Durante muitos anos ouvimos dizer que o cérebro adulto já não conseguia criar novos neurónios.
A ideia era simples: nascemos com os neurónios que iremos utilizar durante toda a vida e, a partir daí, o cérebro apenas os perderia progressivamente.
Hoje sabemos que esta visão é demasiado simples.
O cérebro adulto mantém capacidade de adaptação e reorganização. Este fenómeno, conhecido como neuroplasticidade, permite modificar ligações entre neurónios e adaptar circuitos nervosos em resposta à experiência, à aprendizagem e ao ambiente.
Existe ainda uma questão mais específica: a neurogénese adulta, ou seja, a formação de novos neurónios depois do desenvolvimento inicial.
É neste ponto que o exercício se torna particularmente interessante.
O exercício pode estimular novos neurónios?
As evidências experimentais indicam que o exercício pode estimular a neurogénese no hipocampo, uma região do cérebro envolvida em processos relacionados com aprendizagem e memória.
Grande parte desta evidência vem de estudos realizados em animais. Nestes modelos, diferentes formas de atividade física, especialmente o exercício aeróbio, foram associadas a alterações na proliferação e sobrevivência de células precursoras de neurónios no hipocampo.
Uma revisão publicada em 2026 voltou a analisar este fenómeno e descreve vários mecanismos através dos quais o exercício pode influenciar a neurogénese hipocampal, incluindo alterações no ambiente químico do cérebro e na regulação das células estaminais neurais.
Mas existe uma distinção importante.
“O exercício está associado a mecanismos que podem favorecer a neurogénese” não é exatamente o mesmo que dizer “se fizer exercício vai criar novos neurónios”.
É esta diferença que considero importante esclarecer.
O hipocampo e a memória
O hipocampo é uma estrutura cerebral particularmente importante para determinados processos de aprendizagem e memória.
Também participa na formação e organização de memórias e na capacidade de distinguir experiências e contextos semelhantes.
Por isso, quando estudamos a relação entre exercício, neurogénese e cognição, o hipocampo aparece frequentemente como uma das estruturas de maior interesse.
Não significa que toda a nossa capacidade cognitiva dependa da criação de novos neurónios.
O funcionamento do cérebro resulta da interação de inúmeras regiões, redes neuronais, neurotransmissores, vasos sanguíneos, células de suporte e processos metabólicos.
A neurogénese é apenas uma peça deste sistema.
O cérebro também se adapta ao treino
Quando pensamos em treino, normalmente pensamos no músculo.
Fazemos força e o músculo adapta-se. Repetimos um movimento e melhoramos a sua execução. Aumentamos a carga e, dentro das condições adequadas, desenvolvemos determinadas capacidades.
Algo semelhante acontece no sistema nervoso.
Aprender um movimento, praticar uma habilidade ou repetir uma determinada tarefa implica alterações no funcionamento das redes neuronais.
É uma das razões pelas quais a aprendizagem motora é possível.
O cérebro não é uma estrutura estática.
Treinar também é ensinar o sistema nervoso.
Exercício e fatores que favorecem o cérebro
Uma das explicações para os efeitos do exercício sobre o cérebro passa pelos chamados fatores neurotróficos.
Entre eles encontra-se o BDNF, ou fator neurotrófico derivado do cérebro, uma proteína envolvida na sobrevivência, funcionamento e plasticidade das células nervosas.
O exercício pode influenciar o ambiente neuroquímico e metabólico que suporta a função cerebral. Também pode alterar fatores relacionados com a vascularização, metabolismo, inflamação e sinalização hormonal.
Existem vários estudos que analisam a relação entre as respostas hormonais ao exercício e a neurogénese hipocampal, incluindo possíveis papéis de fatores como BDNF, IGF-1, VEGF, irisina e outros mediadores.
Não devemos, contudo, transformar esta lista de mecanismos numa promessa clínica.
O facto de uma molécula estar envolvida num processo não significa que aumentar artificialmente essa molécula vá produzir automaticamente uma melhoria cognitiva.
O exercício aeróbio é o mais importante?
Grande parte dos estudos clássicos sobre exercício e neurogénese utilizou corrida ou outras formas de exercício aeróbio.
Em modelos animais, a corrida voluntária tornou-se uma das formas mais utilizadas para estudar a relação entre atividade física e neurogénese.
Mas isso não significa que o treino de força não seja importante para o cérebro.
