Quando uma pessoa vive com fibromialgia, uma das primeiras perguntas que pode surgir é: qual é o melhor exercício para diminuir a dor?
Caminhar? Andar de bicicleta? Nadar? Fazer treino de força?
A resposta da investigação científica parece ser menos simples do que escolher uma única modalidade.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 comparou os efeitos do exercício aeróbio e do treino de resistência em pessoas com fibromialgia, analisando principalmente a dor e a qualidade de vida.
Os resultados são interessantes: tanto o exercício aeróbio como o treino de resistência parecem poder melhorar a dor e a qualidade de vida. No entanto, os investigadores não encontraram evidência consistente de que uma destas modalidades seja superior à outra.
O que é a fibromialgia?
A fibromialgia é uma condição associada a dor generalizada e persistente, frequentemente acompanhada por fadiga, alterações do sono, dificuldades de concentração e outros sintomas.
Uma das características que considero importantes compreender é que a fibromialgia não deve ser explicada simplesmente como um problema de um músculo, de uma articulação ou de uma determinada zona do corpo.
A experiência de dor resulta de uma interação complexa entre diferentes sistemas do organismo.
Por isso, quando uma pessoa com fibromialgia sente dor em várias regiões, não significa necessariamente que existam lesões ou danos estruturais em todos esses locais.
O sistema nervoso desempenha um papel fundamental na forma como os estímulos são processados e interpretados.
O que analisou esta revisão?
Os investigadores realizaram uma revisão sistemática com o objetivo de comparar os efeitos de duas grandes categorias de exercício: exercício aeróbio e treino de resistência.
Foram realizadas pesquisas em várias bases de dados científicas, incluindo PubMed, Cochrane, Scopus, Web of Science, CINAHL, PEDro e SciELO.
Depois do processo de seleção, apenas seis estudos cumpriram os critérios definidos para a revisão.
Este número é importante.
Uma revisão sistemática pode ser metodologicamente rigorosa e, ainda assim, apresentar conclusões limitadas quando existem poucos estudos disponíveis ou quando os estudos são muito diferentes entre si.
Foi precisamente isso que aconteceu neste trabalho: os investigadores encontraram benefícios associados às duas modalidades, mas existia alguma heterogeneidade entre os estudos.
O exercício aeróbio pode ajudar?
Sim.
O exercício aeróbio pode ser uma ferramenta útil para pessoas com fibromialgia.
Caminhar, pedalar, nadar ou realizar outras atividades que aumentem progressivamente a capacidade cardiovascular podem contribuir para melhorar a condição física e, em algumas pessoas, reduzir a intensidade da dor.
Mas existe uma questão importante: o exercício aeróbio não deve ser obrigatoriamente intenso para ser útil.
Uma pessoa que está muito descondicionada ou que apresenta elevada fadiga pode não tolerar inicialmente uma sessão longa.
Nesse caso, começar com períodos curtos de atividade pode ser uma estratégia muito mais realista.
O objetivo inicial pode simplesmente ser aumentar a exposição ao movimento sem provocar uma resposta exagerada de fadiga ou dor.
E o treino de força?
O treino de resistência também apresentou resultados positivos na revisão.
Esta é uma informação particularmente interessante porque algumas pessoas com dor persistente têm receio de utilizar cargas.
Existe por vezes a ideia de que, se existe dor, devemos proteger o corpo e evitar esforços musculares mais exigentes.
Mas o músculo também precisa de estímulo para desenvolver capacidade.
Um programa de treino de força devidamente adaptado pode permitir melhorar a capacidade de produzir força, realizar tarefas diárias e tolerar progressivamente maiores níveis de atividade.
Não significa começar imediatamente com cargas elevadas.
Significa encontrar uma dose de exercício que a pessoa consiga tolerar e, posteriormente, aumentar essa capacidade de forma progressiva.
Então qual é melhor: força ou cardio?
É precisamente aqui que este estudo se torna interessante.
A revisão não encontrou diferenças consistentes que permitam afirmar que o exercício aeróbio é superior ao treino de resistência, ou vice-versa, para melhorar a dor e a qualidade de vida.
Por isso, não considero que a pergunta mais útil seja “qual dos dois é melhor?”.
Para muitas pessoas, a pergunta poderá ser:
“Qual é o exercício que consigo realizar de forma consistente e que me permite aumentar progressivamente a minha capacidade?”
Essa mudança de perspetiva pode ser muito importante.
A importância da individualização
Duas pessoas com fibromialgia podem apresentar sintomas completamente diferentes.
Uma pode sentir sobretudo dor muscular e fadiga. Outra pode ter maior dificuldade com o sono. Outra pode tolerar bem a caminhada mas sentir grande desconforto depois de uma sessão de treino de força.
