Um treino individualizado não começa necessariamente com o primeiro exercício. Para mim, começa alguns minutos antes, quando observo a pessoa que chegou à sessão e procuro perceber como ela está naquele dia.
Esta avaliação não substitui uma avaliação física, clínica ou funcional quando esta é necessária. É outra coisa: uma leitura momentânea do estado da pessoa, realizada antes e durante os primeiros minutos do treino, que permite ajustar a sessão às condições reais daquele dia.
A mesma pessoa pode chegar ao treino com o mesmo objetivo de há uma semana, mas num estado completamente diferente. Pode ter dormido bem ou mal, estar motivada ou sem vontade, sentir-se forte ou cansada, estar concentrada ou ter a cabeça ocupada com problemas pessoais. O programa pode ser o mesmo no papel, mas a sessão não tem necessariamente de ser igual.
O treino começa antes do exercício
Quando uma pessoa entra numa sessão de treino, existe informação que não aparece numa folha de programação.
A forma como caminha, a postura, a expressão facial, a respiração, a velocidade dos movimentos, a disposição para falar e até a forma como responde às primeiras perguntas podem fornecer informação importante sobre o seu estado naquele momento.
Por isso, os primeiros minutos podem funcionar como uma pequena avaliação do dia.
Não se trata de tentar diagnosticar a pessoa através da linguagem corporal. Trata-se de observar, ouvir e comparar aquilo que está a acontecer naquele momento com aquilo que é habitual naquela pessoa.
Uma sessão individual permite precisamente esta vantagem: conhecer progressivamente a pessoa e reconhecer alterações relativamente ao seu comportamento habitual.
Os primeiros minutos: ouvir antes de intervir
Antes de começar propriamente o treino, procuro dar espaço para a pessoa falar.
Por vezes são apenas dois ou três minutos. Noutras situações, a pessoa quer falar mais. E essa conversa pode fornecer informação que influencia toda a sessão.
Como dormiu? Como se sente? Está cansada? Tem alguma dor? Como foi o dia? Está com vontade de treinar? Sente-se com energia? Existe alguma coisa que esteja particularmente presente na sua cabeça?
Não é necessário transformar esta conversa num interrogatório. Muitas vezes, ouvir é mais importante do que perguntar.
Quando a pessoa sente que tem espaço para comunicar, torna-se mais fácil perceber como está naquele momento. E isso pode ajudar a tomar decisões sobre o treino.
A linguagem corporal também comunica
Enquanto a pessoa fala, existe outra fonte de informação: a observação.
Postura, respiração, velocidade dos movimentos, contacto visual, expressão facial e nível geral de energia podem complementar aquilo que a pessoa verbaliza.
Uma pessoa pode dizer que está bem e, simultaneamente, apresentar uma energia muito diferente daquela que normalmente demonstra. Isso não significa que exista necessariamente um problema. Pode simplesmente significar que aquele dia é diferente.
É precisamente essa diferença que interessa identificar.
O objetivo não é interpretar excessivamente cada gesto. É construir uma percepção global através da combinação entre o que a pessoa diz, aquilo que observo e aquilo que acontece quando começa a mover-se.
Motivação não é igual todos os dias
Um dos princípios que considero mais importantes no treino individual é aceitar que a motivação não é constante.
Há dias em que uma pessoa chega ao treino com vontade de trabalhar intensamente. Está concentrada, energética e preparada para um desafio.
Há outros dias em que a pessoa aparece porque sabe que deveria treinar, mas preferia estar a fazer outra coisa. Pode estar cansada, preocupada ou simplesmente sem disposição.
Isso não significa necessariamente que o treino tenha de ser cancelado.
Significa que o treino pode precisar de ser adaptado.
O objetivo continua presente. O que pode mudar é a estratégia utilizada para chegar até ele naquele dia.
Adaptar o treino sem perder o objetivo
Adaptar uma sessão não significa abandonar o planeamento.
O objetivo de treino continua a ser uma referência fundamental. O que muda pode ser a intensidade, o volume, a escolha dos exercícios, o número de séries, o ritmo da sessão ou a exigência colocada em determinados momentos.
Se uma pessoa chega com muita energia, pode existir margem para uma sessão mais exigente. Se chega cansada ou pouco concentrada, pode fazer sentido reduzir a exigência e procurar uma sessão produtiva sem ultrapassar aquilo que naquele momento é razoável.