O treino de força produz adaptações neuromusculares, metabólicas e funcionais que também podem contribuir para a saúde global e para a manutenção da capacidade funcional.
O problema está em tentar encontrar “o melhor exercício para criar neurónios”.
Provavelmente estamos a fazer a pergunta errada.
Mais importante do que procurar um exercício mágico é manter uma vida fisicamente ativa e combinar diferentes formas de exercício adequadas às características da pessoa.
E o exercício intenso?
Também não podemos concluir que quanto mais intenso for o treino, maior será a neurogénese.
A resposta do organismo ao exercício depende da intensidade, duração, frequência, recuperação e estado individual.
Além disso, exercício e stress fisiológico não são exatamente a mesma coisa.
Uma dose adequada de exercício pode produzir uma resposta adaptativa positiva. Um excesso de carga, associado a recuperação insuficiente, pode ter consequências muito diferentes.
Por isso, não procuraria treinar no máximo possível com o objetivo específico de estimular o cérebro.
Consistência provavelmente é mais interessante do que procurar constantemente o estímulo máximo.
Mas conseguimos provar que os humanos criam novos neurónios?
Aqui entramos numa das questões mais interessantes e também mais controversas da neurociência.
A existência de neurogénese no cérebro humano adulto tem sido objeto de debate científico durante décadas.
Existem estudos que identificaram células e marcadores compatíveis com neurogénese no hipocampo humano adulto, enquanto outros trabalhos questionaram a quantidade e a persistência deste processo.
Uma revisão publicada em 2019 descreveu os avanços nesta área e destacou precisamente a controvérsia existente na demonstração da neurogénese humana adulta.
Por isso, prefiro não escrever que sabemos exatamente quantos neurónios novos uma pessoa cria depois de começar a treinar.
Não sabemos.
O que sabemos com muito mais segurança é que o exercício está associado a alterações benéficas em vários mecanismos relacionados com a saúde cerebral e a função cognitiva.
Exercício e memória
Uma das razões pelas quais este tema é tão interessante é a relação entre atividade física e função cognitiva.
Revisões anteriores encontraram associações entre exercício, neurogénese hipocampal e preservação de determinadas funções cognitivas.
O exercício tem sido descrito como um estímulo importante da neurogénese hipocampal em modelos experimentais e como potencialmente relevante para a preservação da função cognitiva durante o envelhecimento.
Mais uma vez, é importante separar associação de causalidade.
Não podemos dizer simplesmente que uma melhoria da memória acontece porque o exercício criou novos neurónios.
O exercício pode atuar através de vários mecanismos em simultâneo.
O exercício pode melhorar o ambiente onde o cérebro funciona
Mesmo que deixemos de lado a questão da criação de novos neurónios, existe uma razão muito forte para continuar a treinar.
O exercício influencia vários sistemas que suportam o funcionamento cerebral.
A atividade física regular pode melhorar a saúde cardiovascular, a capacidade de transporte de oxigénio, a regulação metabólica e a função vascular.
Também pode influenciar mecanismos relacionados com inflamação, stress e sinalização entre diferentes órgãos.
O cérebro não funciona isoladamente.
Um cérebro saudável depende também de um organismo capaz de o sustentar.
Treinar o corpo para proteger o cérebro?
Esta é uma ideia que considero particularmente interessante.
Quando treinamos, não estamos apenas a trabalhar os músculos que conseguimos ver.
Estamos a criar estímulos que envolvem o coração, os vasos sanguíneos, os músculos, o sistema nervoso, o metabolismo e o cérebro.
Existe uma comunicação constante entre estes sistemas.
Alguns dos efeitos do exercício sobre o cérebro podem resultar precisamente desta comunicação entre músculo, circulação, metabolismo e sistema nervoso.
É uma das áreas que atualmente desperta bastante interesse na investigação.
E quando combinamos exercício físico com aprendizagem?
Aqui encontramos outra possibilidade interessante.
Se queremos estimular o sistema nervoso, não precisamos de limitar o treino a movimentos repetitivos.
Podemos introduzir exercícios que exijam atenção, coordenação, equilíbrio, tomada de decisão e aprendizagem de novas habilidades.
Aprender um movimento novo obriga a pessoa a interpretar informação, organizar uma resposta e corrigir o movimento com base no resultado obtido.
É uma forma diferente de desafio.
Na minha experiência, especialmente com pessoas mais velhas, gosto de introduzir progressivamente tarefas que obriguem a pessoa a pensar e a adaptar-se, em vez de repetir sempre exatamente a mesma sequência.
