Falar connosco próprios: o que a ciência revela sobre a fala interior, o cérebro e a atenção

Falar connosco próprios: o que a ciência revela sobre a fala interior, o cérebro e a atenção October 27, 2026Leave a comment

Todos conhecemos a experiência de pensar numa frase sem a dizer em voz alta. Podemos contar mentalmente, preparar uma conversa ou repetir instruções enquanto executamos uma tarefa. Esta capacidade, conhecida como fala interior, faz parte da nossa vida cognitiva, mas a sua relação com a ativação do cérebro continua a ser investigada.

Um estudo publicado na revista científica iScience, em 2026, analisou a relação entre a fala interior, a fala em voz alta e as alterações no diâmetro das pupilas. Os resultados mostram que pensar silenciosamente não produz sempre a mesma resposta fisiológica e que a complexidade da tarefa parece ter importância.

Como foi realizado o estudo?

Os investigadores realizaram três experiências com tarefas de contagem. Os participantes alternaram entre períodos de repouso, contagem em voz alta e contagem silenciosa, sem pronunciar as palavras.

Durante as tarefas, um sistema de seguimento ocular registou continuamente o diâmetro das pupilas. Esta técnica, conhecida como pupilometria, permite observar pequenas alterações que podem acompanhar mudanças na atenção, no esforço cognitivo e no estado de ativação fisiológica.

As experiências utilizaram diferentes níveis de exigência mental. Numa condição, os participantes contavam números consecutivos. Noutra, utilizavam expressões numéricas com estrutura linguística. Na terceira, contavam com incrementos de dois, três ou quatro, exigindo maior manipulação mental da sequência.

O que aconteceu às pupilas?

Na contagem em voz alta, as pupilas dilataram-se de forma consistente nas três experiências. Na fala interior, a resposta foi diferente consoante a tarefa realizada.

  • Contagem simples: as pupilas contraíram-se em relação à linha de base.
  • Contagem com expressões linguísticas: não se observou uma alteração clara em relação à linha de base.
  • Contagem por incrementos: verificou-se uma dilatação das pupilas, associada a uma tarefa mental mais exigente.

Apesar destas diferenças, o diâmetro pupilar durante a fala interior permaneceu inferior ao observado durante a fala em voz alta.

Estes resultados sugerem que a produção mental de palavras pode envolver níveis diferentes de ativação fisiológica, dependendo da exigência cognitiva. Não significam, porém, que seja possível medir diretamente a quantidade de pensamento através do tamanho da pupila.

Figura 1 — Como os investigadores organizaram a experiência

O protocolo comparou três condições: ausência de pensamento deliberado, fala em voz alta e fala interior. Cada período de tarefa foi precedido por um intervalo de repouso, permitindo comparar as alterações pupilares com uma referência inicial.

Consultar a Figura 1 original e a descrição do protocolo experimental no artigo científico.

Figura 2 — A resposta pupilar depende da tarefa

Os investigadores representaram a evolução do diâmetro pupilar ao longo do tempo e compararam as alterações médias nas três condições experimentais. Os resultados mostram que a fala interior não provoca uma resposta uniforme: a direção e a magnitude da alteração variam com a tarefa realizada.

Consultar a Figura 3 original, com os gráficos das respostas pupilares nas três experiências.

O que significa isto para a atenção e o controlo do movimento?

O interesse deste estudo vai além da linguagem. Quando executamos uma tarefa motora, podemos estar simultaneamente a pensar nas instruções, a antecipar o movimento ou a avaliar o resultado da ação. Estas atividades exigem diferentes recursos cognitivos.

Imagine uma pessoa a aprender um exercício novo. Pode repetir mentalmente as instruções, concentrar-se na posição do corpo e tentar corrigir a execução. Noutro momento, quando o movimento já é familiar, poderá realizá-lo com menos necessidade de orientação verbal consciente.

Esta é uma aplicação prática plausível do conhecimento sobre a fala interior, mas importa fazer uma distinção: o estudo não investigou diretamente o treino físico, a aprendizagem motora ou o desempenho desportivo. Não podemos concluir que falar mentalmente durante um exercício melhora ou prejudica a sua execução com base nestes resultados.

Podemos utilizar as pupilas para medir o esforço mental?

As alterações pupilares são um indicador útil em investigação, mas não são específicas do esforço cognitivo. A luminosidade, o estado emocional, a fadiga e outros fatores fisiológicos também podem alterar o diâmetro da pupila.

Por isso, a pupilometria deve ser interpretada em conjunto com as características da tarefa e com outras medidas relevantes. Uma pupila maior não significa automaticamente maior concentração, melhor desempenho ou maior inteligência.

Também não devemos confundir a ativação fisiológica com a qualidade do pensamento. Uma pessoa pode executar uma tarefa com eficácia sem apresentar a mesma resposta pupilar de outra pessoa.

Conclusão

Esta investigação acrescenta informação sobre a relação entre fala interior e ativação fisiológica. A fala em voz alta provocou dilatação pupilar consistente, enquanto a fala interior apresentou respostas variáveis, dependendo da complexidade da contagem mental.

Na minha perspetiva, este tipo de investigação ajuda-nos a compreender que a atenção e o comportamento não dependem de um único mecanismo. O contexto, a exigência da tarefa e a forma como processamos a informação podem influenciar a resposta do organismo.

Para quem trabalha com exercício físico, a principal lição é manter uma abordagem cuidadosa: compreender os processos cognitivos pode ajudar a formular melhores perguntas sobre a aprendizagem e o controlo motor, mas as aplicações práticas precisam de ser confirmadas por estudos especificamente concebidos para as testar.

Vídeo sobre a fala interior e a cognição

Para aprofundar o tema, recomendo a palestra académica de Peter Carruthers sobre fala interior, disponível na página do Center for Mind & Cognition. O vídeo aborda diferentes perspetivas sobre a forma como a linguagem participa no pensamento.

Ver a palestra “Peter Carruthers — The Interpretative Sensory-Access Theory of Self-Knowledge: Inner Speech”.

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Referências

  • Kuwamizu R, Watanabe R, Yamamoto N, Otani K, Moriguchi Y. Dissociable pupil-linked arousal during overt and inner speech. iScience. 2026;29(11):117825. DOI: 10.1016/j.isci.2026.117825.
  • Artigo científico e figuras: Cell Press — iScience.
  • Registo bibliográfico e resumo: PubMed.

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Nota: conteúdo informativo baseado numa investigação científica. As aplicações ao treino motor são hipóteses a explorar e não conclusões diretamente demonstradas pelo estudo.