Treino de marcha e demência: juntar exercício físico a tarefas cognitivas pode trazer benefícios adicionais

Treino de marcha e demência: juntar exercício físico a tarefas cognitivas pode trazer benefícios adicionais October 19, 2026Leave a comment

O exercício físico é uma ferramenta importante para preservar a mobilidade, a autonomia e a qualidade de vida à medida que envelhecemos. Em pessoas com demência, o desafio é ainda maior: para além das alterações cognitivas, podem surgir dificuldades na marcha, no equilíbrio e na realização de tarefas do dia a dia.

Um estudo publicado em 2026 no Journal of Exercise Science & Fitness investigou se acrescentar marcha com tarefas cognitivas a um programa de exercício para pessoas mais velhas com demência poderia melhorar os resultados. Os investigadores observaram benefícios adicionais na função cognitiva e na velocidade da marcha, em comparação com o mesmo programa sem essa componente específica.

Os resultados são interessantes porque sugerem que não basta trabalhar a capacidade física de forma isolada. Em determinadas populações, poderá ser útil treinar também a capacidade de caminhar enquanto se presta atenção a outra tarefa.

O que é o treino de dupla tarefa?

Na vida quotidiana, raramente realizamos todos os movimentos com atenção exclusiva ao corpo. Caminhamos enquanto conversamos, procuramos um destino, respondemos a uma pergunta ou tentamos recordar o que precisamos de comprar. Estas situações exigem a coordenação entre processos cognitivos e motores.

O treino de dupla tarefa procura reproduzir esse tipo de exigência, combinando uma atividade motora, como caminhar, com uma tarefa cognitiva. Esta pode envolver, por exemplo, responder a perguntas simples, recordar palavras ou realizar uma tarefa mental adequada às capacidades da pessoa.

Em pessoas com demência, a capacidade de gerir duas tarefas em simultâneo pode estar comprometida. A atenção disponível é limitada e a introdução de uma exigência cognitiva pode interferir com a marcha. Por isso, treinar esta integração poderá ser relevante para situações reais, embora a melhoria num teste não garanta automaticamente uma redução das quedas ou uma maior independência em todas as atividades diárias.

Como foi realizado o estudo?

O ensaio clínico aleatorizado por centros incluiu 100 pessoas com 65 ou mais anos, com diagnóstico clínico de demência, recrutadas em 11 centros de apoio comunitário. Os participantes apresentavam comprometimento cognitivo ligeiro a moderado e conseguiam caminhar de forma independente ou com assistência mínima.

Os centros foram distribuídos por dois grupos. Ambos realizaram um programa baseado no Otago Exercise Program, três vezes por semana, durante 24 semanas. Este programa é conhecido pela sua utilização no trabalho da força, do equilíbrio e da mobilidade em adultos mais velhos.

A diferença estava na componente de marcha. O grupo experimental realizou mais 10 minutos de marcha com uma tarefa cognitiva em cada sessão. O grupo de controlo seguiu o programa com marcha convencional, sem essa componente adicional de dupla tarefa.

Os investigadores avaliaram os participantes no início, às 12 semanas e às 24 semanas. O objetivo principal foi comparar a evolução de uma pontuação cognitiva composta e da velocidade da marcha. Também foram analisados o equilíbrio estático, o equilíbrio dinâmico, a força dos extensores do joelho e o desempenho no teste de levantar e sentar cinco vezes consecutivas.

Melhorias na cognição e na velocidade da marcha

Os resultados mostraram diferenças significativas na evolução da função cognitiva e da velocidade da marcha entre os dois grupos. O grupo que realizou marcha com tarefas cognitivas apresentou melhorias superiores aos 12 e aos 24 semanas.

Este resultado sugere que a inclusão de uma tarefa cognitiva durante a marcha poderá acrescentar valor a um programa de exercício já estruturado. Em vez de trabalhar apenas a capacidade de caminhar, esta abordagem desafia simultaneamente os processos de atenção e de controlo necessários para gerir movimentos enquanto se processa outra informação.

A velocidade da marcha merece particular atenção. É uma medida simples, mas útil para acompanhar a capacidade funcional de pessoas mais velhas. Uma marcha mais lenta pode estar associada a maior vulnerabilidade física e a dificuldades de mobilidade. Ainda assim, é importante não interpretar uma melhoria neste indicador como prova direta de que o risco de queda diminuiu ou de que a pessoa passou a ser mais independente em todas as tarefas.

Também é necessário distinguir melhoria cognitiva de recuperação da demência. O estudo avaliou alterações no desempenho cognitivo ao longo da intervenção; não demonstra que o programa reverta a doença ou interrompa a sua progressão a longo prazo.

O treino de dupla tarefa melhora também a força e o equilíbrio?

