Doença crónica e exercício: é mesmo necessário ter autorização médica para começar?

Doença crónica e exercício: é mesmo necessário ter autorização médica para começar? October 13, 2026Leave a comment

Quando uma pessoa vive com uma doença crónica e quer começar a fazer exercício, é muito frequente surgir uma primeira dúvida: “Tenho de ir primeiro ao médico para saber se posso treinar?”

Esta pergunta parece simples, mas a resposta nem sempre é.

Durante muitos anos, pessoas com doenças crónicas foram frequentemente encaminhadas para avaliação médica antes de iniciarem atividade física organizada. A intenção é compreensível: garantir segurança.

O problema surge quando este processo se transforma numa barreira desnecessária para pessoas que poderiam beneficiar de mais movimento.

Um estudo recentemente publicado no British Journal of Sports Medicine procurou precisamente encontrar uma forma mais adequada de lidar com esta questão. Investigadores, profissionais de saúde, representantes de doentes e outros intervenientes trabalharam em conjunto para desenvolver recomendações centradas na pessoa, destinadas a ajudar quem vive com doenças crónicas a tomar decisões mais informadas sobre atividade física.

Nem toda a pessoa com doença crónica precisa de uma autorização médica

Uma das ideias mais importantes deste trabalho é que a necessidade de avaliação médica antes da atividade física não deve ser automaticamente aplicada a todas as pessoas com uma doença crónica.

Os autores referem que orientações internacionais já indicam que a autorização médica de rotina é, em muitas situações, desnecessária.

Isto não significa que uma pessoa com doença crónica possa simplesmente começar qualquer tipo de exercício sem considerar o seu estado de saúde.

Significa algo diferente: o risco deve ser avaliado de forma proporcional à situação individual.

Uma pessoa com uma doença crónica estável, sem sintomas preocupantes e habituada a caminhar pode ter necessidades muito diferentes de outra pessoa com sintomas novos, agravamento recente ou uma condição cardiovascular ainda não avaliada.

O problema dos sistemas que encaminham demasiadas pessoas para avaliação médica

O estudo identificou uma questão importante nos processos atualmente utilizados.

Algumas ferramentas destinadas a avaliar se uma pessoa está preparada para fazer exercício acabam por encaminhar muitas pessoas para avaliação médica.

À primeira vista, isto parece uma boa estratégia de segurança.

Mas existe um efeito secundário.

Se cada pessoa com uma doença crónica precisar de uma consulta antes de poder participar numa atividade física organizada, podemos criar uma barreira precisamente para quem talvez mais beneficie de aumentar o movimento.

Uma consulta médica pode demorar semanas, pode ter custos e pode não estar facilmente acessível.

Durante esse período, a pessoa pode simplesmente não fazer nada.

E assim, uma ferramenta criada para aumentar a segurança pode acabar involuntariamente por diminuir a participação na atividade física.

As pessoas também têm medo de piorar os sintomas

Existe outra barreira que não depende dos profissionais de saúde.

É o medo da própria pessoa.

Durante o desenvolvimento destas recomendações, os participantes relataram preocupação com a possibilidade de a atividade física agravar os sintomas.

Esta preocupação é perfeitamente compreensível.

Se uma pessoa sente dor ao caminhar, falta de ar ao subir escadas ou fadiga depois de determinada atividade, pode concluir que o exercício é perigoso.

Mas a relação entre exercício e sintomas é mais complexa.

Sentir alguma coisa durante o exercício não significa automaticamente que esteja a ocorrer uma lesão.

Ao mesmo tempo, também não devemos assumir que todos os sintomas devem ser ignorados.

O importante é aprender a distinguir respostas esperadas ao esforço de sinais que justificam reduzir a intensidade, interromper a atividade ou procurar avaliação clínica.

O exercício precisa de ser adaptado à pessoa

Uma das principais mensagens deste estudo é a necessidade de uma abordagem centrada na pessoa.

Não basta saber que alguém tem diabetes, artrite, doença cardiovascular ou outra condição crónica.

