Quando treinamos, nem sempre estamos nas mesmas condições.
Há dias em que chegamos ao treino descansados, concentrados e com energia. Noutros, já fizemos exercício, dormimos pior, trabalhámos durante muitas horas ou simplesmente acumulámos alguma fadiga.
Mas será que essa fadiga interfere com a nossa capacidade de aprender um movimento novo?
Esta é uma questão particularmente interessante porque aprender a executar um exercício não depende apenas da força muscular. Envolve também o sistema nervoso, a atenção, a coordenação, a percepção do movimento e a capacidade de adaptar a resposta motora.
Um estudo publicado em 2026 procurou perceber precisamente o que acontece quando uma pessoa pratica uma tarefa motora depois de realizar exercício cardiovascular suficientemente intenso para provocar fadiga física.
O que é aprendizagem motora?
A aprendizagem motora corresponde, de forma simplificada, à capacidade de adquirir ou aperfeiçoar uma competência através da prática.
Aprender a executar um agachamento com uma técnica diferente, melhorar a coordenação durante um exercício, aprender um gesto desportivo ou conseguir controlar melhor um movimento são exemplos de processos nos quais existe aprendizagem motora.
Uma característica importante é que aprender não significa simplesmente executar melhor naquele momento.
Podemos fazer um movimento melhor durante uma sessão porque estamos concentrados ou porque recebemos instruções. Isso não significa necessariamente que tenhamos aprendido.
Para falar verdadeiramente de aprendizagem, interessa saber se a melhoria permanece depois de algum tempo, mesmo quando deixamos de praticar.
Como foi realizado o estudo?
Participaram 60 adultos jovens saudáveis.
Os investigadores dividiram os participantes aleatoriamente em dois grupos.
Um grupo realizou exercício cardiovascular até à exaustão através de um teste progressivo de corrida com mudanças de direção. Depois desse esforço, realizou uma tarefa de aprendizagem motora.
O outro grupo realizou exercícios de alongamento antes da mesma tarefa motora.
A tarefa utilizada foi uma tarefa de acompanhamento visuomotor. Os participantes tinham de aprender a controlar um movimento de acordo com um estímulo visual.
Depois, os investigadores voltaram a avaliar os participantes em condições de repouso e também em situação de fadiga.
Desta forma, foi possível analisar não apenas se melhoravam durante a prática, mas também se essa aprendizagem permanecia posteriormente.
A fadiga prejudicou a aprendizagem?
A resposta encontrada foi surpreendente para quem espera uma relação simples entre fadiga e pior aprendizagem.
Os dois grupos melhoraram a execução da tarefa ao longo da prática.
Além disso, mantiveram os ganhos quando foram novamente avaliados.
Não foram encontradas diferenças fiáveis entre o grupo que praticou depois de exercício intenso e o grupo que praticou sem essa fadiga cardiovascular.
Ou seja, neste estudo, praticar uma tarefa motora depois de provocar fadiga física não parece ter prejudicado a aprendizagem motora.
Mas também não parece ter produzido uma vantagem.
Treinar fatigado torna-nos mais resistentes à fadiga?
Esta era outra hipótese interessante.
Poderíamos imaginar que se uma pessoa aprende um movimento enquanto está cansada, talvez desenvolva uma espécie de resistência que lhe permita manter melhor a capacidade motora quando voltar a estar fatigada.
Os resultados não apoiaram essa ideia.
O grupo que treinou depois de exercício cardiovascular intenso não apresentou uma melhoria clara da chamada resistência à fadiga relativamente ao grupo de controlo.
Portanto, pelo menos neste contexto, praticar movimentos em estado de fadiga não pareceu ensinar o organismo a resistir melhor à fadiga durante uma tarefa motora futura.
Mas então a fadiga não interessa?
Interessa, e muito.
O facto de este estudo não ter encontrado um prejuízo significativo na aprendizagem não significa que a fadiga seja irrelevante para o treino.
A fadiga pode alterar a velocidade de execução, a força disponível, a coordenação, a percepção do esforço e a qualidade técnica.
Também pode modificar a forma como uma pessoa escolhe e organiza os movimentos.
O que o estudo nos mostra é algo mais específico: dentro das condições testadas, a fadiga física provocada pelo exercício cardiovascular não impediu os participantes de aprender a tarefa motora.
Não devemos transformar esta conclusão numa regra universal para todos os tipos de movimento, todas as intensidades de fadiga ou todas as pessoas.
