A quantidade de gordura que ingerimos continua a ser um dos temas mais discutidos na nutrição e na saúde cardiovascular. Mas reduzir a gordura total da alimentação melhora sempre o perfil lipídico? Uma meta-análise publicada em outubro de 2026 na revista Nutrition Reviews analisou 92 ensaios clínicos para comparar os efeitos de dietas pobres e ricas em gordura sobre diferentes indicadores do colesterol e das lipoproteínas.
O que analisaram os investigadores?
Os investigadores compararam dietas em que a gordura representava até 30% da energia diária com padrões alimentares em que ultrapassava esse valor. A análise incluiu medidas como o colesterol não-HDL, as apolipoproteínas e diferentes relações entre lípidos sanguíneos.
O colesterol não-HDL corresponde ao colesterol transportado por várias partículas potencialmente aterogénicas, incluindo as LDL. Por isso, pode complementar o colesterol LDL na avaliação do risco cardiovascular.
Uma redução do colesterol não-HDL
O principal resultado foi uma redução média de aproximadamente 8 mg/dL no colesterol não-HDL nas dietas pobres em gordura, em comparação com as dietas mais ricas em gordura. A evidência para este resultado foi classificada como de elevada qualidade pelos investigadores.
No entanto, os resultados não foram iguais para todos os marcadores. A meta-análise não encontrou diferenças significativas na apolipoproteína B (ApoB), um indicador importante do número de partículas aterogénicas, nem na lipoproteína(a), conhecida como Lp(a).
Também foram observadas pequenas alterações desfavoráveis em algumas relações lipídicas, incluindo a relação entre colesterol total e HDL e a relação entre triglicéridos e HDL. Estes resultados mostram que avaliar apenas um valor laboratorial pode dar uma imagem incompleta dos efeitos de uma dieta.
Comer menos gordura é sempre melhor?
Não necessariamente. A quantidade total de gordura é apenas uma parte da equação. Também importa perceber que alimentos são retirados e quais os que os substituem. Reduzir determinados alimentos ricos em gordura saturada e substituí-los por opções de boa qualidade é diferente de trocar gorduras por produtos ricos em farinhas refinadas ou açúcares adicionados.
Por outro lado, alimentos como o azeite, os frutos secos e alguns peixes fornecem gorduras insaturadas que podem fazer parte de uma alimentação favorável à saúde cardiovascular. Uma dieta com maior teor de gordura não é automaticamente prejudicial, tal como uma dieta pobre em gordura não é necessariamente saudável.
Como aplicar estes resultados?
Na minha experiência, prefiro olhar para o padrão alimentar completo e para os resultados das análises em conjunto. Leguminosas, vegetais, fruta, cereais integrais e fontes de gordura de boa qualidade podem ajudar a construir uma alimentação equilibrada. A escolha deve ainda considerar as necessidades individuais e o risco cardiovascular de cada pessoa.
Esta meta-análise não demonstra que todas as pessoas devam seguir uma dieta pobre em gordura. Mostra que esse padrão pode reduzir o colesterol não-HDL, mas que os efeitos sobre outros marcadores são menos claros. A interpretação deve ter em conta a qualidade da evidência e a composição concreta das dietas comparadas.
Conclusão
Reduzir a gordura total pode melhorar alguns indicadores do colesterol, mas não garante melhorias em todos os marcadores cardiovasculares. A qualidade dos alimentos, o tipo de gordura e aquilo que a substitui continuam a ser fundamentais. Para proteger a saúde cardiovascular, importa avaliar o conjunto da alimentação e acompanhar os fatores de risco com profissionais de saúde.
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Referências
- Soltani S, Meshkini F, Mirjalili SR, et al. Comparative Effects of Low-Fat and High-Fat Diets on Non-HDL Cholesterol, Apolipoproteins, and Lipoprotein Ratios: A Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. Nutrition Reviews. Publicado a 16 de outubro de 2026. Consultar o artigo científico.
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