Jejum, cetose e autofagia: o que acontece no organismo ao longo das horas?

Jejum, cetose e autofagia: o que acontece no organismo ao longo das horas? October 14, 2026Leave a comment

O jejum tornou-se um dos temas mais discutidos na saúde e no exercício. Fala-se de perda de gordura, sensibilidade à insulina, cetose, autofagia e, mais recentemente, da possibilidade de o jejum influenciar o metabolismo das células tumorais.

Grande parte deste interesse recupera uma ideia muito antiga: o trabalho de Otto Warburg sobre o metabolismo das células cancerosas. Muitas células tumorais apresentam uma utilização elevada de glicose e uma maior produção de lactato, mesmo na presença de oxigénio, fenómeno conhecido como efeito Warburg.

Mas será que isto significa que deixar de comer durante 16, 24, 36 ou 48 horas pode “matar” células cancerosas? A resposta é muito mais interessante — e também muito mais complexa.

O que acontece quando começamos a jejuar?

Depois de uma refeição, a disponibilidade de nutrientes é elevada. A insulina aumenta e o organismo utiliza principalmente a energia proveniente dos alimentos, armazenando parte dela sob a forma de glicogénio e gordura.

À medida que passam algumas horas sem comer, a insulina tende a diminuir e o organismo começa progressivamente a utilizar as reservas energéticas.

O fígado desempenha aqui um papel fundamental. Inicialmente utiliza o glicogénio hepático para ajudar a manter a glicemia. Quando essa reserva diminui, aumenta a produção de glicose através da gluconeogénese.

Ao mesmo tempo, aumenta a mobilização dos ácidos gordos e, quando a disponibilidade de gordura e a oxidação hepática aumentam suficientemente, começam a subir os corpos cetónicos.

É importante perceber que estas alterações não acontecem como interruptores. Não existe um momento exacto em que o organismo passa de “modo alimentação” para “modo jejum”. Trata-se de uma transição progressiva.

12 a 16 horas: o início da mudança metabólica

Num jejum de 12 a 16 horas, especialmente quando a última refeição foi relativamente cedo e não houve ingestão calórica durante a noite, a insulina encontra-se geralmente mais baixa do que no período pós-prandial.

O organismo começa a aumentar a utilização das reservas energéticas e pode começar a existir uma produção mais significativa de corpos cetónicos.

É também neste contexto que aparece frequentemente a ideia de que “às 16 horas começa a autofagia”. Esta afirmação é demasiado precisa para aquilo que a ciência permite concluir.

A autofagia existe permanentemente nas células. O jejum e a redução da disponibilidade de nutrientes podem aumentar determinadas vias relacionadas com a autofagia, mas não existe uma hora universal a partir da qual possamos afirmar que este processo começou ou atingiu determinado nível em todos os seres humanos.

24 horas: mais utilização de gordura e cetonas

À medida que o jejum se prolonga, o glicogénio hepático tende a diminuir e a contribuição da gordura e da produção de corpos cetónicos aumenta.

A glicose sanguínea, contudo, não desaparece.

O organismo continua a manter a glicemia através da gluconeogénese, utilizando diferentes substratos, incluindo lactato, glicerol e aminoácidos.

Este ponto é fundamental para compreender a relação entre jejum e cancro.

Mesmo que não comamos açúcar ou hidratos de carbono, o organismo continua a produzir glicose. Por isso, a ideia de que “deixar de comer açúcar deixa o tumor sem combustível” é uma simplificação excessiva.

36 a 48 horas: a adaptação torna-se mais profunda

Com jejuns mais prolongados, a utilização de gordura e a produção de corpos cetónicos tornam-se mais relevantes. A insulina permanece baixa e várias vias celulares associadas à disponibilidade de nutrientes são alteradas.

Entre essas vias encontram-se sistemas relacionados com AMPK, mTOR, sinalização da insulina e IGF-1, metabolismo mitocondrial e mecanismos de manutenção celular.

A autofagia também pode ser estimulada em determinados tecidos e condições.

Mas aqui é importante evitar uma das afirmações mais comuns nas redes sociais: não podemos dizer que “ao fim de 48 horas o corpo limpa as células danificadas” ou que “começa a destruir células cancerosas”.

Os mecanismos de autofagia são reais e biologicamente importantes, mas a sua intensidade varia entre tecidos e indivíduos e é muito mais difícil medi-la diretamente em seres humanos do que em modelos experimentais.

O que é realmente a autofagia?

A palavra significa aproximadamente “comer a si próprio”. É um sistema de reciclagem celular.

Quando determinados componentes celulares estão danificados ou precisam de ser eliminados, a célula pode encaminhá-los para estruturas especializadas onde são degradados e os seus componentes podem ser reutilizados.

O processo não é exclusivamente provocado pelo jejum. A autofagia ocorre normalmente e participa na manutenção da qualidade celular.

O jejum pode alterar os sinais metabólicos que regulam este sistema, sobretudo através da redução da disponibilidade de nutrientes e de alterações em vias como mTOR e AMPK.

Por isso, é mais correto dizer que o jejum pode estimular determinadas vias relacionadas com a autofagia do que afirmar que existe uma hora específica em que “a autofagia começa”.

