Durante muitos anos, quando alguém queria perder peso, a pergunta era relativamente simples: qual é a melhor dieta?
Hoje, a pergunta começa a mudar.
Será que existe uma dieta que seja melhor para uma determinada pessoa tendo em conta os seus genes, o seu metabolismo e a forma como o organismo responde aos alimentos?
Esta é uma das questões estudadas pela nutrigenética, uma área da ciência que procura compreender de que forma as diferenças genéticas entre pessoas podem influenciar a resposta à alimentação e às intervenções relacionadas com o estilo de vida.
Uma nova revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 procurou perceber se aconselhamento nutricional e de estilo de vida baseado em informação genética consegue produzir melhores resultados antropométricos do que o aconselhamento convencional.
Os resultados são interessantes, mas também mostram que ainda estamos longe de conseguir dizer a uma pessoa, apenas através de um teste genético, qual é a dieta perfeita para ela.
O que é a nutrigenética?
A nutrigenética procura estudar de que forma as diferenças existentes nos nossos genes podem influenciar a resposta individual aos alimentos e aos padrões alimentares.
É importante distinguir este conceito de nutrigenómica.
A nutrigenética preocupa-se sobretudo com a forma como as diferenças genéticas entre indivíduos podem modificar a resposta à alimentação. A nutrigenómica tem um âmbito mais amplo e procura estudar a interação entre nutrientes, alimentação e expressão genética.
Na prática, ambas fazem parte de uma área mais abrangente que procura caminhar para uma nutrição de precisão.
Em vez de assumir que uma determinada dieta funciona da mesma maneira para toda a gente, procura-se perceber se características individuais podem ajudar a escolher uma estratégia mais adequada.
O estudo analisou oito estudos clínicos
Os investigadores fizeram uma pesquisa sistemática em várias bases de dados científicas, incluindo PubMed, Scopus, Web of Science e Google Scholar.
Foram identificados inicialmente 6175 registos.
Depois da aplicação dos critérios definidos pelos investigadores, apenas oito estudos foram considerados elegíveis para integrar a meta-análise.
Este número é importante.
Existe actualmente muito interesse na utilização da genética para personalizar a alimentação, mas a quantidade de ensaios clínicos que permite avaliar directamente se esta abordagem é superior ao aconselhamento convencional ainda é relativamente pequena.
Portanto, estamos perante uma área promissora, mas ainda em desenvolvimento.
A genética ajudou a perder mais peso?
Sim, mas a diferença foi pequena.
As pessoas que receberam aconselhamento nutricional e de estilo de vida baseado em informação genética apresentaram uma redução média de aproximadamente 0,52 kg de peso corporal relativamente aos grupos de controlo.
A diferença foi estatisticamente significativa, embora esteja muito próxima do limite de significância.
Quando analisamos estes valores, é importante não criar expectativas exageradas.
Uma diferença média de cerca de meio quilo não significa que uma pessoa que faça um teste genético vá perder automaticamente mais meio quilo.
É simplesmente a diferença média observada entre os grupos nos estudos incluídos na análise.
E o índice de massa corporal?
Também foi observada uma pequena melhoria no índice de massa corporal.
A redução média foi de aproximadamente 0,30 kg/m² relativamente ao aconselhamento convencional.
Neste caso, a diferença apresentou maior robustez estatística.
Apesar disso, é importante lembrar que o IMC é apenas uma medida indirecta.
Não nos diz quanto músculo uma pessoa tem, onde está localizada a gordura ou se uma alteração de peso corresponde principalmente a perda de gordura ou de massa muscular.
Para quem pratica exercício, esta distinção é particularmente importante.
Uma pessoa pode perder peso e simultaneamente perder músculo. Outra pode perder gordura e preservar ou aumentar a massa muscular, mantendo praticamente o mesmo peso.
Do ponto de vista da saúde e da função física, estas duas situações são bastante diferentes.
A percentagem de gordura corporal não mudou significativamente
Este é talvez um dos resultados que merece mais atenção.
Apesar das pequenas reduções no peso corporal e no IMC, a meta-análise não encontrou uma diferença estatisticamente significativa na percentagem de gordura corporal.
Ou seja, não podemos concluir que o aconselhamento baseado na genética tenha produzido uma redução clara da gordura corporal relativamente ao aconselhamento convencional.
