A falta de tempo continua a ser uma das razões mais frequentemente apontadas por quem não pratica exercício físico com regularidade.
Entre trabalho, família, deslocações e responsabilidades do dia a dia, muitas pessoas acabam por adiar o treino para aquele momento ideal que raramente aparece.
Foi precisamente a partir desta ideia que nasceu o Fitness Energy: um conceito de treino baseado em sessões curtas, simples e fáceis de integrar na rotina diária.
A proposta original era muito simples: 10 minutos de exercício podem ser melhores do que esperar por uma hora livre que nunca chega.
Hoje, com o conhecimento que temos sobre exercício e saúde, continuo a considerar esta ideia interessante, mas faria uma ressalva importante: dez minutos podem ser um excelente ponto de partida ou um complemento ao treino, mas não devem ser apresentados como uma solução universal para todas as necessidades de exercício.
O conceito Fitness Energy
O Fitness Energy foi desenvolvido como um programa constituído por seis treinos de 10 minutos, procurando tornar o exercício mais acessível e mais fácil de manter.
A grande vantagem de uma sessão curta é precisamente a sua simplicidade.
Não é necessário reservar uma hora, deslocar-se ao ginásio ou transformar o treino num acontecimento complicado.
Dez minutos podem caber antes do trabalho, durante uma pausa, ao chegar a casa ou como complemento de outra atividade física.
Esta característica pode parecer pouco importante, mas na prática pode fazer uma diferença enorme.
Um programa teoricamente perfeito que nunca é realizado vale menos do que um programa simples que a pessoa consegue repetir durante meses.
Dez minutos de exercício são suficientes?
Esta é provavelmente a pergunta que mais interessa esclarecer atualmente.
A resposta é: depende do objetivo.
Dez minutos podem proporcionar um estímulo de treino interessante. Podem permitir trabalhar força, resistência muscular, mobilidade, coordenação ou capacidade cardiovascular, dependendo da forma como são utilizados.
Também podem ser uma excelente estratégia para uma pessoa sedentária começar a mexer-se.
Mas dez minutos por dia não devem ser confundidos com a totalidade das recomendações atuais de atividade física para adultos.
A Organização Mundial da Saúde recomenda, de forma geral, entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbia moderada, ou entre 75 e 150 minutos de atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias por semana.
Por isso, vejo os 10 minutos como uma unidade prática de treino, e não como uma regra que determine tudo aquilo que uma pessoa deve fazer.
O valor de começar com pouco
Existe uma tendência para pensar que, se não conseguimos fazer um treino completo, mais vale não fazer nada.
Na minha experiência, este pensamento é frequentemente um obstáculo.
Uma pessoa que diz “hoje não tenho tempo para treinar” pode transformar facilmente esse dia numa semana, depois num mês e, finalmente, abandonar completamente a rotina.
Uma sessão de 10 minutos pode quebrar esse ciclo.
Pode não ser o treino ideal, mas mantém o comportamento.
E manter o comportamento é particularmente importante quando estamos a tentar construir um hábito.
Treino curto não significa treino sem qualidade
Uma sessão curta também pode ser bem estruturada.
O erro seria pensar que, por durar apenas 10 minutos, temos de transformar o treino numa sequência caótica de exercícios realizados à máxima velocidade.
Não é necessário.
Podemos utilizar exercícios relativamente simples e trabalhar diferentes padrões de movimento, selecionando aqueles que fazem sentido para a pessoa.
Agachar, empurrar, puxar, transportar, estabilizar, levantar, deslocar-se ou trabalhar movimentos específicos pode ser organizado dentro de uma sessão curta.
A dificuldade está em escolher o estímulo certo para o tempo disponível.
Quando o tempo é limitado, a seleção dos exercícios e a organização da sessão tornam-se ainda mais importantes.
Força: uma das prioridades
Um dos objetivos do Fitness Energy era trabalhar a força e a resistência muscular.
Essa preocupação mantém-se perfeitamente atual.
A força muscular é importante para o desempenho desportivo, mas também para tarefas aparentemente banais: levantar uma cadeira, subir escadas, transportar compras, levantar uma criança ou simplesmente manter a autonomia ao longo dos anos.
Num treino curto, podemos utilizar exercícios que envolvam vários grupos musculares ao mesmo tempo.
Quando bem escolhidos, estes exercícios permitem aproveitar melhor cada minuto disponível.
Para alguém que pretende desenvolver força ou massa muscular, no entanto, dez minutos podem não ser suficientes para realizar todo o volume de treino necessário. Nesse caso, o Fitness Energy pode funcionar como complemento de sessões mais completas.
Treinos curtos e condição cardiovascular
O exercício cardiovascular também pode ser realizado em períodos relativamente curtos.
Caminhar rapidamente, subir escadas, pedalar, correr, remar ou realizar determinados circuitos são possibilidades diferentes.
A intensidade pode ser ajustada à condição física da pessoa.
Uma pessoa sedentária pode começar simplesmente com uma caminhada de 10 minutos. Outra pessoa, já treinada, poderá utilizar esse mesmo período para realizar um estímulo cardiovascular mais exigente.
O mesmo relógio mede 10 minutos para ambas, mas o estímulo fisiológico não é necessariamente o mesmo.
É por isso que tempo e intensidade não podem ser analisados separadamente.
Podemos dividir o exercício durante o dia?
Sim.
Esta é uma das ideias que considero mais interessantes quando falamos de falta de tempo.
Em vez de pensar que precisamos obrigatoriamente de uma sessão longa, podemos acumular períodos de atividade ao longo do dia.
