É frequente ouvirmos que homens e mulheres respondem de maneira diferente ao treino de força. Em parte, esta ideia faz sentido: existem diferenças fisiológicas entre os sexos que podem influenciar a força absoluta, a composição corporal, a massa muscular e algumas das adaptações ao treino.
Mas existe outra questão que nem sempre é considerada: será que algumas das diferenças que encontramos nos estudos dependem da forma como os resultados são analisados?
Um estudo publicado em 2026 no Journal of Strength and Conditioning Research procurou precisamente responder a esta questão. Investigou homens e mulheres fisicamente ativos, já com experiência de treino de força, submetidos ao mesmo período de treino e comparou diferentes formas de analisar as alterações de força e de espessura muscular.
O que foi estudado?
Participaram no estudo 22 homens e 19 mulheres, todos com mais de um ano de experiência em treino de força. Os homens tinham uma idade média de 29 anos e as mulheres de aproximadamente 31 anos.
Durante 12 semanas, os participantes realizaram duas sessões semanais de treino de força supervisionado. O programa foi progressivo e periodizado, procurando reproduzir uma situação relativamente próxima daquilo que encontramos num programa estruturado de treino.
Foram avaliadas duas dimensões principais: a força e a espessura muscular.
A força foi avaliada através do teste de uma repetição máxima, enquanto a espessura muscular foi medida através de ecografia em músculos como o bíceps braquial e o vasto lateral.
O interessante é que os investigadores não analisaram apenas quanto cada grupo aumentou. Compararam diferentes formas de expressar essa alteração.
O que aconteceu à massa muscular?
Os resultados são particularmente interessantes quando falamos de hipertrofia.
A espessura do bíceps braquial aumentou aproximadamente 14% e a do vasto lateral cerca de 10% depois das 12 semanas de treino.
Mais importante ainda: não foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre homens e mulheres na alteração da espessura muscular.
Isto é relevante porque desmonta uma interpretação demasiado simplista segundo a qual os homens teriam necessariamente uma resposta hipertrófica superior apenas por serem homens.
Naturalmente, isto não significa que homens e mulheres sejam fisiologicamente iguais. Significa que, neste grupo e neste período de treino, o aumento da espessura muscular não apresentou uma diferença significativa entre os sexos.
E a força?
A situação torna-se mais interessante quando analisamos os resultados de força.
No supino, as mulheres apresentaram um aumento relativo superior: aproximadamente 32,8%, comparado com 19,9% nos homens.
Quando analisamos a alteração em valores absolutos, contudo, essa diferença deixou de ser estatisticamente significativa.
O contrário aconteceu no levantamento com barra hexagonal.
Quando analisado em quilogramas, o aumento foi maior nos homens: aproximadamente 29,4 kg contra 14,4 kg nas mulheres.
Mas quando os resultados foram analisados relativamente aos valores iniciais, essa diferença deixou de ser significativa.
O problema dos valores absolutos e relativos
É aqui que considero que está uma das mensagens mais importantes deste estudo.
Imaginemos duas pessoas.
Uma começa o treino com uma força muito superior à outra. Se ambas aumentarem a força em 20 kg, o aumento absoluto é exatamente igual.
Mas se uma começou com 50 kg e outra com 100 kg, o significado relativo dessa alteração é completamente diferente.
Da mesma forma, se uma pessoa aumentar de 50 para 65 kg, ganhou 15 kg, ou 30%. Outra pode passar de 100 para 120 kg e ganhar 20 kg, ou 20%.
Quem melhorou mais?
Depende da pergunta que estamos a fazer.
É precisamente por isso que comparar simplesmente valores absolutos pode produzir uma interpretação diferente daquela que obtemos quando analisamos alterações relativas.
O ponto de partida importa
Quando avaliamos a resposta ao treino, o valor inicial de cada pessoa é fundamental.
Uma pessoa que começa com pouca força tem potencial para apresentar aumentos percentuais muito grandes. Uma pessoa que já possui níveis elevados de força pode continuar a melhorar bastante em termos absolutos, mas apresentar uma alteração percentual menor.
Isto não significa que uma tenha respondido melhor do que a outra.
Significa que estamos perante duas formas diferentes de descrever a mesma realidade.
O estudo mostra precisamente como a escolha da metodologia estatística pode alterar a conclusão sobre possíveis diferenças entre homens e mulheres.
Então homens e mulheres respondem da mesma maneira?
Não devemos retirar essa conclusão.
Existem diferenças fisiológicas entre homens e mulheres que podem influenciar a resposta ao treino. O próprio estudo reconhece que diferenças relacionadas com os mecanismos de adaptação podem contribuir para algumas das diferenças observadas.
Mas também demonstra que devemos ter cuidado quando transformamos uma diferença estatística numa afirmação geral sobre como “homens” ou “mulheres” respondem ao treino.
Uma coisa é observar uma diferença num determinado teste e utilizando determinada forma de análise. Outra é concluir que um sexo responde globalmente melhor ao treino de força.
O que significa isto na prática?
Para quem trabalha com treino, esta distinção é muito importante.
Não considero útil partir da ideia de que uma mulher deve treinar de determinada forma porque é mulher ou que um homem precisa necessariamente de outro tipo de programa porque é homem.
Existem diferenças individuais muito grandes dentro de cada sexo.
Experiência de treino, nível inicial de força, composição corporal, idade, historial de lesões, recuperação, sono, alimentação, motivação e características do próprio programa podem influenciar muito a resposta individual.
Por isso, prefiro olhar para a pessoa que tenho à minha frente e acompanhar a sua evolução ao longo do tempo.
Não devemos comparar apenas números
Uma das consequências deste tipo de investigação é lembrar-nos que avaliar treino não é simplesmente olhar para um número antes e depois.
É necessário perceber o que esse número representa.
Um aumento de 10 kg pode ser excelente numa pessoa e relativamente pequeno noutra. Um aumento de 20% pode parecer impressionante, mas pode representar uma alteração absoluta modesta.
Da mesma forma, a força não é a única adaptação importante.
Podemos melhorar a técnica, aumentar a massa muscular, controlar melhor um movimento, realizar mais trabalho com a mesma carga ou executar a mesma tarefa com menor esforço.
A progressão pode assumir muitas formas.
O que retiro deste estudo?
Para mim, a principal mensagem deste trabalho é simples: a forma como medimos uma adaptação influencia a forma como a interpretamos.
Homens e mulheres podem apresentar diferenças na evolução da força quando analisamos determinados exercícios e determinadas métricas. No entanto, neste estudo, o aumento da espessura muscular foi semelhante entre os grupos.
Mais do que procurar uma regra que diga como homens ou mulheres devem treinar, considero mais útil compreender os princípios do treino e acompanhar a resposta individual.
O treino de força funciona através de adaptações. Mas essas adaptações não acontecem de forma exatamente igual em todas as pessoas.
É por isso que um bom programa não deve ser apenas uma lista de exercícios. Deve ser um processo de avaliação, aplicação, observação e adaptação.
Posso ajudar?
Ajudo a construir e ajustar treino de força individualizado, acompanhando a evolução da força, massa muscular, técnica e capacidade de recuperação ao longo do tempo.