A resposta é menos clara. Embora ambos os grupos tenham seguido o programa de exercício, não foram observadas diferenças significativas entre eles na evolução do equilíbrio estático, do equilíbrio dinâmico, da força dos extensores do joelho ou do teste de levantar e sentar cinco vezes.

Ou seja, a marcha com tarefa cognitiva não demonstrou um benefício adicional nestas medidas físicas específicas. Isto não significa que o exercício não tenha utilidade para a força ou para o equilíbrio. Significa apenas que, neste estudo, a introdução da dupla tarefa não produziu uma vantagem estatisticamente demonstrável sobre o programa de comparação nestes resultados.

Na prática, esta distinção é importante. Se o objetivo principal for melhorar a força das pernas, a capacidade de se levantar de uma cadeira ou o equilíbrio, essas capacidades devem continuar a ser treinadas diretamente. A dupla tarefa poderá complementar o programa, mas não deve substituir automaticamente os exercícios dirigidos às necessidades de cada pessoa.

Como aplicar estes resultados na prática?

Para profissionais que trabalham com adultos mais velhos, o estudo reforça a importância de adaptar o treino aos objetivos funcionais e às capacidades cognitivas de cada pessoa. No entanto, não justifica introduzir tarefas simultâneas complexas em todos os praticantes.

Uma abordagem prudente poderá começar com marcha num ambiente estável, com supervisão e sem obstáculos. Quando a pessoa demonstra segurança, pode ser introduzida uma tarefa cognitiva simples, ajustada à sua capacidade de compreensão e de resposta. A dificuldade deve aumentar gradualmente, evitando que a tarefa mental comprometa excessivamente a qualidade da marcha.

A segurança deve ter prioridade. É necessário considerar o historial de quedas, a capacidade de manter o equilíbrio, a utilização de auxiliares de marcha, a fadiga, a medicação e as restantes condições clínicas. Se a pessoa apresentar instabilidade ou dificuldade em caminhar enquanto responde a perguntas, será preferível reduzir a exigência ou separar temporariamente as tarefas.

Na minha experiência, o treino deve responder à pessoa que temos à nossa frente, e não apenas ao protocolo escrito. Em pessoas com demência, isso significa observar a atenção, a compreensão das instruções e a qualidade do movimento, ajustando a sessão sempre que necessário. A intervenção deve ser acompanhada por profissionais com formação adequada e articulada com a equipa clínica e os cuidadores.

Quais são as limitações do estudo?

Apesar dos resultados promissores, existem limitações a considerar. A amostra incluiu 100 participantes distribuídos por 11 centros, pelo que os resultados devem ser confirmados em estudos maiores e em populações mais diversificadas. A intervenção durou 24 semanas, não permitindo concluir se os benefícios se mantêm depois de terminar o programa.

Além disso, a intervenção experimental acrescentou 10 minutos de marcha com dupla tarefa por sessão. Assim, a comparação não permite separar completamente o efeito específico da componente cognitiva do possível efeito de realizar mais tempo de atividade. Seriam úteis estudos que controlassem de forma rigorosa o tempo total de exercício e avaliassem também resultados como quedas, participação nas atividades diárias e qualidade de vida.

Os resultados dizem respeito a pessoas com demência ligeira a moderada que conseguiam caminhar de forma independente ou com assistência mínima. Não devem ser automaticamente extrapolados para pessoas com demência avançada, mobilidade muito limitada ou condições clínicas que aumentem o risco durante a marcha.

Conclusão

Este ensaio clínico sugere que acrescentar 10 minutos de marcha com tarefas cognitivas a um programa Otago, realizado três vezes por semana durante 24 semanas, pode proporcionar melhorias adicionais na função cognitiva e na velocidade da marcha em pessoas mais velhas com demência.

Contudo, não foi demonstrada uma vantagem adicional nas medidas de equilíbrio, força dos extensores do joelho ou capacidade de levantar e sentar. A melhor interpretação não é que a dupla tarefa substitui o treino convencional, mas que poderá ser uma ferramenta complementar quando existe indicação e condições para a realizar em segurança.

O princípio mais importante é individualizar o exercício. Treinar a marcha, a força, o equilíbrio e a atenção pode fazer sentido, mas a escolha das tarefas, a progressão e a supervisão devem acompanhar as capacidades e as necessidades de cada pessoa.

Posso ajudar

Ajudo adultos mais velhos a melhorar a força, o equilíbrio e a mobilidade através de exercício adaptado às suas capacidades, objetivos e limitações, com atenção à segurança e à autonomia funcional.

Referências

  • Park HS, Han SH, Hong YI, Yoon JH, Park MR, Oh JK. Dual-task versus single-task walking within an Otago Exercise Program for older adults with dementia: A 24-week cluster randomized controlled trial. Journal of Exercise Science & Fitness. 2026;24:200503. DOI: 10.1016/j.jesf.2026.200503.

Leia também