A creatina é conhecida sobretudo pelos seus benefícios no treino de força e no desempenho físico. No entanto, a investigação está a explorar outras funções desta substância, incluindo a sua possível influência na inflamação cerebral e na comunicação entre o intestino e o sistema nervoso.
Um estudo publicado em 2026 na revista Brain, Behavior, and Immunity investigou se a suplementação com creatina poderia proteger os neurónios contra alterações provocadas pela colite crónica. Os resultados foram promissores, embora exista uma limitação fundamental: a investigação foi realizada em ratos, não em seres humanos.
O que investigou este estudo sobre a creatina?
O trabalho, intitulado Modulating effects of creatine prevent sex-dependent hippocampal neuroinflammation, neuronal damage, and electrophysiological dysfunction induced by chronic colitis, procurou compreender como a inflamação intestinal crónica pode afetar o cérebro e se a creatina consegue atenuar essas alterações.
Os investigadores utilizaram um modelo experimental de colite ulcerosa induzida quimicamente em ratos. Avaliaram alterações inflamatórias, a integridade dos neurónios e o funcionamento elétrico das células nervosas do hipocampo, uma região cerebral importante para a memória e a aprendizagem.
O estudo analisou também diferenças entre machos e fêmeas, uma vez que a resposta inflamatória e as alterações cerebrais não foram iguais nos dois sexos.
Como pode o intestino influenciar o cérebro?
O intestino e o cérebro comunicam continuamente através de uma rede de mecanismos que inclui o sistema nervoso, o sistema imunitário, as hormonas e diferentes substâncias produzidas pelo organismo e pela microbiota intestinal.
Esta comunicação é conhecida como eixo intestino-cérebro. Não se trata de uma ligação meramente teórica: os sinais produzidos num órgão podem influenciar processos fisiológicos noutro, embora os efeitos dependam do contexto e da doença em causa.
Na presença de inflamação intestinal persistente, podem ocorrer alterações na libertação de mediadores inflamatórios, na função da barreira intestinal e na atividade do sistema imunitário. Estes processos podem contribuir para modificar a sinalização entre o intestino e outros tecidos.
Contudo, importa não simplificar demasiado esta relação. Ter uma doença inflamatória intestinal não significa necessariamente desenvolver lesões cerebrais. O estudo em causa investigou mecanismos específicos num modelo animal e não demonstra que todas as pessoas com colite apresentem as mesmas alterações.
O que aconteceu no hipocampo?
O hipocampo participa em funções como a formação de memórias e a aprendizagem. Por isso, compreender como a inflamação sistémica pode afetar esta região é relevante para a investigação sobre saúde cerebral.
Nos ratos com colite, os investigadores observaram alterações particularmente acentuadas nos machos. Entre os resultados descritos encontram-se sinais de neuroinflamação, lesão neuronal e alterações nas propriedades elétricas dos neurónios da região CA1 do hipocampo.
Estas propriedades elétricas são essenciais para a comunicação entre células nervosas. Quando se alteram, os neurónios podem apresentar dificuldades em responder aos estímulos de forma habitual.
Nas fêmeas, o quadro foi diferente. Os investigadores observaram alterações moleculares, mas a integridade neuronal e várias propriedades eletrofisiológicas mantiveram-se relativamente preservadas.
Esta diferença sugere que o impacto da inflamação intestinal sobre o cérebro pode depender do sexo e de mecanismos biológicos específicos. Não permite, porém, concluir que as mulheres estejam protegidas contra os efeitos neurológicos das doenças inflamatórias intestinais.
A creatina conseguiu proteger os neurónios?
Um dos resultados mais interessantes foi a resposta observada nos animais que receberam creatina por via oral. Neste modelo experimental, a suplementação preveniu várias alterações associadas à colite, incluindo sinais de neuroinflamação, ativação da microglia, lesão neuronal e disfunção eletrofisiológica.
A microglia é constituída por células imunitárias residentes no sistema nervoso central. Estas células participam na vigilância e na defesa do tecido cerebral, mas a sua ativação também pode acompanhar processos inflamatórios e lesivos, dependendo do contexto.
Os investigadores observaram ainda uma recuperação dos níveis de creatina no hipocampo e uma preservação de características funcionais dos neurónios.
A creatina participa no sistema energético celular através do mecanismo creatina-fosfocreatina, que ajuda a disponibilizar energia rapidamente quando existe necessidade. Este papel é importante em tecidos com elevada exigência energética, como os músculos e o cérebro.
