“Rico em proteína”, “sem açúcar adicionado”, “natural”, “baixo em gordura” ou “com vitaminas e minerais”. Estas expressões aparecem frequentemente nas embalagens dos alimentos e podem influenciar as nossas escolhas no supermercado. Mas será que um produto com alegações de saúde é necessariamente mais saudável do que outro sem essas indicações?
Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista científica Nature Food analisou 145 609 produtos alimentares e bebidas lançados nos Estados Unidos entre 2015 e 2024. Os investigadores concluíram que as alegações presentes nas embalagens nem sempre correspondem a uma melhor qualidade nutricional global.
Esta investigação levanta uma questão importante: estamos a avaliar aquilo que realmente comemos ou estamos a deixar que as mensagens da embalagem decidam por nós?
O que analisou o estudo?
A investigação, intitulada On-package claims are imperfect signals of overall nutritional quality, foi publicada na Nature Food a 24 de setembro de 2026.
Os investigadores analisaram dados de produtos alimentares e bebidas comercializados nos Estados Unidos, procurando perceber se as alegações presentes nas embalagens estavam associadas a uma melhor qualidade nutricional global.
Foram estudadas diferentes categorias de alegações, incluindo a redução de determinados nutrientes, a presença de componentes considerados benéficos, as características naturais dos produtos e as referências a benefícios funcionais ou fisiológicos.
Para avaliar a qualidade nutricional, os investigadores utilizaram um modelo de perfil nutricional desenvolvido no Reino Unido. Este sistema considera vários componentes da composição dos alimentos, incluindo nutrientes cujo consumo deve ser limitado e componentes cuja ingestão é geralmente incentivada.
Esta abordagem é particularmente relevante porque permite ir além de uma característica isolada, como o teor de açúcar ou a quantidade de proteína, e avaliar o perfil nutricional do produto de uma forma mais abrangente.
Um alimento pode ter uma característica positiva e continuar a ser pouco saudável
Uma das principais conclusões do estudo foi que os produtos com alegações apresentavam, em média, perfis nutricionais mais favoráveis em algumas comparações. Contudo, esta relação não era consistente entre os diferentes tipos de alegações e categorias de produtos.
Além disso, mesmo quando um produto com determinada alegação apresentava uma pontuação nutricional mais favorável do que produtos sem essa alegação, muitos continuavam a ultrapassar os limites definidos pelo modelo para serem classificados como menos saudáveis.
Por outras palavras, melhorar uma característica nutricional não significa necessariamente melhorar suficientemente o produto como um todo.
Imaginemos um alimento com menos açúcar do que a sua versão original. Essa alteração pode ser positiva, dependendo da composição final e do contexto alimentar. No entanto, o produto pode continuar a apresentar quantidades elevadas de sal, gorduras saturadas ou outros componentes que devem ser considerados na avaliação global.
O mesmo raciocínio aplica-se a produtos enriquecidos com vitaminas, minerais ou proteína. A presença de um nutriente interessante não garante, por si só, uma composição nutricional equilibrada.
O efeito de halo da saúde: porque confiamos nas embalagens
Existe um fenómeno psicológico conhecido como efeito de halo da saúde. Acontece quando uma característica positiva de um produto influencia a nossa perceção sobre outras características que não foram efetivamente avaliadas.
Por exemplo, ao encontrar a palavra “natural” numa embalagem, podemos assumir que o alimento é globalmente saudável. Da mesma forma, a indicação “rico em proteína” pode levar-nos a considerar um produto uma boa escolha, mesmo sem verificarmos a quantidade de açúcar, sal, gordura saturada ou energia que fornece.
Este processo não significa que os consumidores sejam pouco informados. As embalagens são concebidas para comunicar rapidamente determinadas características e captar a atenção num ambiente em que existem muitas opções concorrentes.
O problema surge quando uma informação verdadeira, mas limitada, é interpretada como uma garantia de qualidade nutricional global.
“Sem açúcar” ou “baixo em calorias”: devemos confiar?
As alegações relacionadas com a redução de açúcar, calorias, sódio ou gorduras saturadas foram algumas das categorias analisadas. Os resultados mostraram que a relação entre estas mensagens e a qualidade nutricional global variava consoante o tipo de alegação e a categoria do produto.
Algumas bebidas com alegações de redução de calorias, ausência de açúcar ou baixo teor de sódio apresentavam perfis nutricionais menos favoráveis do que seria possível esperar a partir da mensagem destacada na embalagem.
Também foram identificadas situações em que a redução de determinado componente podia coexistir com alterações menos favoráveis noutros elementos da composição nutricional.
É importante interpretar estes resultados com rigor. O estudo não demonstra que todos os produtos sem açúcar ou com poucas calorias sejam pouco saudáveis. Demonstra, sim, que estas características isoladas não são indicadores suficientemente fiáveis para avaliar toda a qualidade nutricional.
Por isso, antes de escolher um produto, vale a pena verificar a lista de ingredientes, a tabela nutricional e o tamanho da porção que efetivamente consumimos.
Produtos enriquecidos com vitaminas, fibra ou proteína
As alegações positivas também merecem atenção. Um produto pode apresentar uma quantidade interessante de fibra, proteína ou determinadas vitaminas, mas isso não significa que todos os restantes componentes sejam igualmente favoráveis.
O estudo encontrou diferenças entre categorias de produtos e tipos de alegações. Algumas mensagens estavam associadas a perfis nutricionais mais favoráveis, enquanto outras apresentavam resultados inconsistentes ou discrepâncias entre a característica anunciada e a qualidade global.
Na prática, faz sentido avaliar a quantidade efetiva do nutriente, a composição total do alimento e o papel que este desempenha na alimentação.
