Artrite e exercício: mesmo com limitações físicas, caminhar mais é possível

Artrite e exercício: mesmo com limitações físicas, caminhar mais é possível October 13, 2026Leave a comment

Quando uma pessoa tem artrite e sente dificuldade em caminhar, é muito frequente surgir uma dúvida: será que devo começar a fazer mais atividade física ou preciso primeiro de recuperar a minha condição física?

Esta questão é particularmente importante porque a dor, a rigidez e a perda de capacidade física podem levar a um ciclo difícil de interromper. A pessoa sente dor, começa a evitar o movimento, passa mais tempo sentada, perde força e resistência e, posteriormente, caminhar torna-se ainda mais difícil.

Um estudo publicado recentemente na revista Rheumatology International analisou precisamente esta questão. Os investigadores procuraram perceber se a capacidade física existente no início de um programa de atividade física poderia influenciar a evolução da caminhada em adultos com artrite.

Os resultados trazem uma mensagem muito interessante: ter limitações físicas no início não significa necessariamente que uma pessoa tenha menor capacidade de aumentar a sua atividade física.

O que foi estudado?

O estudo foi uma análise secundária de um ensaio clínico randomizado e incluiu 267 adultos com artrite. A idade média dos participantes era de 64,2 anos e 92% eram mulheres.

Os investigadores estavam particularmente interessados em perceber se a função física inicial modificava a resposta a uma intervenção destinada a aumentar a atividade física.

Para avaliar a capacidade física, foram utilizados dois testes bastante simples:

  • o teste de levantar e sentar da cadeira durante 30 segundos;
  • o teste de caminhada de 6 minutos.

A atividade física foi avaliada através do número de passos realizados por dia. Os investigadores acompanharam os participantes no início do estudo, às 6 semanas, aos 6 meses e aos 12 meses.

A intervenção analisada foi o programa Walk With Ease, realizado através de acompanhamento telefónico. O objetivo era ajudar os participantes a aumentar a caminhada e a atividade física.

As pessoas com melhor condição física caminhavam mais

Um dos resultados encontrados é bastante intuitivo: as pessoas que apresentavam melhor desempenho físico no início do estudo realizavam, em média, mais passos por dia ao longo do acompanhamento.

Quem conseguia realizar mais repetições no teste de levantar e sentar tendia a caminhar mais. Da mesma forma, uma melhor capacidade de caminhada no teste de 6 minutos estava associada a um maior número de passos diários.

Isto faz sentido.

Uma pessoa com mais força nas pernas e maior resistência cardiovascular provavelmente consegue realizar mais atividade ao longo do dia.

Mas o resultado mais interessante vem a seguir.

As limitações iniciais não impediram a evolução

Os investigadores procuraram saber se as limitações físicas existentes no início modificavam a resposta à intervenção.

E aqui está a parte que considero especialmente relevante para a prática: não encontraram evidência de que a capacidade física inicial modificasse significativamente a evolução do número de passos após a intervenção.

Ou seja, embora as pessoas com melhor função física tendessem a caminhar mais, aquelas que começaram com maiores limitações não ficaram necessariamente excluídas da possibilidade de melhorar a sua atividade física.

Este resultado é importante porque pode contrariar uma ideia bastante comum: “primeiro tenho de ficar em melhor forma para depois começar a caminhar”.

Em muitos casos, pode acontecer precisamente o contrário.

A caminhada pode fazer parte da recuperação da capacidade física

Não precisamos necessariamente de esperar que uma pessoa esteja forte para começar a aumentar progressivamente a sua atividade.

A própria atividade pode ser uma das ferramentas utilizadas para melhorar a capacidade.

Uma pessoa que começa com dificuldade em caminhar durante 20 minutos pode começar por períodos mais curtos.

Pode caminhar 5 minutos.

Descansar.

Voltar a caminhar.

Ou simplesmente aumentar o número de passos distribuídos ao longo do dia.

À medida que a tolerância aumenta, podemos progressivamente aumentar a duração, a frequência ou o ritmo.

O objetivo não é transformar imediatamente uma pessoa sedentária num caminhante de longa distância.

O objetivo é criar uma progressão que permita aumentar a capacidade sem ultrapassar aquilo que a pessoa consegue tolerar.

A importância de não confundir dor com incapacidade

Quando falamos de artrite, existe uma tendência natural para associar dor a incapacidade.

Mas uma pessoa pode ter dor e continuar a conseguir realizar determinadas atividades.

Da mesma forma, uma pessoa pode apresentar alterações articulares significativas e ainda manter uma capacidade funcional razoável.

Por isso, considero importante avaliar o que a pessoa realmente consegue fazer.

Quantos minutos consegue caminhar?

Consegue levantar-se de uma cadeira sem utilizar os braços?

Consegue subir escadas?

Consegue caminhar numa superfície inclinada?

Como reage no dia seguinte ao exercício?

Estas respostas podem ser muito mais úteis para definir um programa de exercício do que simplesmente saber que existe um diagnóstico de artrite.

Começar abaixo do limite pode ser uma boa estratégia

Uma das estratégias que considero mais importantes no treino de pessoas com dor ou limitações articulares é começar com uma dose que a pessoa consiga repetir.

Se alguém consegue caminhar 15 minutos mas fica significativamente pior durante os dois dias seguintes, talvez 15 minutos não sejam a melhor dose inicial.

Poderemos começar com 8 ou 10 minutos e observar a resposta.

Se essa dose for bem tolerada, temos uma base para progredir.

É uma lógica simples, mas muito importante: não procuramos o máximo que a pessoa consegue fazer hoje; procuramos uma dose que permita continuar a treinar amanhã.