Aprender um movimento não é o mesmo que executá-lo cansado
Esta distinção é importante no treino.
Imagine que estamos a ensinar uma pessoa a executar um exercício novo.
Uma coisa é perguntar se ela consegue aprender o movimento depois de uma corrida intensa.
Outra é perguntar se consegue executá-lo com a mesma precisão, velocidade e controlo quando está muito cansada.
São perguntas diferentes.
É possível que a aprendizagem se mantenha, mas que a execução imediata seja menos eficiente devido à fadiga.
É precisamente por isso que, na prática, devemos distinguir a aquisição da competência da capacidade de a utilizar em diferentes estados físicos.
O contexto do treino também conta
Existe aqui uma aplicação interessante ao treino desportivo.
Num jogo de futebol, por exemplo, um atleta raramente executa todas as ações quando está completamente descansado.
Um sprint, uma mudança de direção, um passe ou um remate podem acontecer depois de vários minutos de esforço.
Em determinados momentos, pode fazer sentido treinar algumas competências em condições semelhantes às exigências da modalidade.
Mas isso não significa que devamos ensinar tudo em fadiga.
Quando estamos a aprender uma competência nova, muitas vezes queremos primeiro criar uma boa representação do movimento e conseguir executá-lo com qualidade.
Depois podemos aumentar progressivamente a complexidade, a velocidade, a pressão ou a fadiga.
Primeiro aprender, depois complicar?
Esta é uma das formas como interpreto estes resultados.
Se estou a ensinar um movimento completamente novo, prefiro inicialmente criar condições que permitam à pessoa perceber o que está a fazer.
Não quero necessariamente acrescentar fadiga, instabilidade, velocidade e complexidade ao mesmo tempo.
Depois de existir alguma competência, podemos começar a alterar o contexto.
Podemos aumentar a velocidade, introduzir decisões, reduzir o tempo disponível, acrescentar resistência ou realizar a tarefa depois de outro exercício.
O objetivo passa então a ser perceber se a pessoa consegue utilizar aquilo que aprendeu em condições menos previsíveis.
A fadiga pode ser uma variável de treino
Existe uma tendência para considerar a fadiga apenas como algo que devemos evitar.
Nem sempre penso assim.
A fadiga é uma variável que podemos gerir.
Se o objetivo é aprender uma técnica nova, podemos querer pouca fadiga para maximizar a qualidade da prática.
Se o objetivo é preparar um atleta para executar uma determinada ação durante a fase final de uma competição, pode fazer sentido introduzir fadiga de forma controlada.
São objetivos diferentes e, por isso, podem justificar estratégias diferentes.
O que acontece com pessoas mais velhas?
É importante não extrapolar diretamente estes resultados para adultos mais velhos.
Os participantes eram adultos jovens e saudáveis. Pessoas com maior idade, menor condição física ou determinadas limitações podem apresentar respostas diferentes à fadiga.
Também é possível que a dificuldade da tarefa motora, o tipo de exercício utilizado para provocar fadiga e o nível de experiência influenciem os resultados.
Por isso, este estudo é uma peça interessante do conhecimento, mas não uma receita de treino.
O que retiro deste estudo?
Para mim, a principal mensagem é que fadiga e aprendizagem motora não têm necessariamente uma relação simples.
Treinar depois de uma sessão cardiovascular exigente não impediu os participantes de aprender a tarefa utilizada no estudo.
Ao mesmo tempo, não houve evidência de que treinar fatigado produzisse uma maior resistência à fadiga.
Na prática, isto reforça a importância de saber qual é o objetivo de cada momento do treino.
Se quero ensinar uma competência nova, posso começar por criar condições que facilitem a aprendizagem. Se quero testar a capacidade de utilizar essa competência em condições semelhantes às de uma competição ou de uma situação real, posso posteriormente introduzir fadiga e maior complexidade.
O treino não precisa de ser sempre fácil, mas também não precisa de ser sempre difícil.
O desafio deve estar relacionado com aquilo que queremos melhorar.
E talvez seja esta uma das ideias mais importantes quando falamos de aprendizagem motora: não basta perguntar se a pessoa consegue fazer o movimento; precisamos de perceber em que condições consegue fazê-lo e se continua a consegui-lo quando essas condições mudam.
Posso ajudar?
Ajudo a desenvolver força, coordenação e controlo motor através de progressões ajustadas à capacidade, fadiga, experiência e objetivos de cada pessoa.