Por exemplo, obter fibra através de leguminosas, fruta, hortícolas e cereais integrais permite integrar esse nutriente numa variedade de alimentos que fornecem também outros componentes importantes. Um produto industrializado enriquecido com fibra pode igualmente ter utilidade, mas não deve ser automaticamente considerado equivalente a esses alimentos.
O contexto é fundamental. A mesma característica nutricional pode ter significados diferentes consoante a composição do produto e aquilo que substitui na alimentação habitual.
O que significa um alimento ser nutricionalmente saudável?
A qualidade nutricional é multidimensional. Não depende apenas de uma vitamina, de um mineral, do teor de gordura ou da quantidade de açúcar.
É necessário considerar a combinação dos nutrientes, a densidade energética, a quantidade consumida, o grau de processamento quando relevante e o lugar do alimento no padrão alimentar global.
Também importa perceber o que acontece quando um alimento é substituído por outro. Trocar um produto rico em açúcar adicionado por uma alternativa com uma composição mais favorável pode ser útil. Acrescentar essa alternativa à alimentação sem reduzir o consumo anterior pode produzir um resultado diferente.
Esta distinção ajuda a compreender porque é que não devemos avaliar um alimento apenas pela presença de uma alegação comercial. O benefício depende também da forma como o integramos na alimentação.
Como escolher melhor no supermercado
Não é necessário analisar exaustivamente todos os produtos que compramos. Algumas estratégias simples podem ajudar a tomar decisões mais informadas.
- Olhar para além da frente da embalagem. As mensagens em destaque não substituem a leitura da tabela nutricional e da lista de ingredientes.
- Comparar produtos semelhantes. Verifique as quantidades de açúcar, sal, gordura saturada, fibra e proteína por 100 g ou 100 ml.
- Considerar a porção real. Um valor nutricional aparentemente reduzido pode corresponder a uma porção muito pequena.
- Não confundir um nutriente com a qualidade global. Ser rico em proteína ou conter vitaminas não garante que um produto tenha um perfil nutricional favorável.
- Privilegiar uma alimentação variada. Leguminosas, hortícolas, fruta, cereais integrais, frutos secos e outras fontes alimentares pouco processadas podem constituir uma boa base para muitas pessoas.
- Evitar decisões baseadas numa única palavra. Termos como “natural”, “funcional” ou “fit” não substituem uma avaliação da composição do alimento.
Quais são as limitações desta investigação?
Embora o número de produtos analisados seja elevado, o estudo tem limitações que importa conhecer.
Em primeiro lugar, os dados dizem respeito a produtos lançados nos Estados Unidos entre 2015 e 2024. Os resultados não podem ser automaticamente generalizados para todos os alimentos comercializados em Portugal ou noutros países, onde a legislação, as categorias de produtos e os hábitos de consumo podem ser diferentes.
Em segundo lugar, a investigação analisou a relação entre alegações e perfis nutricionais. Não foi um ensaio clínico destinado a demonstrar que comprar produtos com determinadas mensagens provoca doenças ou alterações específicas na saúde dos consumidores.
Por fim, um modelo de perfil nutricional é uma ferramenta de avaliação, não uma descrição completa de todas as necessidades individuais. A qualidade da alimentação depende igualmente das quantidades consumidas, da frequência, das necessidades energéticas e do contexto clínico.
Assim, a principal conclusão não é que as alegações nas embalagens sejam sempre falsas ou inúteis. É que devem ser interpretadas como informação parcial, e não como uma garantia de que um produto é saudável.
O que retiro deste estudo?
Na minha experiência, é fácil complicar demasiado a alimentação quando tentamos seguir todas as novidades e mensagens comerciais. Aqui prefiro uma abordagem mais simples: avaliar o conjunto dos hábitos alimentares e não atribuir propriedades extraordinárias a um produto apenas porque a embalagem destaca uma característica positiva.
Um alimento pode ter lugar numa alimentação equilibrada sem ser perfeito. Da mesma forma, um produto com uma alegação nutricional interessante pode não ser a melhor escolha para todas as pessoas ou em todas as situações.
Para quem procura melhorar a saúde metabólica e cardiovascular, faz sentido dar prioridade à qualidade global da alimentação, à variedade e à consistência dos hábitos. A escolha de produtos específicos deve contribuir para esse objetivo, em vez de o substituir.
Posso ajudar
Ajudo pessoas a melhorar a condição física, adaptar o treino às suas capacidades e manter hábitos sustentáveis. A alimentação complementa estes objetivos, devendo respeitar as necessidades individuais e a evidência científica.
Conclusão
O estudo publicado na Nature Food reforça uma mensagem importante: as alegações presentes nas embalagens alimentares são indicadores imperfeitos da qualidade nutricional global.
Um produto com menos açúcar, mais proteína ou vitaminas adicionadas pode apresentar uma característica positiva sem ser necessariamente uma escolha nutricionalmente superior em todos os aspetos.
Em vez de confiar apenas nas palavras destacadas na embalagem, vale a pena analisar a composição, comparar alternativas e considerar o papel do produto na alimentação habitual.
No final, uma alimentação de boa qualidade não depende de encontrar produtos com as melhores promessas comerciais. Depende de escolhas consistentes, variadas e adequadas às necessidades de cada pessoa.
Referências
- Zhou P, Zheng Y, Kaiser HM, et al. On-package claims are imperfect signals of overall nutritional quality. Nature Food. 2026. https://www.nature.com/articles/s43016-026-01435-9
- Beltramo B. Food packaging claims need to be earned. Nature Food. 2026. https://www.nature.com/articles/s43016-026-01442-w
- US Food and Drug Administration. Food labeling: nutrient content claims; definition of term “healthy”. https://www.federalregister.gov/documents/2024/12/27/2024-29957/food-labeling-nutrient-content-claims-definition-of-term-healthy