E o que tem isto a ver com o cancro?

A ligação é uma das áreas mais interessantes da investigação atual.

Em modelos experimentais, o jejum e algumas dietas que imitam determinados efeitos metabólicos do jejum podem reduzir insulina e IGF-1, alterar o metabolismo energético e modificar a resposta das células tumorais ao stress.

Alguns estudos pré-clínicos sugerem ainda que estas alterações podem tornar determinados tumores mais vulneráveis a tratamentos como a quimioterapia.

Mas existe uma diferença enorme entre demonstrar um mecanismo numa célula ou num animal e demonstrar que o mesmo mecanismo melhora a sobrevivência de pessoas com cancro.

Nos seres humanos, os estudos ainda são relativamente pequenos e heterogéneos. Uma revisão sistemática publicada em 2025 encontrou apenas nove estudos adequados para analisar o impacto do jejum intermitente em pessoas com cancro submetidas a quimioterapia ou terapias dirigidas. Embora o jejum tenha sido considerado viável e geralmente seguro nos estudos avaliados, não foi demonstrado de forma consistente um benefício nos resultados do tratamento ou na toxicidade da quimioterapia.

Então o jejum pode tratar o cancro?

Actualmente, não podemos afirmar isso.

Existe uma base biológica interessante para estudar o jejum como complemento de determinados tratamentos, e ensaios iniciais com dietas que mimetizam o jejum apresentam resultados metabólicos e imunológicos promissores.

Mas isso é muito diferente de dizer que o jejum é um tratamento contra o cancro.

Uma revisão de 2022 sobre jejum durante o tratamento oncológico concluiu que os dados clínicos ainda eram insuficientes e heterogéneos. Uma revisão sistemática mais recente também reforçou a necessidade de estudos maiores e melhor controlados.

E existe um problema importante: a massa muscular

Esta questão é particularmente importante em oncologia.

Uma pessoa saudável pode tolerar períodos de jejum muito diferentes de uma pessoa que está a perder peso, massa muscular ou apetite devido a uma doença ou tratamento.

A perda involuntária de peso e de massa muscular pode ser clinicamente importante em pessoas com cancro. Por isso, não faz sentido aplicar automaticamente protocolos de jejum prolongado a todos os doentes.

O contexto individual é fundamental: tipo de tumor, tratamento, peso corporal, massa muscular, ingestão proteica, estado nutricional e tolerância ao jejum.

Jejum não é o mesmo que restrição calórica

Também é importante separar estes conceitos.

Uma pessoa pode fazer jejum durante 16 horas e consumir quantidade suficiente de energia durante a janela alimentar.

Outra pessoa pode comer várias vezes ao dia mas manter uma restrição calórica significativa.

Os efeitos metabólicos podem sobrepor-se em alguns aspectos, mas não são necessariamente iguais.

Na investigação sobre cancro, esta distinção é especialmente importante porque muitos dos benefícios observados em modelos animais podem estar relacionados com perda de peso, menor disponibilidade energética ou alterações metabólicas gerais, e não exclusivamente com o período sem comer.

O que podemos dizer hoje com segurança?

Podemos afirmar que o jejum provoca alterações metabólicas progressivas:

  • diminuição da insulina;
  • aumento da mobilização de gordura;
  • maior utilização de ácidos gordos;
  • aumento da produção de corpos cetónicos com o prolongamento do jejum;
  • alterações em vias celulares como AMPK e mTOR;
  • modificação de mecanismos relacionados com a autofagia.

Também sabemos que o metabolismo das células tumorais é frequentemente diferente do das células normais e que o efeito Warburg continua a ser uma peça importante para compreender essa biologia.

O que ainda não podemos afirmar é que um determinado número de horas de jejum provoque uma determinada quantidade de autofagia ou que um jejum de 24, 36 ou 48 horas elimine células cancerosas no ser humano.

O que retiro daqui para a prática?

Na minha opinião, esta é precisamente a parte mais interessante do tema.

O jejum não precisa de ser apresentado como uma ferramenta milagrosa para ter interesse. As alterações metabólicas que acontecem durante períodos sem ingestão alimentar são reais e ajudam-nos a compreender melhor como o organismo gere energia, gordura, glicose e sinais celulares.

Para pessoas saudáveis, o interesse pelo jejum pode estar sobretudo integrado num padrão alimentar sustentável, controlo do peso, saúde metabólica e organização das refeições.

Quando entramos no campo do cancro, contudo, devemos ser muito mais rigorosos. A investigação sobre jejum, cetose e metabolismo tumoral é promissora, mas ainda não permite substituir tratamentos oncológicos nem recomendar jejuns prolongados como estratégia terapêutica universal.

A grande lição de Warburg talvez seja precisamente esta: o metabolismo celular importa. Mas compreender o metabolismo de um tumor é muito diferente de encontrar uma única forma de o “matar à fome”.

Posso ajudar

Posso ajudar a integrar exercício, força e atividade física numa estratégia individualizada, respeitando objetivos, condição física, limitações e contexto de cada pessoa.

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Referências