Por isso, não gosto da ideia de existir um protocolo universal.
O exercício deve ser adaptado à capacidade atual da pessoa.
Podemos ajustar a duração, intensidade, frequência, volume, número de exercícios, intervalos de descanso e até a complexidade dos movimentos.
O mesmo exercício pode ser adequado para uma pessoa e demasiado exigente para outra.
A resposta do dia seguinte também interessa
Na minha experiência, quando trabalho com pessoas que apresentam dor persistente, não avalio apenas o que acontece durante o exercício.
Também quero perceber o que acontece depois.
Como ficou algumas horas mais tarde?
Como acordou no dia seguinte?
A fadiga aumentou significativamente?
A dor voltou ao nível habitual ou ficou claramente pior?
Conseguiu manter as atividades normais?
Estas respostas ajudam-nos a perceber se a dose de exercício foi adequada.
O objetivo não é encontrar uma sessão que a pessoa consiga suportar apenas naquele momento.
É encontrar uma dose que permita treinar hoje e continuar a treinar amanhã.
Mais exercício nem sempre significa melhores resultados
Quando alguém está motivado para melhorar, pode existir a tentação de aumentar rapidamente a quantidade de exercício.
Mas em condições associadas a dor persistente e fadiga, aumentar demasiado depressa pode dificultar a continuidade.
Por isso, a progressão deve ser construída de acordo com a resposta individual.
Podemos começar com cinco ou dez minutos de atividade e aumentar progressivamente.
Podemos começar o treino de força com poucos exercícios e poucas séries.
Podemos utilizar cargas muito moderadas e aumentá-las à medida que a capacidade melhora.
Não há qualquer problema em começar abaixo daquilo que a pessoa imagina ser necessário.
O objetivo é criar uma base sobre a qual seja possível construir.
O exercício não deve ser visto apenas como tratamento da dor
Outro ponto importante é que os benefícios do exercício não devem ser avaliados apenas através da intensidade da dor.
Imagine uma pessoa que passa a conseguir subir dois pisos de escadas sem parar, carregar as compras, caminhar durante 30 minutos ou realizar tarefas domésticas que anteriormente evitava.
Mesmo que a dor não tenha desaparecido completamente, houve uma melhoria importante.
É por isso que gosto de avaliar também a capacidade funcional.
Reduzir a dor é importante, mas recuperar a possibilidade de participar nas atividades que dão significado à vida também deve ser um objetivo.
O papel da preferência da pessoa
A revisão também reforça uma ideia que considero muito prática: a escolha do exercício deve considerar a pessoa e não apenas o diagnóstico.
Se alguém gosta de caminhar, a caminhada pode ser uma excelente ferramenta.
Se outra pessoa prefere bicicleta, podemos utilizar a bicicleta.
Se outra gosta de treinar com pesos, o treino de resistência pode ser uma excelente opção.
E não é necessário escolher apenas uma modalidade.
Podemos combinar exercício aeróbio e treino de força, desde que a quantidade total seja adequada à capacidade de recuperação da pessoa.
O que podemos retirar deste estudo?
A principal mensagem desta revisão é simples: não existe evidência consistente de que uma única modalidade de exercício seja claramente superior às outras para todas as pessoas com fibromialgia.
Tanto o exercício aeróbio como o treino de resistência podem contribuir para melhorar a dor e a qualidade de vida.
Mas a evidência disponível ainda é limitada, porque apenas seis estudos foram incluídos e existia alguma heterogeneidade entre eles.
Na prática, isso significa que devemos evitar receitas universais.
Devemos avaliar a pessoa, perceber aquilo que consegue fazer atualmente e construir progressivamente a sua capacidade.
Para alguém com fibromialgia, o melhor exercício pode não ser o exercício que apresenta os melhores resultados num protocolo científico.
Pode ser aquele que a pessoa consegue realizar, recuperar e repetir de forma consistente.
O objetivo não é encontrar o exercício perfeito. É encontrar a dose certa de movimento para aquela pessoa e ajudá-la a aumentar progressivamente a sua capacidade.
Posso ajudar?
Ajudo pessoas com dor persistente a recuperar movimento, força e confiança através de exercício individualizado, ajustando progressivamente a carga à sua capacidade.
Referências
- Freitas ALF, Camargo EC, Caldeira AMR, Maiello BDL, Oliveira LV, Rocha ES. Exercise on Pain and Quality of Life in Fibromyalgia: Systematic Review. Pain Management Nursing. 2026.
- PubMed – Exercise on Pain and Quality of Life in Fibromyalgia: Systematic Review
- DOI – 10.1016/j.pmn.2026.09.011