Esta informação ajuda a colocar os resultados no devido contexto.
Se alguém apresenta uma redução de meio quilo na balança, isso não significa necessariamente que essa pessoa tenha perdido meio quilo de gordura.
É uma das razões pelas quais, no acompanhamento de alguém que pretende melhorar a composição corporal, prefiro olhar para vários indicadores em conjunto.
Peso, perímetro da cintura, força, capacidade física, composição corporal, hábitos alimentares e evolução ao longo do tempo podem fornecer uma imagem muito mais completa.
Então os testes genéticos funcionam?
A resposta mais correcta é: podem acrescentar alguma informação, mas ainda não sabemos exactamente quanto essa informação melhora os resultados a longo prazo.
Esta meta-análise encontrou uma pequena vantagem do aconselhamento baseado na genética relativamente ao aconselhamento convencional em peso corporal e IMC.
Mas isso não significa que os testes genéticos sejam actualmente capazes de determinar qual a dieta ideal para cada pessoa.
Essa conclusão seria muito mais forte do que aquilo que os dados permitem.
O problema da dieta “perfeita”
Existe uma ideia muito apelativa de que cada pessoa poderia fazer um teste, receber um relatório genético e descobrir exactamente:
- quantos hidratos de carbono deve comer;
- quanta gordura deve consumir;
- qual a quantidade ideal de proteína;
- quais os alimentos que deve evitar;
- qual a melhor dieta para perder gordura.
Seria fantástico se fosse assim tão simples.
Mas o nosso comportamento alimentar é muito mais complexo.
O peso corporal e a composição corporal resultam da interação entre genética, alimentação, actividade física, sono, stress, ambiente, comportamento, medicação, idade, composição corporal e muitos outros factores.
Os genes são apenas uma peça deste puzzle.
O nosso comportamento também importa
Imagine duas pessoas com uma variante genética semelhante.
Uma dorme sete a oito horas, faz treino de força, caminha diariamente e come predominantemente alimentos pouco processados.
A outra dorme cinco horas, passa grande parte do dia sentada, faz pouco exercício e consome regularmente alimentos altamente processados.
Mesmo que partilhem determinadas características genéticas, seria absurdo esperar que tivessem exactamente o mesmo risco metabólico ou a mesma composição corporal.
A genética influencia.
Mas o ambiente e os comportamentos também influenciam.
Personalização não significa necessariamente genética
Este é um ponto que considero particularmente importante.
Podemos personalizar uma estratégia sem realizar qualquer teste genético.
Quando avalio uma pessoa, existem muitas informações que podem ser extremamente úteis:
- idade;
- experiência de exercício;
- força muscular;
- nível de actividade física;
- horários de trabalho;
- qualidade do sono;
- hábitos alimentares;
- preferências alimentares;
- objectivos;
- limitações físicas;
- histórico de peso;
- capacidade de manter determinado comportamento.
Tudo isto pode ajudar a construir uma estratégia muito mais individualizada.
Uma dieta teoricamente perfeita que a pessoa não consegue cumprir durante seis meses pode ser muito menos útil do que uma estratégia ligeiramente menos optimizada, mas que consegue manter durante anos.
A adesão pode ser mais importante do que a genética
Esta é uma das questões que considero mais importantes quando falamos de perda de peso.
Não basta saber qual a intervenção que funciona melhor em condições ideais.
Precisamos de saber se a pessoa consegue viver com ela.
Se uma estratégia alimentar exige pesar todos os alimentos, eliminar dezenas de produtos, fazer refeições em horários impossíveis ou deixar de participar em refeições familiares, a sua sustentabilidade pode ser muito reduzida.
Uma estratégia individualizada deve considerar não apenas a fisiologia, mas também a vida real.
Onde pode a genética tornar-se realmente útil?
É possível que o futuro da nutrição personalizada passe precisamente por combinar diferentes tipos de informação.
Em vez de olhar apenas para os genes, poderemos combinar:
- informação genética;
- composição corporal;
- hábitos alimentares;
- actividade física;
- qualidade do sono;
- marcadores metabólicos;
- histórico clínico;
- resposta individual a diferentes intervenções.
Com o desenvolvimento da tecnologia e de bases de dados maiores, esta abordagem poderá permitir uma personalização cada vez mais precisa.
