exploratória encontrou efeitos favoráveis depois de excluir um estudo com características diferentes.

A mensagem que retiro é simples: o exercício continua a ser uma ferramenta importante na abordagem da dor crónica, não apenas pela sua capacidade de melhorar força, mobilidade e condição física, mas também porque pode ajudar a pessoa a recuperar confiança no movimento.

Contudo, a prescrição deve ser individualizada. Mais exercício não significa necessariamente melhor exercício, e a resposta à dor deve ser analisada dentro do contexto global de cada pessoa.

Posso ajudar

Posso ajudar a adaptar o exercício à dor, capacidade atual e objetivos, procurando recuperar movimento, força e confiança de forma progressiva, individualizada e segura.

Referências

  1. Yu CWG, Bhatia V, Chandel S, Falla D. Is Exercise Effective at Reducing Pain Catastrophizing in People with Chronic Non-Specific Spinal Pain? A Systematic Review and Meta-analysis.
  2. Exercício supervisionado ou não supervisionado: qual reduz mais a pressão arterial?
  3. Exercício e medicação para a hipertensão: o treino HIIT continua a funcionar?
  4. 14 fatores que podem aumentar o risco de demência — e como proteger o cérebro