O treino não precisa de ser complicado
Existe uma tendência para pensar que, se queremos estimular o cérebro, precisamos de exercícios extremamente complexos.
Não concordo.
Um exercício simples pode tornar-se cognitivamente interessante se alterarmos uma variável.
Podemos mudar a direção, a velocidade, a posição, o apoio, a sequência ou a tarefa realizada em simultâneo.
Mas a complexidade deve ser adequada à pessoa.
Um exercício demasiado difícil deixa de ser uma oportunidade de aprendizagem e pode transformar-se simplesmente numa tarefa frustrante ou insegura.
Treinar para o cérebro não é treinar apenas a cabeça
Quando falamos de saúde cerebral, é fácil cair na ideia de que precisamos de fazer exercícios específicos para o cérebro.
Eu prefiro uma abordagem mais abrangente.
Caminhar, correr, fazer treino de força, praticar uma modalidade desportiva, aprender um novo movimento ou melhorar o equilíbrio são formas diferentes de utilizar o sistema nervoso.
O importante é manter o organismo ativo e continuar a aprender.
O que mudou desde que escrevi este artigo?
Quando este texto foi originalmente escrito, a ideia de que o exercício poderia estimular a criação de novos neurónios era particularmente apelativa.
Hoje temos muito mais informação sobre os mecanismos envolvidos, mas também percebemos melhor os limites daquilo que podemos afirmar.
Sabemos que o exercício pode influenciar a neurogénese hipocampal, sobretudo a partir de modelos experimentais.
Sabemos que existe uma relação entre exercício, plasticidade cerebral e função cognitiva.
Mas não podemos prometer que determinado treino vai produzir uma quantidade específica de novos neurónios no cérebro de uma pessoa.
A ciência ainda não permite essa conclusão.
Então vale a pena treinar para o cérebro?
Sem dúvida.
Mesmo que retirássemos completamente a neurogénese da equação, continuariam a existir muitas razões para praticar exercício.
Melhorar a força, manter a capacidade cardiovascular, preservar a mobilidade, melhorar o equilíbrio e manter a autonomia são objetivos suficientemente importantes.
E quando acrescentamos a possibilidade de o exercício contribuir para mecanismos de plasticidade cerebral e para a manutenção da função cognitiva, a importância de continuar ativo torna-se ainda maior.
Conclusão
O título deste artigo — “Treinar para criar novos neurónios” — continua a ser uma boa forma de chamar a atenção para uma área fascinante da ciência.
Mas hoje acrescentaria uma ressalva.
Não treinamos porque conseguimos contar os novos neurónios que vamos produzir.
Treinamos porque o exercício cria um conjunto de estímulos que podem ajudar a manter o organismo e o cérebro mais capazes.
A neurogénese é apenas uma parte desta história.
A verdadeira mensagem é talvez ainda mais interessante: o cérebro adulto não é uma estrutura imutável.
Continua a adaptar-se ao que fazemos.
E cada vez que aprendemos, nos movimentamos, treinamos ou enfrentamos uma tarefa nova, estamos a dar ao sistema nervoso informação com a qual trabalhar.
Por isso, não precisamos de procurar o exercício que “cria mais neurónios”.
Precisamos de continuar a dar ao cérebro boas razões para se adaptar.
Posso ajudar?
Posso ajudá-lo a construir um treino que combine força, mobilidade, equilíbrio, coordenação e aprendizagem motora, adaptado à sua condição e aos seus objetivos.
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Referências
- Wang X-T, Wang J, Zhao X-J. Exercise training promotes neurogenesis in the adult hippocampus with a particular focus on cell cycle regulation. Frontiers in Sports and Active Living. 2026.
- Kraemer RR, Kraemer BR. The effects of peripheral hormone responses to exercise on adult hippocampal neurogenesis. Frontiers in Endocrinology. 2023.
- Zalouli V, et al. Adult hippocampal neurogenesis and physical exercise. Biomedicine & Pharmacotherapy. 2023.
- Physical exercise: bulking up neurogenesis in human adults. 2019.
- Ma C-L, et al. Physical exercise induces hippocampal neurogenesis and prevents cognitive decline. Behavioural Brain Research. 2017.
Nota: Este artigo foi originalmente escrito numa fase em que o conhecimento sobre neurogénese adulta e exercício era ainda mais limitado. Esta versão foi revista e atualizada de acordo com a evidência científica atualmente disponível.