Mas ainda precisamos de ensaios clínicos maiores e mais bem desenhados para perceber se esta informação produz benefícios clinicamente relevantes.
Uma das limitações do estudo é precisamente a qualidade da evidência
Os autores identificaram limitações importantes nos estudos incluídos.
Apenas uma das oito investigações apresentou baixo risco de viés segundo a avaliação realizada.
Além disso, os estudos apresentavam diferenças importantes entre si.
Foram utilizadas diferentes características genéticas, diferentes estratégias alimentares e diferentes populações.
Esta heterogeneidade dificulta a definição de uma conclusão simples.
Não podemos dizer que existe actualmente um protocolo genético universal que produza melhores resultados para todas as pessoas.
O que podemos fazer enquanto a ciência avança?
Enquanto a nutrição de precisão continua a desenvolver-se, existem estratégias muito menos sofisticadas que continuam a ter uma enorme importância.
Uma alimentação baseada predominantemente em alimentos pouco processados.
Uma ingestão adequada de proteína.
Legumes, fruta e leguminosas.
Gorduras de boa qualidade.
Uma quantidade adequada de energia para o objectivo pretendido.
Actividade física regular.
Treino de força para preservar músculo e força.
Redução do tempo sedentário.
Sono adequado.
Nenhum destes factores se torna menos importante porque descobrimos uma variante genética.
E para quem quer perder peso?
Se o objectivo é perder gordura corporal, eu teria alguma cautela antes de investir demasiada esperança num teste genético.
A evidência desta meta-análise sugere uma pequena vantagem média do aconselhamento personalizado baseado na genética sobre o aconselhamento convencional, mas a diferença encontrada no peso foi de apenas cerca de meio quilo e não houve uma redução significativa na percentagem de gordura corporal.
Isso não significa que a abordagem seja inútil.
Significa que o efeito observado até agora parece ser modesto e que ainda precisamos de investigação mais robusta.
Para quem pretende perder gordura mantendo músculo, a combinação de alimentação adequada com exercício, particularmente treino de força, continua a ser uma estratégia muito mais estabelecida.
O futuro poderá ser mais personalizado
Acredito que esta seja uma das partes mais interessantes desta investigação.
Talvez no futuro deixemos de discutir qual é “a melhor dieta” como se existisse uma única resposta para toda a população.
Poderemos passar a perguntar:
qual é a melhor estratégia para esta pessoa?
Essa estratégia poderá ser determinada pela combinação de genética, metabolismo, composição corporal, actividade física, preferências, rotina, sono e capacidade de adesão.
Mas ainda não chegámos lá.
A ciência está a construir esse caminho.
O que retiro deste estudo?
Para mim, a principal mensagem é bastante equilibrada.
A genética pode vir a ajudar-nos a personalizar melhor a alimentação e o estilo de vida, e esta nova meta-análise encontrou pequenas melhorias no peso corporal e no IMC quando o aconselhamento foi baseado em informação genética.
Mas os resultados não mostram que os testes genéticos consigam actualmente indicar qual é a dieta perfeita para cada pessoa.
A redução da percentagem de gordura corporal não foi significativa e apenas oito estudos foram incluídos na análise.
Por isso, ainda considero mais importante olhar para a pessoa como um todo.
Os genes podem fazer parte da equação.
Mas aquilo que fazemos diariamente continua a ter um peso enorme.
Personalizar não significa necessariamente complicar.
Muitas vezes, personalizar significa simplesmente adaptar uma boa estratégia à pessoa que temos à nossa frente.
Posso ajudar
Posso ajudá-lo a individualizar treino e hábitos de actividade física, considerando objetivos, condição física, limitações, rotina e resposta ao exercício.
Referências
- Sharifi-Zahabi E, Pashaei MR, Hajizadeh-Sharafabad F. Effect of Genetics-Based Personalized Nutrition and Lifestyle Advice vs Conventional Advice on Anthropometric Outcomes: A Systematic Review and Meta-Analysis. Nutrition Reviews. 2026.
- Sharifi-Zahabi E, Pashaei MR, Hajizadeh-Sharafabad F. Effect of Genetics-Based Personalized Nutrition and Lifestyle Advice vs Conventional Advice on Anthropometric Outcomes.