Apesar de a função energética da creatina ajudar a explicar o interesse científico nesta substância, não podemos afirmar que todos os efeitos protetores observados neste estudo resultem exclusivamente desse mecanismo. A investigação identificou resultados experimentais, mas não estabelece uma explicação definitiva para cada efeito.
Porque é que as diferenças entre sexos são importantes?
Os resultados indicaram que os machos apresentaram alterações cerebrais mais pronunciadas em determinados parâmetros, enquanto as fêmeas mostraram um perfil menos afetado em várias medidas estruturais e funcionais.
Estas diferenças podem estar relacionadas com múltiplos fatores biológicos, incluindo a regulação imunitária e a resposta dos tecidos à inflamação. No entanto, não devem ser extrapoladas diretamente para seres humanos, cujas respostas dependem de fatores adicionais, como idade, genética, medicação e gravidade da doença.
O estudo reforça a importância de incluir ambos os sexos na investigação pré-clínica e de avaliar se as intervenções produzem efeitos diferentes em populações distintas.
Significa isto que a creatina pode tratar a colite ou proteger o cérebro humano?
Não. Esta é a principal distinção a fazer na interpretação dos resultados.
O estudo fornece evidência experimental de que a creatina pode atenuar determinadas alterações cerebrais num modelo de colite crónica em ratos. Não demonstra que a suplementação previna lesões cerebrais, melhore a memória ou trate a inflamação intestinal em pessoas.
Os modelos animais são úteis para estudar mecanismos biológicos e formular hipóteses. Contudo, existem diferenças entre espécies na fisiologia, na resposta imunitária, no metabolismo e na evolução das doenças. São necessários ensaios clínicos em seres humanos para avaliar a eficácia, as doses apropriadas e a segurança desta abordagem em pessoas com doença inflamatória intestinal.
Também não devemos interpretar estes resultados como uma indicação para aumentar a dose de creatina ou iniciar suplementação com o objetivo de prevenir doenças neurológicas.
Creatina, exercício e saúde cerebral
A creatina continua a ser estudada sobretudo no contexto do exercício físico, da força muscular e da capacidade de realizar esforços intensos. A investigação sobre o cérebro acrescenta uma dimensão interessante, porque este órgão também depende de um fornecimento energético rigorosamente regulado.
Na minha experiência como profissional de exercício, prefiro distinguir aquilo que já podemos aplicar daquilo que ainda está a ser investigado. A evidência sobre a creatina no treino de força não deve ser confundida com a evidência preliminar sobre possíveis efeitos neuroprotetores em modelos de doença.
Para a maioria das pessoas, a prioridade continua a ser manter hábitos consistentes: praticar exercício adequado à condição física, realizar treino de força, dormir suficientemente e seguir uma alimentação equilibrada. A creatina pode ter utilidade em determinados contextos, mas não substitui estas medidas nem constitui um tratamento comprovado para doenças inflamatórias ou neurológicas.
Quem tem doença renal conhecida, alterações da função renal ou toma medicação que possa afetar os rins deve discutir a suplementação com o médico antes de a iniciar. A escolha da dose e a avaliação da função renal devem ser individualizadas.
Conclusão: uma hipótese promissora, mas ainda experimental
Este estudo acrescenta informação à investigação sobre a relação entre inflamação intestinal, funcionamento cerebral e metabolismo energético. Num modelo de colite crónica em ratos, a creatina preveniu várias alterações inflamatórias, estruturais e eletrofisiológicas no hipocampo, com diferenças entre machos e fêmeas.
Os resultados justificam investigação adicional, mas ainda não permitem recomendar creatina como estratégia para prevenir lesões cerebrais ou tratar a doença inflamatória intestinal em seres humanos.
A mensagem mais útil é reconhecer que o organismo funciona como um sistema integrado. O intestino, o sistema imunitário, o metabolismo e o cérebro comunicam entre si, e compreender estas relações poderá ajudar a desenvolver novas estratégias de prevenção e tratamento no futuro.
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Referências científicas
- Ruiz-Calero A, Ortego-Domínguez M, Vázquez-Carretero MD, et al. Modulating effects of creatine prevent sex-dependent hippocampal neuroinflammation, neuronal damage, and electrophysiological dysfunction induced by chronic colitis. Brain, Behavior, and Immunity. 2026;138:106929. https://doi.org/10.1016/j.bbi.2026.106929.
- Artigo original disponível na ScienceDirect: Modulating effects of creatine prevent sex-dependent hippocampal neuroinflammation….