Contar calorias é uma estratégia comum para controlar o peso, mas a energia indicada nos alimentos não corresponde necessariamente à quantidade exata que o organismo absorve. Uma investigação publicada em 2026 na revista PLOS One apresenta um modelo que ajuda a explicar como a digestão, a fibra alimentar e as bactérias intestinais influenciam o aproveitamento energético dos alimentos.
Nem todas as calorias são absorvidas da mesma forma
Tradicionalmente, o valor energético dos alimentos é estimado através de fatores médios associados às proteínas, aos hidratos de carbono e às gorduras. Este método continua a ser útil, mas não representa todos os processos que ocorrem durante a digestão.
Parte dos componentes alimentares chega ao cólon sem ter sido completamente digerida. Nesta região, os microrganismos intestinais fermentam determinados materiais, incluindo fibras e amido resistente, produzindo substâncias que podem ser absorvidas e utilizadas pelo organismo.
Entre essas substâncias encontram-se os ácidos gordos de cadeia curta, que contribuem para o metabolismo energético e desempenham outras funções importantes no intestino. Assim, a microbiota participa no aproveitamento dos alimentos, embora o seu efeito dependa da composição da dieta e de vários fatores individuais.
Uma dieta rica em fibra pode alterar a energia absorvida
O estudo analisou dados de uma experiência alimentar controlada que comparou uma dieta rica em fibra e amido resistente com outra semelhante a uma alimentação ocidental típica, com menos destes componentes e maior presença de alimentos processados.
Os participantes que seguiram a dieta rica em fibra absorveram aproximadamente menos 116 calorias por dia do que aqueles que consumiram a dieta de comparação. Curiosamente, não relataram sentir mais fome.
Este resultado não significa que qualquer aumento da fibra produza automaticamente a mesma diferença ou que seja possível prever quantas calorias uma pessoa irá absorver. Trata-se de um resultado obtido num contexto específico, que deve ser interpretado com prudência.
Um novo modelo para estudar a microbiota
Os investigadores desenvolveram um modelo matemático chamado DAMM, sigla inglesa para digestão, absorção e metabolismo microbiano. A ferramenta procura acompanhar o percurso da energia alimentar, estimando o que é absorvido no aparelho digestivo superior e o que resulta da atividade dos microrganismos no cólon.
Segundo as estimativas do modelo, os ácidos gordos de cadeia curta absorvidos no cólon podem fornecer, em média, cerca de 140 calorias por dia. Estes valores são estimativas e não devem ser utilizados como uma calculadora individual de calorias.
O que significa para a perda de gordura?
Na prática, estes resultados reforçam a importância de olhar para a qualidade da alimentação, e não apenas para os números das embalagens. Legumes, fruta, leguminosas, cereais integrais e outros alimentos ricos em fibra ajudam a diversificar a dieta e fornecem substratos utilizados pela microbiota intestinal.
Contudo, a perda de gordura continua a depender do equilíbrio energético ao longo do tempo, influenciado pela alimentação, atividade física, sono e características individuais. O modelo DAMM é uma ferramenta de investigação, não um método validado para prescrever dietas personalizadas no dia a dia.
Conclusão
A microbiota intestinal ajuda a explicar por que razão a relação entre alimentos e calorias é mais complexa do que uma simples soma de valores. Uma alimentação variada, com presença regular de alimentos ricos em fibra, é uma escolha sensata para a saúde. A investigação futura deverá esclarecer melhor como estas diferenças influenciam o peso e o metabolismo a longo prazo.
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Referências
- Davis TL, Dirks B, Carnero EA, et al. Modeling the microbial contribution to human energy balance using the Digestion, Absorption, and Microbial Metabolism (DAMM) model. PLOS One. 2026;21(5):e0347668. Consultar o artigo científico.
- Arizona State University. Your gut bacteria could be changing how many calories you absorb. ScienceDaily, 12 de outubro de 2026. Ler a notícia científica.
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