Da mesma forma, se surge uma dor ou uma alteração relativamente ao estado habitual, determinados exercícios podem deixar de ser prioritários naquele dia.
Não significa necessariamente eliminar tudo aquilo que é difícil. Significa distinguir entre o que é essencial para o objetivo e aquilo que pode ser temporariamente substituído ou adiado.
Nem todos os exercícios têm a mesma importância
Uma das consequências desta abordagem é reconhecer que nem todos os exercícios têm exatamente o mesmo valor dentro de um programa.
Alguns movimentos podem ser fundamentais para determinado objetivo. Outros podem desempenhar uma função complementar e ser substituídos quando as circunstâncias o justificam.
Esta distinção permite maior flexibilidade.
Se determinado exercício deixar de ser adequado naquele dia por causa de uma dor ou de uma limitação, não é necessário interpretar isso como um fracasso do programa. Pode simplesmente existir outra forma de trabalhar uma determinada capacidade.
A programação deixa, assim, de ser uma sequência rígida de exercícios que tem obrigatoriamente de ser cumprida, independentemente da pessoa que está à nossa frente.
O treino como diálogo
Um treino individualizado é também uma espécie de diálogo.
A pessoa fornece informação através daquilo que diz, da forma como se movimenta e da resposta aos exercícios. O treinador observa essa informação e ajusta a sessão. Depois, a própria resposta ao treino fornece nova informação.
É um processo contínuo.
Por isso, a avaliação não termina depois dos primeiros minutos. A observação continua durante toda a sessão.
Um exercício que parecia adequado pode revelar-se menos apropriado quando começa a ser executado. Da mesma forma, uma pessoa que inicialmente parecia cansada pode ganhar energia depois do aquecimento e apresentar uma resposta completamente diferente.
O papel da experiência do Personal Trainer
Esta capacidade de adaptação desenvolve-se também através da experiência.
Depois de muitos anos a trabalhar com pessoas diferentes, torna-se possível reconhecer padrões individuais. Cada pessoa tem a sua forma habitual de se movimentar, comunicar, treinar e reagir ao esforço.
Conhecer essa referência permite perceber melhor quando existe uma alteração significativa.
É por isso que considero que a experiência profissional não consiste apenas em conhecer mais exercícios. Consiste também em aprender a observar melhor a pessoa que executa esses exercícios.
Individualizar não é improvisar
Existe uma diferença importante entre adaptar um treino e improvisá-lo.
Improvisar seria não existir uma orientação clara. Individualizar significa ter um objetivo, conhecer o caminho previsto e possuir capacidade para alterar esse caminho quando as condições da pessoa o justificam.
O planeamento continua a existir. A diferença está em não colocar o planeamento acima da pessoa.
Um programa de treino deve servir a pessoa que o executa.
Uma sessão pode mudar sem perder o sentido
Esta abordagem permite compreender uma ideia simples: um bom treino não é necessariamente aquele que segue exatamente o plano original.
Por vezes, o melhor treino é aquele em que conseguimos perceber que o plano precisa de ser alterado e fazemos essa alteração no momento certo.
O objetivo não é procurar sempre a maior intensidade possível. É encontrar a dose de estímulo adequada às circunstâncias, mantendo a consistência necessária para produzir evolução ao longo do tempo.
A importância de estar presente
Para que esta abordagem funcione, é necessário estar verdadeiramente presente durante a sessão.
Não basta entregar um plano e contar repetições. É necessário observar, ouvir, questionar quando necessário e interpretar a resposta da pessoa ao exercício.
É precisamente aqui que o treino personalizado pode diferenciar-se de uma prescrição genérica.
O exercício é importante. A programação é importante. A progressão é importante. Mas existe uma variável que muda constantemente: a pessoa que está a treinar naquele dia.
Posso ajudar
Posso ajudar a adaptar cada sessão ao estado, experiência, objetivos e resposta individual, mantendo uma orientação clara para a evolução sem transformar o treino num processo rígido.
Conclusão
A avaliação do dia é uma parte simples, mas importante, de uma abordagem verdadeiramente individualizada ao treino.
Os primeiros minutos permitem ouvir, observar e perceber como a pessoa chega à sessão. A partir daí, intensidade, volume, exercícios e exigência podem ser ajustados sem perder de vista o objetivo definido.
Para mim, individualizar o treino significa precisamente isto: não treinar apenas o programa, mas treinar a pessoa que está à nossa frente.
O plano estabelece uma direção. A observação permite decidir como percorrer o caminho naquele dia.