Precisamos de perceber como essa condição se manifesta naquela pessoa.

Que sintomas apresenta?

Qual é a sua capacidade física atual?

Que atividades já consegue realizar?

O que pretende conseguir fazer?

Como reage ao esforço?

Que tipo de exercício pretende praticar?

Estas informações ajudam a decidir se é possível começar diretamente com atividade física ou se existe alguma razão concreta para procurar avaliação médica antes de aumentar a carga.

Nem sempre é necessário começar pelo exercício mais intenso

Outro erro frequente é pensar no exercício apenas em termos de treino formal.

Uma pessoa que passa grande parte do dia sentada não precisa necessariamente de começar por uma sessão intensa de ginásio.

Pode começar por caminhar.

Pode aumentar o número de pausas durante o trabalho.

Pode utilizar mais vezes as escadas.

Pode fazer exercícios simples de força.

Pode aumentar gradualmente o tempo em movimento.

A atividade física é muito mais ampla do que uma sessão de treino.

E, para algumas pessoas, esta distinção é fundamental para conseguir começar.

O que fazer quando existe dor musculoesquelética?

O estudo apresenta recomendações específicas para diferentes sintomas, incluindo a dor musculoesquelética.

Este ponto é particularmente interessante porque a dor é uma das principais razões pelas quais muitas pessoas reduzem a atividade física.

Quando existe uma dor num joelho, lombar, ombro ou outra região do corpo, a primeira reação pode ser evitar completamente o movimento.

Mas a ausência total de movimento pode contribuir para perda de força, redução da capacidade física e maior dificuldade em retomar as atividades.

Por isso, em muitos casos, a estratégia não passa por eliminar todo o exercício.

Passa por encontrar a dose de movimento que a pessoa consegue tolerar e progredir a partir daí.

A falta de ar também precisa de contexto

A falta de ar é outro exemplo interessante.

É normal aumentar a ventilação quando fazemos exercício.

Respirar mais depressa durante uma caminhada rápida ou durante uma sessão de treino não significa, por si só, que exista um problema.

Mas uma falta de ar desproporcional, nova, inexplicada ou acompanhada por outros sintomas pode justificar avaliação médica.

É precisamente aqui que uma boa orientação é importante.

Em vez de dizer simplesmente “não faça exercício se tiver falta de ar”, precisamos de ajudar a pessoa a compreender quando a resposta ao esforço é esperada e quando deve ser investigada.

E se houver palpitações ou dor no peito?

Nem todos os sintomas devem ser tratados da mesma forma.

O estudo inclui recomendações específicas para sintomas como dor torácica, palpitações, falta de ar, fadiga, diabetes e risco de quedas.

Quando surgem sintomas potencialmente relacionados com o coração, por exemplo, é particularmente importante avaliar o contexto.

Uma dor no peito durante o esforço, especialmente quando é nova, intensa ou acompanhada por falta de ar, tonturas, suor anormal ou mal-estar, não deve ser simplesmente interpretada como “falta de condição física”.

Nestas situações, procurar avaliação médica é uma medida de segurança.

A ideia de reduzir barreiras ao exercício não significa eliminar a avaliação médica quando ela é realmente necessária.

Segurança não significa criar obstáculos para toda a gente

Esta distinção é, provavelmente, uma das partes mais interessantes deste trabalho.

Podemos ter dois extremos.

Num extremo, temos uma abordagem excessivamente permissiva, em que qualquer pessoa começa um treino intenso sem avaliar sintomas ou fatores de risco relevantes.

No outro, temos uma abordagem excessivamente restritiva, em que praticamente qualquer diagnóstico de doença crónica conduz automaticamente a uma autorização médica.

Nenhum dos extremos parece ser particularmente útil.

O objetivo deveria ser encontrar um ponto intermédio: segurança baseada no risco real e não apenas no diagnóstico escrito no processo clínico.

O papel do Personal Trainer também muda

Para quem trabalha na área do exercício, esta abordagem tem implicações importantes.

