É uma das ideias mais repetidas no mundo da nutrição e do treino: o corpo só consegue aproveitar 20 a 30 gramas de proteína por refeição e tudo o resto é desperdiçado.
Mas será que esta afirmação é verdadeira?
A ciência atual mostra que a resposta é não. O organismo aproveita praticamente toda a proteína que ingerimos. O que muda é a forma como essa proteína é utilizada.
O corpo absorve toda a proteína?
Sim.
A proteína é digerida no estômago e no intestino delgado, sendo decomposta em aminoácidos, que são absorvidos para a corrente sanguínea.
Em indivíduos saudáveis, a absorção da proteína é extremamente eficiente. Por isso, uma refeição com 50, 70 ou até 100 gramas de proteína não é eliminada nem desperdiçada.
A verdadeira questão é outra: quanta dessa proteína é utilizada para estimular diretamente a construção de músculo?
O limite da síntese muscular
Após uma refeição rica em proteína, ocorre um aumento da síntese de proteína muscular, o processo responsável pela reparação e crescimento das fibras musculares.
Durante muitos anos, acreditou-se que cerca de 20 gramas de proteína eram suficientes para maximizar este processo.
Hoje sabemos que esse valor depende de vários fatores, como:
- idade;
- peso corporal;
- quantidade de massa muscular;
- intensidade do treino;
- tipo de proteína ingerida;
- objetivo da pessoa.
Na maioria dos adultos, uma dose entre 20 e 40 gramas de proteína de elevada qualidade é suficiente para maximizar a resposta imediata da síntese muscular.
No entanto, isso não significa que a proteína acima desse valor seja desperdiçada.
O que acontece ao restante?
Os aminoácidos excedentes podem desempenhar diversas funções importantes no organismo.
Entre elas:
- produção de enzimas;
- síntese de hormonas;
- formação de anticorpos;
- reparação de pele, tendões e órgãos;
- manutenção de diversos tecidos;
- produção de energia quando necessário.
Assim, o organismo continua a utilizar essa proteína, mesmo que nem toda seja direcionada para aumentar a massa muscular naquele momento.
Estudos recentes mudaram a perspetiva
Nos últimos anos surgiram estudos que desafiaram o conceito clássico de um limite rígido de proteína por refeição.
Uma investigação publicada em 2023 comparou a ingestão de 25 gramas com 100 gramas de proteína após treino de força.
Os investigadores verificaram que a refeição com 100 gramas prolongou a síntese de proteína muscular durante mais tempo, sugerindo que refeições maiores podem continuar a beneficiar a recuperação muscular, sobretudo após treinos exigentes.
Embora sejam necessários mais estudos, estes resultados mostram que o organismo é mais flexível do que se pensava.
Quando faz sentido consumir mais de 50 g de proteína?
Existem várias situações em que uma refeição rica em proteína pode ser uma boa estratégia.
Por exemplo:
- pessoas que fazem jejum intermitente e realizam apenas duas refeições por dia;
- atletas com elevadas necessidades energéticas;
- indivíduos com maior massa muscular;
- idosos, que apresentam resistência anabólica;
- pessoas em fase de perda de gordura, para ajudar a preservar a massa muscular;
- após sessões de treino particularmente longas ou intensas.
Nestes casos, consumir 50 ou 60 gramas de proteína numa refeição pode ser perfeitamente adequado.
O que continua a ser mais importante?
Apesar destas descobertas, o fator que mais influencia o aumento da massa muscular continua a ser:
- a ingestão total de proteína ao longo do dia;
- um programa de treino de força com progressão;
- uma recuperação adequada;
- sono de qualidade;
- consistência ao longo dos meses.
A distribuição da proteína pelas refeições pode otimizar os resultados, mas representa apenas uma parte da estratégia.
Então devo comer 60 g de proteína em todas as refeições?
Não necessariamente.
Para muitas pessoas, distribuir a ingestão de proteína por 3 a 5 refeições continua a ser uma excelente abordagem.
No entanto, se por questões de horário ou preferência fizer apenas duas refeições diárias, ingerir mais de 50 gramas de proteína em cada uma delas não é um desperdício.
O importante é atingir a quantidade diária recomendada.
Conclusão
A ideia de que tudo o que ultrapassa 20 ou 30 gramas de proteína numa refeição é desperdiçado não é suportada pela evidência científica atual.
O organismo absorve praticamente toda a proteína ingerida e utiliza os aminoácidos em múltiplos processos essenciais.
Embora exista um limite para a estimulação máxima da síntese muscular numa determinada refeição, consumir mais de 50 gramas de proteína pode fazer sentido em várias situações e continua a contribuir para a recuperação e manutenção do organismo.
Mais do que preocupar-se com um número mágico por refeição, concentre-se em manter uma ingestão adequada de proteína ao longo do dia, associada a treino de força regular e um estilo de vida saudável.
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Nota: Este artigo tem caráter informativo e não substitui o aconselhamento individualizado por um médico ou nutricionista.
Referências científicas
- Trommelen J, et al. No Practical Limit to the Anabolic Response to Feeding? Cell Reports Medicine. 2023. https://www.cell.com/cell-reports-medicine/fulltext/S2666-3791(23)00422-7
- Schoenfeld BJ, Aragon AA. How much protein can the body use in a single meal for muscle-building? Implications for daily protein distribution. Journal of the International Society of Sports Nutrition. 2018. https://jissn.biomedcentral.com/articles/10.1186/s12970-018-0215-1
- Morton RW, et al. A Systematic Review, Meta-analysis and Meta-regression of Protein Supplementation on Resistance Training-Induced Gains in Muscle Mass and Strength. British Journal of Sports Medicine. https://bjsm.bmj.com/content/52/6/376
- Phillips SM, Van Loon LJC. Dietary Protein for Athletes: From Requirements to Optimum Adaptation. Journal of Sports Sciences. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22150425/