O golfe exige muito mais do que técnica. A capacidade de coordenar os movimentos, produzir força, controlar a rotação do tronco e manter o equilíbrio influencia a execução do swing. Por isso, o treino físico pode ter um papel importante na preparação de golfistas, tanto amadores como competitivos.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em setembro de 2026 na revista Life analisou os efeitos do treino físico que inclui exercícios para o core na velocidade da cabeça do taco. O objetivo foi perceber se programas que trabalham a musculatura do tronco podem contribuir para melhorar uma das variáveis associadas à distância do golpe.
O que é o core e porque interessa no golfe?
O core corresponde a um conjunto de músculos que contribuem para o controlo do tronco e da região lombo-pélvica. Inclui, entre outros, os músculos abdominais, os oblíquos, os multífidos e os eretores da coluna. O diafragma e a musculatura do pavimento pélvico também participam no controlo desta região.
Durante o swing, o corpo tem de coordenar a rotação da bacia, do tronco e dos membros superiores. A capacidade de produzir força é importante, mas também é necessário controlar o movimento e transmitir força entre os diferentes segmentos corporais.
É neste contexto que os exercícios de estabilidade, força e rotação do tronco podem ser úteis. No entanto, trabalhar o core não significa fazer apenas pranchas ou abdominais tradicionais. Dependendo do objetivo e da capacidade da pessoa, o treino pode incluir movimentos dinâmicos, exercícios com resistência e tarefas que exigem coordenação entre o tronco e os membros inferiores.
O que analisou o estudo de 2026?
A revisão reuniu nove estudos controlados, envolvendo um total de 220 golfistas. Os programas de treino duraram entre seis e doze semanas e incluíram diferentes combinações de exercícios para o core, treino de força e outras formas de preparação física.
Os investigadores avaliaram sobretudo a velocidade da cabeça do taco, uma variável que pode contribuir para a distância alcançada pela bola. Contudo, a distância não depende apenas da velocidade: a qualidade do contacto, a técnica, o ângulo de lançamento e outros fatores também influenciam o resultado.
Na análise global, os programas de treino físico que incluíam exercícios para o core apresentaram um efeito positivo pequeno, mas estatisticamente significativo, na velocidade da cabeça do taco. Este resultado sugere que o treino físico pode contribuir para melhorar o desempenho, embora não permita garantir a mesma resposta em todos os golfistas.
Treinar a rotação ou apostar apenas na estabilidade?
Os autores também compararam programas que incluíam exercícios rotacionais semelhantes aos movimentos do swing com programas de core sem essa componente específica. Os exercícios rotacionais incluíam movimentos dinâmicos em vários planos, como rotações com bola medicinal ou movimentos resistidos que procuram reproduzir aspetos da ação do golfe.
O grupo de estudos que utilizou exercícios rotacionais específicos apresentou um resultado positivo. Ainda assim, a diferença entre este grupo e os programas sem essa especificidade não foi estatisticamente significativa. Por isso, não podemos concluir que os exercícios rotacionais sejam necessariamente superiores a todas as outras formas de treino do core.
Esta distinção é importante. Um resultado favorável dentro de um grupo não demonstra, por si só, que esse grupo seja melhor do que outro. Além disso, os investigadores classificaram a certeza da evidência global como baixa e a evidência relativa ao treino rotacional específico como muito baixa.
Como aplicar estes resultados no treino?
Na minha experiência, o treino deve partir das necessidades do praticante. Nem todos os golfistas precisam dos mesmos exercícios, nem todos apresentam as mesmas limitações de mobilidade, força, equilíbrio ou controlo motor. Também não começaria por movimentos rápidos e complexos se a pessoa ainda não consegue controlar bem as posições mais simples.
Uma sessão pode combinar diferentes componentes, de acordo com a experiência e a capacidade de cada pessoa:
- Estabilidade: exercícios de controlo do tronco, adaptados à capacidade individual.
- Força: movimentos para os membros inferiores e superiores, com resistência ajustada.
- Rotação: exercícios progressivos que desenvolvam a coordenação do tronco e da bacia.
- Equilíbrio: tarefas que desafiem o controlo postural sem comprometer a segurança.
- Especificidade: integração gradual de movimentos relacionados com as exigências do swing.
A progressão deve considerar a técnica, a tolerância ao esforço, a recuperação e eventuais limitações físicas. Aumentar a velocidade ou a resistência demasiado cedo pode prejudicar a execução do exercício. Para quem tem dores lombares ou outras queixas musculoesqueléticas, a seleção dos exercícios deve ser individualizada e, quando necessário, acompanhada por um profissional de saúde.
Um vídeo com exercícios rotacionais para golfistas
O vídeo seguinte apresenta exemplos de exercícios rotacionais usados na preparação física para o golfe. Podem servir como referência para compreender o tipo de movimento, mas não constituem um programa individualizado nem demonstram, por si só, que esses exercícios melhorem o desempenho de todas as pessoas.
Conclusão
A evidência disponível sugere que incluir exercícios para o core num programa de preparação física pode ajudar a melhorar modestamente a velocidade da cabeça do taco. O treino rotacional específico é uma opção interessante, mas a investigação ainda não demonstra de forma robusta que seja superior a outras abordagens.
Para mim, a aplicação prática passa por combinar força, controlo motor, equilíbrio e movimentos progressivamente mais específicos, sem esquecer a técnica de golfe. O objetivo não deve ser apenas bater a bola com mais velocidade, mas desenvolver capacidades físicas que ajudem o praticante a executar o swing de forma eficiente e consistente.
Posso ajudar
O treino personalizado pode ajudar a desenvolver força, mobilidade, equilíbrio e controlo motor, respeitando a experiência e as capacidades de cada pessoa. A partir dos 40 anos, uma preparação física bem ajustada pode apoiar a prática desportiva e ajudar a manter a funcionalidade ao longo do tempo.
Referências
- Liu H-H, Lin L-H, Lin T-Y, Wu W-T, Chang K-V. Effects of Core-Inclusive Physical Training on Clubhead Speed in Golfers: A Systematic Review and Meta-Analysis. Life. 2026;16(10):1609. https://doi.org/10.3390/life16101609
- GolfersRx. Rotational Golf Exercises for your Golf Fitness Regime. Vídeo demonstrativo. Ver vídeo no YouTube