Por exemplo, uma pessoa pode realizar 10 minutos de treino de força de manhã, caminhar durante 10 ou 15 minutos depois do almoço e fazer outra caminhada ao final do dia.
Não é exatamente a mesma coisa que uma sessão contínua, porque o contexto e o estímulo podem ser diferentes, mas é uma forma prática de aumentar a atividade física diária.
A investigação recente sobre sessões curtas de exercício acumuladas ao longo do dia reforça precisamente o interesse desta estratégia, incluindo a possibilidade de interromper períodos prolongados de comportamento sedentário. ([PubMed](https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40972791/?utm_source=chatgpt.com))
O treino curto pode ajudar a criar consistência
Para mim, esta é talvez a principal mensagem do Fitness Energy.
O exercício não precisa de ser perfeito para ser útil.
Precisa de ser suficientemente adequado para poder ser repetido.
Uma pessoa que treina 10 minutos três ou quatro vezes por semana está a construir uma relação diferente com o exercício daquela que passa semanas sem fazer nada à espera de conseguir começar um programa perfeito.
Com o tempo, esses 10 minutos podem transformar-se em 15, 20 ou 30.
Ou podem manter-se como complemento de outras atividades.
O importante é que o treino se torne parte da vida e não mais uma obrigação impossível de encaixar.
Nem todos precisam do mesmo treino
Uma das limitações de qualquer programa pré-definido é assumir que todas as pessoas respondem da mesma maneira.
Não respondem.
Idade, experiência, força, mobilidade, histórico de lesões, objetivos, sono, stress e condição física influenciam a forma como devemos organizar o treino.
Por isso, mesmo dentro de uma proposta simples de 10 minutos, podemos alterar exercícios, amplitudes, cargas, velocidade, pausas e número de repetições.
Na minha experiência, esta capacidade de adaptação é mais importante do que seguir rigidamente uma sequência.
O que pode caber em 10 minutos?
Depende da pessoa e do objetivo.
Podemos, por exemplo, utilizar 10 minutos para trabalhar alguns exercícios de força, mobilidade ou controlo motor.
Também podemos utilizar o tempo para um circuito simples, uma caminhada rápida ou um trabalho específico complementar ao treino principal.
Para alguém que já treina regularmente, os 10 minutos podem ser utilizados para reforçar uma determinada capacidade que ficou menos trabalhada.
Para alguém que está a começar, podem representar simplesmente os primeiros passos para sair de uma rotina sedentária.
O valor dos 10 minutos está menos no número em si e mais naquilo que conseguimos fazer com eles.
O Fitness Energy e a vida real
Quando criei este conceito, a intenção era responder a uma dificuldade muito concreta: a falta de tempo.
Essa dificuldade continua extremamente atual.
Mas hoje acrescentaria outra ideia: não devemos organizar o treino apenas de acordo com aquilo que seria teoricamente ideal. Devemos também considerar aquilo que a pessoa consegue realmente fazer.
Se alguém tem disponibilidade para treinar uma hora, podemos aproveitar essa disponibilidade.
Se tem apenas 10 minutos, podemos trabalhar com esses 10 minutos.
Se num determinado dia só consegue caminhar, caminhamos.
Se tem energia para um treino mais completo, podemos aumentar o estímulo.
É esta capacidade de adaptação que permite transformar o exercício numa prática sustentável.
Dez minutos podem ser o início, não o fim
Não gostaria que este artigo fosse interpretado como uma defesa de que toda a gente deve treinar apenas 10 minutos por dia.
Não é isso.
As recomendações atuais apontam para uma quantidade de atividade física semanal bastante superior e destacam também a importância do treino de força.
A mensagem que considero mais importante é outra:
não deixe que a falta de tempo o impeça de começar.
Se tem 60 minutos, aproveite-os.
Se tem 30, faça 30.
Se hoje só tem 10, faça 10.
E amanhã volte a mexer-se.
Conclusão
O Fitness Energy nasceu de uma ideia simples: tornar o exercício mais acessível através de sessões de apenas 10 minutos.
Com o conhecimento atual, sabemos que esses 10 minutos não substituem necessariamente todo o volume de atividade física recomendado. Mas também sabemos que alguma atividade é melhor do que nenhuma e que períodos curtos de exercício podem ser uma ferramenta útil para aumentar a atividade física e reduzir o sedentarismo.
Mais do que procurar o treino perfeito, devemos procurar uma solução que consigamos manter.
Dez minutos podem ser pouco.
Mas também podem ser exatamente os 10 minutos que faltavam para começar.
Posso ajudar?
Posso ajudá-lo a organizar treinos curtos ou completos, ajustados ao seu tempo, condição física, objetivos e limitações, para que o exercício seja eficaz e sustentável.
Leia também
- Fitness Sénior: exercício para manter a força, mobilidade e autonomia
- Recuperação do treino: ativa ou passiva?
- Benefícios da instabilidade na BOSU
Referências
- World Health Organization. Physical activity.
- World Health Organization. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour: at a glance.
- Short bouts of accumulated exercise: Review and consensus statement on definition, efficacy, feasibility, practical applications, and future directions.
- Androulakis-Korakakis P, et al. No Time to Lift? Designing Time-Efficient Training Programs for Strength and Hypertrophy.
- Systematic review and meta-analysis of supersets versus traditional resistance training prescriptions.
Nota: Este artigo recupera e atualiza o conceito original do Fitness Energy, mantendo a ideia central de tornar o exercício mais acessível, mas enquadrando-a à luz das recomendações e da evidência científica atualmente disponíveis.