Um Personal Trainer não deve tentar diagnosticar doenças nem substituir um médico.

Mas também não deve assumir que uma pessoa com uma doença crónica é automaticamente incapaz de treinar.

O seu papel passa por conhecer os seus limites de atuação, reconhecer sinais de alerta, adaptar o exercício à capacidade individual e encaminhar para avaliação clínica quando existe uma razão concreta para isso.

É uma diferença importante entre prescrever exercício de forma responsável e simplesmente aplicar um programa genérico.

Começar pequeno pode ser uma grande estratégia

Uma das melhores formas de ultrapassar barreiras à atividade física é reduzir a dificuldade inicial.

Se uma pessoa tem pouca condição física, começar com uma sessão de uma hora pode ser desnecessário.

Podemos começar com 10 ou 15 minutos.

Se a pessoa tolerar bem, podemos repetir.

Depois podemos aumentar gradualmente a duração, a frequência ou a intensidade.

O objetivo inicial não precisa de ser atingir imediatamente todas as recomendações de atividade física.

O primeiro objetivo pode ser simplesmente transformar o movimento numa parte regular da vida.

A autonomia também é parte da segurança

O estudo procurou desenvolver informação que permita às próprias pessoas tomar decisões mais informadas sobre a atividade física.

Isto é importante porque segurança não significa apenas dizer à pessoa o que pode ou não pode fazer.

Também significa ajudá-la a compreender o próprio corpo, reconhecer sinais relevantes e saber quando deve procurar ajuda.

Uma pessoa que compreende melhor a sua resposta ao exercício torna-se mais capaz de gerir a atividade física no dia a dia.

Isso pode ser particularmente importante em doenças crónicas, nas quais o objetivo não é apenas realizar uma sessão de exercício, mas manter uma vida fisicamente ativa durante muitos anos.

O que este estudo muda na prática?

Para mim, a principal mensagem é simples: não devemos transformar a doença crónica numa proibição automática de fazer exercício.

Devemos avaliar a pessoa.

Devemos perceber os sintomas.

Devemos identificar sinais de alerta.

Devemos adaptar a atividade à capacidade existente.

E devemos criar uma progressão suficientemente simples para que a pessoa consiga manter o comportamento.

Ao mesmo tempo, quando existem sintomas potencialmente preocupantes, o encaminhamento para avaliação médica continua a ser fundamental.

Conclusão

Um novo trabalho publicado no British Journal of Sports Medicine procurou reduzir barreiras desnecessárias à atividade física em pessoas que vivem com doenças crónicas.

Através de um processo de consenso envolvendo profissionais de saúde, pessoas com doença crónica, representantes de doentes e outros intervenientes, foram desenvolvidas recomendações centradas na pessoa.

A mensagem não é que todas as pessoas com doença crónica possam começar qualquer exercício sem avaliação.

A mensagem é mais equilibrada: a necessidade de avaliação médica deve depender da situação concreta e dos sintomas, e não simplesmente da existência de uma doença crónica.

Para muitas pessoas, criar demasiadas barreiras pode significar continuar sedentárias durante mais tempo.

Para outras, reconhecer sinais de alerta e procurar avaliação médica antes de aumentar a carga pode ser essencial.

O verdadeiro objetivo deve ser encontrar o equilíbrio entre segurança, autonomia e acesso à atividade física.

Posso ajudar?

Posso ajudá-lo a adaptar o exercício à sua condição, sintomas e capacidade atual, criando uma progressão segura, prática e sustentável sem transformar a doença crónica numa barreira ao movimento.

Referências

  • Ridout AJ, Reid H, Kelly P, Williamson C, Jones N. Removing barriers to physical activity for people with long-term conditions: co-creating patient-centred guidance through a multistakeholder consensus approach. British Journal of Sports Medicine. 2026;60(18):1382-1393.
  • DOI: 10.1136/bjsports-2025-111242.
  • PMID: 42790926.
  • PubMed – estudo original

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