O número de passos pode ser uma ferramenta útil

Utilizar o número de passos como indicador pode ser interessante porque permite acompanhar mudanças de forma relativamente simples.

Não significa que exista um número mágico de passos que todas as pessoas devam atingir.

Uma pessoa pode começar com 3000 passos por dia e outra com 6000. O ponto de partida é diferente.

Mais importante do que comparar com uma recomendação universal pode ser observar a evolução individual.

Se uma pessoa passa de 3000 para 3500 passos, já existe uma alteração positiva.

Mais tarde poderá passar para 4000, depois 4500 e assim sucessivamente, desde que a progressão seja adequada.

Esta abordagem pode ser particularmente útil em pessoas com artrite porque permite transformar um objetivo abstrato — “mexer-me mais” — num comportamento observável.

Mas caminhar não deve ser o único exercício

Apesar de a caminhada ser uma excelente forma de aumentar a atividade física, não deve necessariamente ser a única componente de um programa para uma pessoa com artrite.

O treino de força também pode ser muito importante.

Fortalecer os músculos dos membros inferiores pode facilitar tarefas como levantar-se de uma cadeira, subir escadas e caminhar.

Também podemos trabalhar equilíbrio, mobilidade, coordenação e capacidade cardiovascular.

O programa deve depender das limitações e dos objetivos da pessoa.

Uma pessoa cujo principal objetivo é voltar a caminhar 30 minutos pode necessitar de uma abordagem diferente de alguém que pretende voltar a correr, praticar ténis ou fazer caminhadas na natureza.

Função física e atividade física não são exatamente a mesma coisa

Este estudo também ajuda a distinguir dois conceitos.

Função física refere-se à capacidade que temos para realizar determinadas tarefas.

Atividade física refere-se ao movimento que efetivamente realizamos ao longo do dia.

Uma pessoa pode ter uma capacidade física relativamente baixa e, ainda assim, aumentar progressivamente a sua atividade.

É precisamente aqui que a prescrição de exercício pode fazer diferença.

Não precisamos de esperar que a capacidade seja excelente para começar.

Começamos com a capacidade existente e procuramos desenvolvê-la.

O exercício deve aproximar-se da vida real

Para mim, uma das melhores formas de avaliar se um programa de exercício está a funcionar é perceber se a melhoria aparece fora do ginásio.

Se uma pessoa está mais forte mas continua sem conseguir caminhar até ao supermercado, talvez seja necessário aproximar mais o treino das tarefas que pretende realizar.

Se tem dificuldade em levantar-se de uma cadeira, podemos trabalhar força e também praticar o próprio movimento.

Se quer caminhar mais, precisamos de aumentar progressivamente a exposição à caminhada.

Se pretende subir escadas, podemos trabalhar força, equilíbrio e controlo, mas também precisamos de introduzir progressivamente escadas.

O exercício deve preparar a pessoa para aquilo que ela quer voltar a fazer.

O que este estudo nos ensina?

Na minha opinião, a principal mensagem deste estudo não é simplesmente que caminhar é bom para pessoas com artrite.

Isso já sabemos.

A mensagem mais interessante é que uma condição física inicial mais limitada não parece impedir necessariamente uma pessoa de responder positivamente a uma intervenção de atividade física orientada para aumentar a caminhada.

Isso é particularmente importante porque muitas pessoas com artrite começam um programa de exercício convencidas de que estão demasiado debilitadas para beneficiar.

Talvez a pergunta devesse ser outra.

Em vez de perguntar “estou suficientemente bem para começar?”, podemos perguntar:

“Qual é o nível de atividade que consigo realizar hoje e como posso aumentá-lo progressivamente?”

Nem todos precisam de começar da mesma forma

É importante também não transformar estes resultados numa receita universal.

Algumas pessoas poderão começar com caminhada contínua.

Outras poderão precisar de alternar períodos de caminhada com descanso.

Algumas beneficiarão de bicicleta, exercícios na água ou outras atividades de baixo impacto.

Outras precisarão primeiro de recuperar alguma força para conseguirem caminhar com maior segurança.

A individualização continua a ser fundamental.

O diagnóstico de artrite não nos diz sozinho qual é o exercício ideal.

Precisamos de observar a pessoa, os seus sintomas, a sua capacidade atual, os seus objetivos e a resposta ao treino.

Conclusão

Um novo estudo em adultos com artrite mostra que pessoas com melhor função física tendem a realizar mais passos por dia, mas as limitações físicas existentes no início não parecem impedir necessariamente a resposta a uma intervenção de atividade física orientada para aumentar a caminhada.

Esta é uma mensagem importante para quem sente que está “demasiado limitado” para começar a fazer exercício.

Não precisamos de começar em condições perfeitas.

Podemos começar com aquilo que a pessoa consegue fazer hoje e construir progressivamente a partir daí.

Caminhar pode ser uma parte importante desse processo, mas o treino de força, o equilíbrio, a mobilidade e outras formas de atividade física podem complementar a intervenção.

No final, o objetivo não é simplesmente aumentar o número de passos registados por um relógio.

O objetivo é aumentar a capacidade da pessoa para viver a sua vida com menos limitações.

Posso ajudar?

Se tem artrite ou limitações físicas, posso ajudá-lo a começar no nível adequado, combinando caminhada, força, mobilidade e progressão gradual para recuperar confiança no movimento.

Referências

  • Tore NG, Pellegrini CA, Horn K, et al. Does baseline physical function modify the response to a physical activity intervention in adults with arthritis? A secondary analysis of a randomized trial. Rheumatology International. 2026;46(10):271.
  • PMID: 42820960.
  • DOI: 10.1007/s00296-026-06312-z.
  • PubMed – estudo original

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